Eduardo Almeida Reis

 

O LEITE E OS FATOS

Entra ano, sai ano, dezenas de milhares de brasileiros continuam acreditando na produção de leite como negócio. Embarquei nessa canoa e hoje estou convencido de que é vício. Pior que isso: recidivante, vício que torna a aparecer depois da cura.

Saudoso amigo, depois de se queixar do leite com o qual pelejou durante anos – suas lindas filhas, debaixo de chuva, lavando peito de vaca, enquanto os filhos, guapos rapazes, cortavam capim e cana para tratar do gado –, ameaçava recidivar no vício comprando mestiças de zebu com suíço, mas suíço bom, vacas que permitem pensar numa ordenha de 20 litros de leite sem escuma.

Há muitas explicações para o vício e a primeira delas é a seguinte: o leite é produto indispensável na fabricação dos queijos. Só isso justifica a produção do líquido fisiológico branco, opaco, secretado pelas glândulas mamárias das fêmeas dos mamíferos.

Hoje me considero vacinado sem risco de recidivas, mas há muito pouco tempo, coisa de dois anos, sempre que jogava da Mega-Sena, pensava comprar fazendinha de um amigo, 140 hectares subdivididos e empastados, construções primorosas e uma casa, em fase de acabamento, projetada por arquiteto famoso, com vista privilegiada sobre a mata do entorno. A casa fica no meio de uma área florestada em aroeiras, árvores que já estão de grande porte.

Só havia um problema. Região de terras ótimas, calcárias, tem pouca água e o poço semiartesiano exige limpezas regulares, porque é danado para entupir a tubulação. Conheci fazenda imensa no MS em que a tubulação galvanizada, de bom diâmetro, era desmontada e limpa uma vez por ano. Problema idêntico: a sede e as benfeitorias eram construídas na falda de uma serra de puro calcário.

Que fazer na fazendinha de 140 hectares? Tirar leite, ora bolas. Deve comportar 80 vacas da nova raça girolanda, também chamada Girolando, em produção. Tem várzea suficiente para produzir grande quantidade de silagem de milho.

Enquanto planejava a compra, divertime à beça, sem os aborrecimentos inerentes à atividade leiteira. O primeiro dos quais é o seguinte: região muito procurada pelos milionários residentes na capital mineira, os salários dispararam. Na dependência da função, o trabalhador rural recebe de três salários mínimos para cima.

Vivenciei o problema numa fazenda do estado do Rio, quando me vi cercado de produtores rurais que só se movimentavam de helicóptero, "aquele trem que avoa para cima", como dizia meu terreireiro, e o Houaiss grafa terreirista. Mas é a tal história: Antônio Houaiss entendia muito de diplomacia, filologia, lexicografia e culinária, sem que fosse versado em sítios e fazendas.

Na emergência, salvou-me um fenômeno que ainda se encontra no interior deste país grande e bobo: gente que gosta de trabalhar. O patrão não era dos piores e a equipe não se importava de pegar no pesado pelos salários "normais", enquanto os empregados das fazendas vizinhas, ganhando muito mais, passavam as semanas à toa.

Digo que devo ter sido patrão razoável porque, em muitos anos de fazendas, nunca fui levado à Junta por um trabalhador rural. Só uma vez, quando três empregados se desentenderam com o administrador, irmão do mais velho e tio dos rapazes, levei-os à Junta para acertar as contas. Feia, gorda e mal amada, a funcionária da Junta disse a um por um: "Você tem direito a isso, e mais aquilo". E os três, cada qual a seu tempo, sem orientação do fazendeirinho, responderam: "Eu tenho direito ao que o doutor falou".

De repente, nos 140 hectares talvez fosse possível reeditar o fenômeno. Com 80 girolandas no leite não seria maluquice pensar em 30 mil litros por mês, algo em torno de R$ 30 mil, suficientes para pagar a folha, a ração, o combustível, o contador – essas coisas todas. Considerando que o patrão vive do que ganha escrevendo para fora, não seria loucura pensar num bom motorista, em carro blindado, para ir à cidade distante 100 quilômetros comprar guloseimas nas delicatessens. Carro blindado é hoje exigência na maioria das nossas cidades e nas zonas rurais. Na Itália de pósguerra, década de 50, foi assim e melhorou. Torço para que as coisas melhorem por aqui.

Esqueci-me de dizer que a casa, em final de construção, tem adega subterrânea para 1.200 garrafas de vinho. Com duas bandas largas de 15 megas cada, televisor grande, telefones fixo e celular, mata de aroeiras, clima admirável do Cerrado mineiro, dá para o sujeito viver muito bem. Mais que isso é exagero.