Depoimentos III

O Brasil e a EMBRAPA

Alysson Paolinelli, presidente da Abramilho e ex-ministro da Agricultura, colunista d'A Granja

Se há de fato uma instituição que marcou mudanças no Brasil nestes últimos anos foi a Embrapa. Na década de 1960, o Brasil se caracterizou como um país em mudanças. Deixava de ser um país rural e iniciava a sua jornada como um país urbano, com uma indústria em sua maioria sem capacidade competitiva em busca de progresso e riquezas. Nem a indústria era competitiva e nem o setor rural, que havia conseguido por meio de seus produtos tropicais criar as riquezas para que o País gerasse a sua indústria. Ambos não eram capazes de atender as demandas internas, especialmente na área da alimentação. A metade da população que ficara no campo não era capaz de produzir o necessário ao abastecimento da outra metade que partira para as cidades. Mesmo já tendo ocupado todas as suas terras produtivas. O Brasil passou a ser importador de alimentos.

Até a segunda metade da década de 1970 a economia relativamente se equilibrava, pois a conta café produzia um saldo na balança comercial que era suficiente para subsidiar a indústria obsoleta e o alimento que ainda era barato. No entanto, no final da década de 1960 e no início da seguinte as coisas mudaram e muito. Um desequilíbrio climático em toda a região norte do globo colocou em risco o abastecimento alimentar no mundo inteiro. O preço dos alimentos mais do que dobrou no mercado internacional e em 1972 a primeira crise do petróleo elevou o preço do barril de US$ 3 para US$ 11, US$ 15 e até US$ 30. Não havia conta café capaz de pagar tamanha distorção, pois àquela época o Brasil importava 80% do petróleo que consumia. Estávamos indo Daniela Barros Paolinelli à bancarrota. Alguma solução quase milagrosa teria de ser inventada. O milagre teria de acontecer.

A única solução seria acreditar na agricultura. Mas como produzir se nem conhecíamos os nossos biomas, todos tropicais e subtropicais, onde o mundo nem havia se ocupado deles? A palavra "conhecimento" passava a ser a única solução milagrosa. Conhecimento a ser buscado onde? Até então o mundo só tinha conhecimento em suas áreas temperadas e já praticamente esgotadas.

A criação da Embrapa passava a ser mais que uma necessidade. Foi uma solução natural e desejável. Os mentores desta ideia aí estão, felizmente, em sua grande maioria, sempre a ela apegados e dando a sua contribuição de forma inestimável, pessoas a quem o País jamais poderá pagar a relevância dos serviços e visão de futuro. Eles realmente transformaram o nosso País de grande importador de alimentos num dos maiores exportadores e respeitados produtores de alimentos.

O que cabe em especial ao povo brasileiro é exigir que instituições como a Embrapa fossem não só preservadas, mas, sobretudo, respeitadas e apoiadas, para que elas possam representar o verdadeiro papel que lhes cabe: o de continuar a gerar novos conhecimentos que sejam capazes de manter a nossa competitividade intacta e soberana.