O Segredo de Quem Faz

 

O que a Embrapa PROMETE para o mundo

Leandro Mariani Mittmann
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O 11º presidente da Embrapa em 40 anos detalha nesta entrevista exclusiva os planos, objetivos e, sobretudo, os muitos desafios da principal instituição de pesquisa para a agricultura tropical do planeta. Desde outubro de 2012 o engenheiro agrônomo Maurício Antônio Lopes, que tem mestrado e doutorado em Genética em universidades americanas e pós-doutorado pelo Departamento de Agricultura da FAO/ONU, na Itália, lidera a instituição que tem praticamente 10 mil funcionários, dos quais quase 2.400 pesquisadores de alto nível de conhecimento, e um orçamento anual de R$ 2,3 bilhões. "Um dos nossos principais objetivos é fortalecer a capacidade da Embrapa para responder aos desafios atuais da agropecuária brasileira e, ao mesmo tempo, prepará-la para antecipar e enfrentar os desafios do futuro", sintetiza a missão de cada funcionário da estatal.

A Granja — A contribuição da Embrapa para o desenvolvimento da agropecuária brasileira nos últimos 40 anos é conhecida. Como a empresa está se preparando para enfrentar os desafios da agropecuária nos próximos anos?

Mauricio Antônio Lopes — Mudanças substanciais serão necessárias para enfrentarmos com sucesso o desafio de alimentar uma população em contínua expansão nas próximas décadas. Isso exigirá novas abordagens no gerenciamento e uso de recursos críticos como solo, água, biodiversidade e energia, além de serviços ambientais necessários para a produção agropecuária e florestal. A busca da sustentabilidade será constante, pois estudos e análises recentes mostram que a eficiência da agricultura será fortemente desafiada por alterações do clima. Novos progressos em vários campos do conhecimento, da biologia à genômica, da física e química à nanotecnologia, no campo da informação e comunicação, com inúmeras inovações, elevaram nossa habilidade de compreender processos complexos e responder a novos desafios e riscos. Um ingrediente fundamental no futuro é o planejamento baseado em processos de inteligência estratégica, que nos permitem identificar ameaças, riscos, oportunidades. Para isso, a Embrapa lançou, em 2013, a plataforma Agropensa, que é um ambiente dedicado à geração de dados e informações para orientar as estratégias, prioridades, programas e ações da Empresa, sempre em conjunto com nossos parceiros.

A Granja — O senhor tem falado que centenas de novas pragas podem chegar ao Brasil nos próximos anos. O que pode ser feito para evitar danos futuros à agricultura brasileira?

Lopes — Levantamentos recentes mostram que, dada a intensificação da agricultura no Brasil e o aumento do comércio internacional, cerca de 150 pragas e doenças podem chegar ao Brasil nas próximas décadas. O surgimento repentino da Helicoverpa armigera é um retrato do que será o futuro. Defesa agropecuária e segurança biológica deverão se tornar grandes prioridades para o Brasil. O País tem que estar preparado não apenas para evitar a chegada de pragas, mas para enfrentá-las rápida e eficientemente. O que podemos fazer é o que fazemos sempre: ampliar os conhecimentos. Conhecer bem as pragas, seus inimigos naturais, buscar novos controles biológicos, novos controles químicos, selecionar plantas e animais resistentes a estas pragas, desenvolver manejos integrados e práticas culturais que inibam a adaptação e multiplicação das pragas.

A Granja — A FAO aposta no Brasil para alimentar as pessoas que vão nascer nos próximos anos. Que desafio isso representa para o País?

Lopes — A oferta de alimentos tem que crescer em função do aumento da população e da sofisticação da demanda por alimentos, decorrente da elevação da renda. Mas essa oferta enfrentará um quadro cada vez mais crítico de limitações: intensificação de estresses climáticos, obsolescência tecnológica, limitada disponibilidade de terras, fadiga dos sistemas convencionais de produção, dentre outras. Nesse cenário teremos 20 anos para aumentar a nossa oferta em mais 100 milhões de toneladas de grãos. Teremos que aumentar a eficiência em tudo o que fazemos: no uso da terra e da água, na conversão de insumos em grãos, carnes e fibras, na densidade nutricional e funcionalidades de cada alimento. Por isso, a parceria entre pesquisa pública e o setor privado será crucial para ampliar a capacidade de dar soluções para problemas mais complexos e desafiadores.

A Granja — Uma das tecnologias mais impactantes sobre a atividade agrícola é o zoneamento agroclimático. O que ele representa para a produção agropecuária sustentável e seu futuro?

Lopes — O zoneamento de risco climático hoje orienta a alocação dos recursos de crédito e do seguro rural no Brasil. Ele é um sistema de gestão do conhecimento que ajuda o produtor a melhorar suas decisões sobre o que plantar, onde plantar e quando plantar, de acordo com as características do ambiente, do clima, do solo e da planta. Isto reduz o risco de quebra de safras e contribui para a melhoria da produtividade e o aumento da produção, com os efeitos benéficos que isto tem sobre o meio ambiente. O zoneamento de risco climático vem ajudando a profissionalizar e a intensificar a produção agrícola, aumentando a eficiência do crédito rural, que hoje contabiliza cerca de R$ 170 bilhões, e reduzindo a necessidade do seguro agrícola.

A Granja — O que fazer para estimular os jovens a irem para o interior e investirem na agropecuária? Qual deve ser o papel da Embrapa nesta questão?

Lopes — É crucial para o futuro da agricultura brasileira, pois toca a formação de novas gerações de produtores e a sucessão nas propriedades rurais. Para se sentir estimulado, é preciso que o jovem visualize a possibilidade de exercer uma atividade econômica que lhe dê uma vida digna, com bemestar e progresso pessoal. Os primeiros obstáculos são o acesso à terra, que exige investimentos cada vez mais altos, e ao conhecimento específico para o negócio agrícola, que se torna cada vez mais complexo e sofisticado. Nós já temos o programa de reforma agrária, o apoio do sistema S, cooperativas, associações, sindicatos, agências de crédito, ONGs. A Anater (Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural) terá um papel importante em estruturar as redes de assistência técnica continuada e frequente necessária para enfrentar os riscos do negócio. Políticas públicas que organizem, no município, a armazenagem, a oferta de insumos, a compra da safra, o processamento e outros, além dos serviços públicos de educação continuada, acesso a recursos modernos de informação e comunicação, são essenciais. Nos municípios onde essa organização aconteceu, a agricultura prosperou e surgiram novos fazendeiros. O papel da Embrapa e das organizações de C&T é o de sempre: gerar conhecimentos em genética avançada, sistemas de produção viáveis, controle de estresses bióticos e abióticos, automação, inovações gerenciais diversas e apoiar a Anater com acesso à informação em tempo real, treinamento e capacitação de multiplicadores.

A Granja — Que balanço o senhor faz hoje do Código Florestal como política pública que teve na sua elaboração a efetiva contribuição da pesquisa agropecuária?

Lopes — A agricultura brasileira já exibe relevantes contribuições à sustentabilidade. O Brasil mantém 62% de sua cobertura vegetal natural, o que é raro, evitou maiores desmatamentos, com o aumento da produtividade de grãos e carnes, com o plantio direto, que já alcança mais de 30 milhões de hectares, promoveu uma revolução na preservação dos solos e da água. Em adição a todos esses avanços, o Brasil revisou sua lei ambiental, o que nos habilita a marchar firmes na direção de maior sustentabilidade. No processo de fornecer subsídios técnicos para a elaboração da lei foi possível identificar gargalos de pesquisa e prospectar novas demandas da sociedade. Temos, então, o Projeto Biomas, que nasceu nessas discussões e busca suprir parte das demandas levantadas. Hoje, temos mais clareza sobre o que tem que ser feito. O Código Florestal precisa ser constantemente discutido e aprimorado a partir de evidências científicas, e já estamos nos preparando para disponibilizar o que existe de resultados de pesquisa para aplicação imediata.

A Granja — O Brasil ainda tem um grande desafio que é a inclusão de micro e pequenos produtores no fluxo de crescimento. Que avanços podemos esperar neste campo nos próximos anos?

Lopes — Não temos dúvidas sobre nossa responsabilidade para com os milhões de pequenos produtores brasileiros. Mas não basta criar novos conhecimentos. É preciso criar condições para que sejam usados pelos agricultores. Isso significa superar problemas de organização das propriedades e do seu entorno, a começar pelos problemas de escala de produção, para reduzir os riscos da adoção e da mudança. Estamos seguros que a criação da Anater representará um importante fator na inclusão produtiva dos micro e pequenos produtores brasileiros. E a Embrapa pode contribuir para o fortalecimento da assistência técnica pública e privada nessa tarefa.

A Granja — No segmento de genética e desenvolvimento de cultivares muitas empresas privadas investem em pesquisa e inovação. Como a Embrapa tem se posicionado diante dessa realidade?

Lopes — O setor público sempre dependerá de empresas privadas que multipliquem e levem ao mercado suas inovações em melhoramento genético. Se, no passado, tivemos maior protagonismo na oferta de sementes é porque havia muitos espaços não atendidos pela indústria de sementes de então. Agora há um novo cenário em que os sistemas agrícolas consolidados pela pesquisa brasileira contam com uma indústria de sementes forte e sofisticada. Então, temos plena consciência de que não teremos o mesmo papel na oferta de variedades para soja, milho, algodão, mas que continuaremos a contribuir com esse segmento de inovação tão importante para o agronegócio brasileiro. Estamos ajustando nossas estratégias de pesquisa, negócios e transferência de tecnologia para permanecer nesse mercado competitivo, ao mesmo tempo em que temos uma importante participação no mercado de cultivares e variedades de outros grãos, frutas, hortaliças, forrageiras, etc., que compõem a diversidade dos sistemas de produção no Brasil. São cerca de 80 programas de melhoramento genético que garantem a relevante presença da Empresa nesse mercado.

A Granja — O Brasil já é um exportador de conhecimentos?

Lopes — Nossa participação na rede de cooperação técnica internacional, com o apoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), se ampliou e somos o 13º país com o maior número de publicações científicas. Não há dúvidas de que o conhecimento de uso agrícola de terras tropicais tem sido extremamente relevante para todos os países nessa faixa climática, sobretudo na África e na América Latina.

A Granja — Qual é a importância do programa de cooperação internacional da Embrapa na África? Qual é o retorno para o Brasil?

Lopes — A Embrapa funciona como um braço tecnológico do governo brasileiro, executora de instrumentos utilizados pelo Ministério das Relações Exteriores e por sua Agência Brasileira de Cooperação para a concretização da nossa política externa de cooperação. Assim, desenvolve, atualmente, 50 projetos em 18 países africanos. Trinta desses projetos são implementados pela iniciativa "Africa-Brazil Agricultural Innovation Marketplace", uma plataforma em que projetos de pesquisa e de transferência de tecnologia, articulados por pesquisadores africanos e da Embrapa, competem por financiamentos do Brasil e de parceiros internacionais, como o Banco Mundial e a Fundação Bill & Melinda Gates. Para o Brasil, a importância e o retorno se dão em duas dimensões: técnico-científica e política. Do ponto de vista técnico-científico, nossos cientistas e técnicos ganham experiência no contato com novas realidades e descobrem novas formas de tratar problemas quando têm a oportunidade de cooperar com outros países. No âmbito político, a cooperação internacional ajuda a ampliar a presença do País no cenário mundial e no eixo sul-sul, em questões relacionadas à segurança alimentar e nutricional no mundo e contribui para a disseminação de tecnologias tropicais, fortalecendo a presença da nossa indústria e dos produtos brasileiros nos mercados internacionais.

A Granja — Qual o principal destaque na agenda de prioridades da Embrapa neste momento em que a empresa completa 40 anos?

Lopes — Um dos nossos principais objetivos é fortalecer a capacidade da Embrapa para responder aos desafios atuais da agropecuária brasileira e, ao mesmo tempo, prepará-la para antecipar e enfrentar os desafios do futuro. Por isso, criamos o Sistema Agropensa, que vai ampliar a nossa capacidade de antecipação de cenários futuros, seus riscos e oportunidades. Para o presente já há vários temas relevantes: adaptação às mudanças climáticas globais e à nova lei ambiental brasileira; redução da emissão de gases de efeitos estufa; elevação da produtividade dos sistemas produtivos com sustentabilidade; alternativas de sistemas integrados, lavoura-pecuária e lavoura-pecuária- floresta; especialização e agregação de valores aos nossos produtos. Automação é outro tema importante, já que a mão de obra no campo está se tornando escassa.