Ex-Presidentes

 

Por que a Embrapa foi criada e quais PRINCÍPIOS a fundamentaram?

Eliseu Alves, pesquisador da Embrapa, presidente de 1979 a 1985

Entre meados da década de 1960 e início dos anos 1970, os preços dos alimentos dispararam, como consequência da explosão das demandas interna e externa e da falta de resposta adequada da agricultura. A dívida externa começava escapar ao controle. Sob a liderança do ministro Delfim Netto, decidiu-se mudar a política agrícola, que passou a se preocupar com a produtividade da agricultura e exportações agrícolas. Por iniciativa do ministro Cirne Lima, foi criado, no Rio de Janeiro, sob a administração da Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural (Abcar), um grupo de trabalho para estudar por que a agricultura não respondia adequadamente aos estímulos de preços, mesmo com a expansão da fronteira agrícola.

Parte dos integrantes do grupo pertencia à equipe do ministro Delfim Netto e parte, à Abcar, sendo o líder do grupo o professor José Pastore. O grupo rejeitou a hipótese da existência do estoque de conhecimentos e concluiu que era necessário investir pesadamente na geração de conhecimentos e reformular a pesquisa do Ministério da Agricultura. A criação de uma nova instituição de pesquisa foi proposta ao ministro Cirne Lima, que a aceitou, sendo ela logo viabilizada, no Governo Garrastazu Médici, pelo ministro Delfim Netto. Em dezembro de 1972, o Congresso Nacional aprovou a criação de uma empresa pública, de direito privado, a Embrapa, para gerar a tecnologia que a modernização da agricultura requeria. Na época, algo inacreditável e que viria ter enorme impacto na agricultura brasileira. A Embrapa foi instalada em 26 de abril de 1973.

Entre os princípios se destacam os seguintes: presença física em todo o território, com visão nacional; unidades de pesquisa especializadas em produtos, biomas e temas, com o mandato de resolver problemas dos agricultores no âmbito da sua especialização; laboratórios de nível internacional e cientistas competitivamente pagos, também de nível internacional, abrigados numa carreira que estimula a inovação e o desejo de progredir sempre; presença marcante na área internacional, nos centros avançados de ciências agrárias e universidades; parceria com as universidades brasileiras e iniciativa particular, regida por contratos e baseada em problemas bem delimitados; a pesquisa começa com um problema do agricultor e termina com tecnologia na sua mão, e é sempre retroalimentada; prestação de contas à sociedade, nos níveis federal, estadual e municipal, urbano e rural; mostrar rigorosamente quanto cada real investido na Embrapa rende; ser um dos braços do Governo Federal em ciências agrárias aplicadas e responder as suas demandas, no campo de seu mandato.


Embrapa, minha VIDA

Carlos Magno Campos da Rocha, chefe geral da Embrapa Pesca e Aquicultura, diretor presidente da Embrapa de 1989 a 1990

A minha vida e a história da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária são duas entidades difíceis de serem separadas. Em muitos locais, meu nome é "Carlos Magno da Embrapa". Ingressei nesta casa em 1974, recém- saído do curso de Agronomia de Viçosa/ MG, quando a empresa era um bebê prestes a completar um ano. E ao longo de grande parte desses 40 anos, a Embrapa foi e tem sido meu trabalho, minha paixão, o pão dos meus filhos, a empregadora da maioria de meus amigos, causadora de razões de orgulho e de motivos de insônia, fonte de imenso prazer e também de preocupações. Tenho um orgulho imenso de fazer parte dessa história porque vivenciei o que a Embrapa fez para o País. Para o cidadão de hoje é difícil imaginar o Brasil de 40 anos atrás, um País que importava o arroz e o feijão nosso de cada dia e não dava conta de suprir o seu próprio consumo interno de alimentos. A resposta seria uma empresa nacional voltada a gerar conhecimento científico para a nossa agricultura. Uma insanidade para a época. Basta dizer que o Brasil não era exatamente um celeiro de doutores e mestres em agropecuária. Para contornar a situação, foi criado o maior programa de pós-graduação do mundo em agropecuária para um país tropical em desenvolvimento. Eu fiz parte desses primórdios.

Comecei meu trabalho como pesquisador em plantas forrageiras e pastagens e, após pouco mais de uma década, passei para a gestão, chegando a ser chefe geral da Embrapa Cerrados em 1988. Mal esquentei a cadeira da chefia. Em menos de um ano e fui convidado pelo ministro da Agricultura para assumir a Presidência da Embrapa, eu tinha somente 37 anos de idade. O mais novo presidente da empresa até hoje. Aposentei-me em 2009 após voltar a ser chefe geral da Embrapa Cerrados por mais dois mandatos.

Um ano depois, fui chamado de volta para um desafio inédito, começar um centro de pesquisa em Palmas. Hoje, já estruturada e em vias de ocupar a sede própria no fim de 2014, a Embrapa Pesca e Aquicultura tem a ousada missão de fazer valer o potencial brasileiro de produzir proteína das águas. Área tão promissora que fez o BNDES chamar a aquicultura de "novo pré-sal". Além disso, um outro grupo de pesquisadores em sistemas agrícolas atua na região do Matopiba, formada pelo sul dos estados do Piauí e do Maranhão, oeste da Bahia e pelo estado do Tocantins, considerada a última fronteira agrícola do Brasil. Aqui, em meio a um bando de pesquisadores, analistas, técnicos e assistentes jovens, muitos recém-saídos de suas pós, sou mais um entre eles, com o mesmo entusiasmo juvenil de quando ingressei. Coisas que só uma empresa que se renova, se atualiza e se reinventa a cada dia consegue proporcionar. Dona Embrapa, sou apaixonado por você! Te amo!


PARCERIAS que ajudaram a mudar o campo

Murilo Flores, pesquisador da Embrapa, presidente da Embrapa de 1990 a 1995, atualmente secretário de Planejamento de Santa Catarina

Na história da Embrapa podemos encontrar parceiros que ajudaram a fazer com que a informação científica e tecnológica se expandisse dentro do mundo rural, atingindo ainda interessados do mundo urbano. Nesse contexto, A Granja tem especial destaque. Sempre com uma linguagem adequada ao seu público, com base jornalística, mas sem perder a qualidade científica, tanto nas matérias sobre problemas e soluções tecnológicas como na simples informação jornalística, além dos informes sobre eventos do mundo rural, A Granja vem cumprindo seu papel ao longo de sua história e a Embrapa, em seus 40 anos de existência, pode exercitar uma bela parceria com esse veículo de comunicação.

No Brasil, não é fácil uma organização de comunicação completar 69 anos, e de permanente sucesso, nem uma organização pública de pesquisa completar 40 anos, com sucesso. São histórias que se entrelaçam e fundamentais para definir um novo perfil para a agricultura brasileira. Quando eu estava na Presidência da Embrapa, nos anos 90, lutávamos para alcançar a marca simbólica de produção anual de 100 milhões de toneladas de grãos. Vinte anos depois, nos aproximamos de 200 milhões de toneladas. Realmente, o mundo rural mudou.


CONTRIBUIÇÃO decisiva para a agropecuária brasileira

Alberto Duque Portugal, consultor e professor associado da Fundação Dom Cabral, presidente da Embrapa de 1995 a 2003

A Embrapa é reconhecida no Brasil e no mundo como uma instituição de sucesso que deu uma contribuição decisiva para desenvolver a agropecuária brasileira, com reflexos em todo o mundo tropical. É uma instituição líder em tecnologia agrícola tropical. Os bons resultados advêm de decisões acertadas tomadas por seus fundadores e dirigentes. Destacam-se o arrojado programa de formação de recursos humanos, a gestão orientada para soluções e resultados e uma forte interação com a academia e com o mercado. Vale destacar a competência da academia brasileira na geração de conhecimento científico e a capacidade empreendedora do empresariado rural. Na economia do conhecimento que caracteriza o século 21, a Embrapa terá um papel cada vez mais importante. O sucesso de sua contribuição no futuro dependerá de alguns fatores.

Em primeiro lugar, da contratação e da retenção de recursos humanos talentosos, dedicados, comprometidos e plenamente integrados com os avanços do conhecimento mundial. O processo de geração de conhecimento e tecnologia será cada vez mais dinâmico, resultando em tecnologias com grande poder disruptivo, portanto com capacidade de mudar vantagens competitivas. Em segundo lugar, a Embrapa precisará trabalhar cada vez mais integrada com o mercado, desenvolvendo uma competência em inteligência estratégica, para monitorar tendências e sinais, uma estrutura ágil de P&D para produzir soluções e resultados e uma rede de negócios tecnológicos e de comunicação para atender ao mercado. Em terceiro lugar, o sucesso dependerá da criação de um arcabouço legal brasileiro compatível com as características da ciência, tecnologia e, principalmente, inovação (PD&I). Embora não dependa diretamente da Embrapa, ela pode, com seu prestígio junto à sociedade brasileira, ser um agente poderoso para colocar o tema em pauta em 2014. Ao lado da educação, esta é a questão mais decisiva para o desenvolvimento brasileiro. É preciso acreditar que "a inovação é a forma social e econômica da esperança".