Depoimentos II

Uma SAUDAÇÃO de 200 milhões de toneladas

Kátia Abreu, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

As vésperas do início da colheita de mais uma safra recorde de grãos no Brasil – cerca de 200 milhões de toneladas –, torna-se obrigatório prestar uma homenagem a dois heróis do campo: o produtor rural e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que acaba de completar 40 anos.

O produtor rural, com seu empreendedorismo, aposta na força da terra e do seu trabalho para garantir alimentos baratos e de boa qualidade. Abastece o mercado interno e ainda gera riquezas para o País, sustentando a balança comercial com as exportações do agronegócio.

Assim como os agricultores, os pesquisadores e técnicos da Embrapa sempre acreditaram no potencial da agropecuária brasileira. E jamais desistiram. Nem mesmo quando as condições do clima ou da economia lhes foram desfavoráveis, dentro e fora das porteiras das fazendas.

Criada há quatro décadas por Eliseu Alves – um visionário – e fortalecida por outro, Alysson Paulinelli, a Embrapa aliou vontade política à inovação num momento em que o País era grande importador de alimentos.

Em 1976, o Brasil produziu 46,9 milhões de toneladas de grãos e fibras. Importávamos quase tudo: carne da Austrália, leite da Europa, arroz das Filipinas e feijão do México.

A importação custou caro ao Brasil e aos brasileiros, que comprometiam 48% da sua renda com alimentação nos anos 1970. Gastos que o futuro comprovou desnecessários diante do enorme potencial da agropecuária nacional Igo Estrela e da força e perseverança dos nossos agricultores.

Foi da busca pela autossuficiência que nasceu a Embrapa, apostando na grande vocação do Brasil. Seus pesquisadores inovaram ao desenvolver técnicas e tecnologias adaptadas à realidade da região tropical.

Eles deixaram de lado o conhecimento importado que não permitia aproveitar boa parte do nosso solo. O modelo agrícola bem-sucedido na América do Norte, na Europa e na Argentina não servia ao conjunto do Brasil.

A Embrapa buscou profissionais em universidades rurais, já na época um modelo diferenciado de ensino e pesquisa, no padrão das universidades norteamericanas. E investiu na profissionalização desses brasileiros, mostrando que nenhum país pode se desenvolver sem pesquisa e inovação patrocinadas pelo Estado.

A revolução verde que promoveu a conquista do cerrado brasileiro foi fruto da ousadia da Embrapa, transformando uma região desacreditada em ilha de excelência e permitindo ao Brasil alcançar o segundo lugar no ranking mundial da produção agrícola, atrás apenas dos Estados Unidos.

Deu certo. Não apenas uma vez, mas 200 milhões de toneladas de vezes.