Plantio Direto

 

DESAFIOS da prática que mudou a agricultura brasileira

Tito Lívio da Luz Stelmachuk, professor da Unifil e mestrando em Agronomia da Universidade Estadual de Londrina/PR (UEL), [email protected], e Ricardo Ralisch, professor do Programa PG em Agronomia da UEL, [email protected]

O excelente desempenho econômico do agronegócio brasileiro é evidente. Há 13 anos consecutivos que a balança comercial é superavitária graças, em maior parte, ao agronegócio e à mineração. Todos os demais setores, serviços, comércio e indústria, são deficitários. Em 2011 o saldo da balança comercial brasileira foi de US$ 29,79 bilhões, mas o do agronegócio foi de US$ 77,47 bilhões. Em 2012 o saldo brasileiro ruiu para US$ 19,44 bilhões e o do agronegócio cresceu, US$ 79,40 bilhões! Enquanto o Brasil patina, o agronegócio cresce. Em 2013 deve ser o pior ano da economia brasileira dos últimos 11, mas o agronegócio cresceu 7,22%. De janeiro a outubro, o Brasil amarga um prejuízo no saldo da balança comercial de US$ 1,88 bilhão, enquanto a agropecuária já atingiu a cifra de US$ 72,13 bilhões, crescendo.

Em nenhum momento da consolidação do SPD se atribui a este sistema a capacidade de substituir as demais boas práticas agrícolas recomendadas e aos meios em que se realiza a atividade

O Brasil se tornou um importante ator na produção agropecuária mundial, apesar da inexistência de uma política agrícola de longo prazo, de todas as dificuldades em armazenamento e escoamento das safras, da insegurança fundiária, do sistemático e pouco fundamentado ataque ambientalista à atividade, do aumento dos custos de produção causados pela falta de estrutura e de logística adequadas, entre outros problemas internos. Apesar de todos os incentivos fiscais propiciados a outros setores da economia nacional, a economia brasileira deve toda sua estabilidade ao agronegócio, pois também é responsável por cerca de 1/3 do PIB e outro 1/3 da mão de obra empregada. Ao contrário da mineração, que deixa um passivo ambiental incalculável, a agropecuária brasileira tem ao seu dispor uma exploração amigável ao meio ambiente, preservando e até recuperando recursos naturais, sendo, de fato, sustentável. E ao que se deve tudo isto?

É preciso ver com cautela as propostas de aumento máximo do rendimento operacional das máquinas, enquanto o correto é adaptar as máquinas ao meio

Obviamente à demanda mundial e aos preços internacionais favoráveis dos produtos agrícolas. Mas, o principal é o aumento vertiginoso e constante da produtividade agropecuária brasileira nos últimos 40 anos, fruto de inúmeras tecnologias desenvolvidas, e absolutamente todas elas potencializadas e viabilizadas por um sistema plantio direto (SPD) consolidado.

Estamos convictos de que, se não tivesse havido o advento do SPD no Brasil e na América do Sul, nenhuma tecnologia teria sido tão eficiente na elevação da produtividade. Pior, mesmo com todos os excelentes estudos realizados nas décadas de 1960, 70 e 80 na área de conservação do solo e água, sem o SPD a erosão teria inviabilizado boa parte das áreas agrícolas atuais, aumentando os custos de produção e induzindo à expansão das nossas fronteiras agrícolas para compensar a redução da produtividade, ampliando os desmatamentos.

A ciência agronômica não teria evoluído para se tornar uma das mais abrangentes do mundo. A agricultura familiar teria se inviabilizado, aumentando o êxodo rural. A indústria de máquinas agrícolas não teria se estruturado e continuaria a ser importadora de tecnologias. O agronegócio não teria se tornado tão atraente às indústrias de insumos e não teriam feito os investimentos na ordem atual, para a adequação e a geração de novas tecnologias. Trata-se de uma revolução que se iniciou há 41 anos e que mudou os conceitos que vigoravam.

O meio ambiente e os recursos naturais passaram a ser considerados os principais insumos da agropecuária, que respeita a capacidade produtiva e reprodutiva do meio. Deve-se explorar a fertilidade do ambiente dentro de limites, que só podem ser definidos conhecendo-o muito bem. A Agronomia evoluiu para ser ambiental, onde o fator biológico tem seu peso reconhecido, estudado e ainda não totalmente entendido. O fantástico desempenho de nossa agropecuária se deve a este equilíbrio em construção entre os meios naturalmente férteis dos biomas tropical e subtropical e as estratégias conservacionistas de sua exploração.

Um pouco de história do SPD — Considera-se a Fazenda Rhenânia, de Rolândia/PR, o berço do plantio direto na América Latina. Foi a primeira área contínua e ininterrupta na adoção da técnica, desde 1972, e de onde se irradiou a experiência para os demais pioneiros do Brasil e do mundo. O início foi marcado pela visita de Herbert Bartz ao produtor Harry Young Jr., de Kentucky, EUA, que realizava o "No Till" há dez anos visando reduzir as operações agrícolas na produção de milho. Resultou da visita a aquisição e a importação da semeadora Allis Chalmers, que está exposta no Museu Regional do Plantio Direto, em Mauá da Serra/PR. Bartz viu no "No Till" a alternativa para não preparar o solo e minimizar a erosão. Trata- se de uma distinção fundamental no objetivo: enquanto nos EUA o "No Till" tem cunho energético, sua introdução no Brasil teve uma concepção clara e evidentemente ambiental.

Associado a outras experiências isoladas, ao interesse das pesquisas e à divulgação, esta fase inicial trouxe resultados animadores e se constatou a importância do mínimo revolvimento do solo, o primeiro fundamento. Na década de 1990 se constata a importância da cobertura permanente do solo, ampliando o conceito para plantio direto na palha, segundo fundamento e segunda geração. Porém, foi na década de 2000, a terceira geração, que se tem a constatação de sua grande virtude quando associado às rotações de cultura, o terceiro fundamento, e o quanto isto colabora para o incremento da biodiversidade do solo, fundamental para manutenção de sua fertilidade. Propriedade do solo de maior complexidade e vulnerabilidade passou a exigir um enfoque mais sistêmico e abrangente.

Consolidou o conceito de sistema plantio direto e confirma que a cobertura do solo pode ser feita com palha, mas se for com plantas vivas, melhor. Ressalta- se a maior reciclagem de nutrientes com a rotação de culturas e reduz a dependência de fertilizantes. O conceito e a concepção passam a ser adaptadas para absolutamente todos os sistemas de produção agropecuária, da horticultura à pastagem extensiva, passando pelas culturas anuais, semiperenes e perenes; da produção tradicional à agroecológica. É o SPD que confirma que a grande aptidão agrícola do mundo está em regiões tropicais e subtropicais e que é possível tornar a produção agropecuária harmoniosa com a natureza.

Desafios — Em nenhum momento da consolidação do SPD se atribui a este sistema a capacidade de substituir as demais boas práticas agrícolas recomendadas e específicas às culturas e aos meios em que se realiza a atividade, pois estão diretamente relacionadas com as características locais, como clima, solo, topografia, distribuição fundiária, etc. Portanto, os problemas que voltam a acontecer em algumas regiões produtoras, como a erosão, e que são atribuídos ao SPD, carecem de uma melhor interpretação da situação. Provavelmente se devem a não adoção de práticas recomendadas, associada a não adoção do SPD em sua integralidade, tornando a atividade muito vulnerável.

As propostas de intensificação da atividade e de sua simplificação levam aos dois erros. Já o interesse imediatista leva ao segundo. É preciso ver com muita cautela as propostas de aumento máximo do rendimento operacional das máquinas, pois isto leva a se adaptar o meio às máquinas, quando sabemos que o correto é adaptar as máquinas ao meio. Isto significa que o custo de produção com a mecanização é muito variável em função da topografia, e outras alternativas de compensação devem ser buscadas, como linhas de crédito específicas. Devemos estimular a terceirização das operações agrícolas urgentemente.

Da mesma forma, as propostas de agricultura de precisão e de tráfego controlado devem partir do princípio da complexidade da atividade e propor tantas alternativas quantas forem as variações de solo, de topografia e de distribuição fundiária. O que se tem hoje é uma volúpia comercial acentuada e que pretende uniformizar todas as situações para facilitar as técnicas empregadas. E aqui reside grande parte dos problemas encontrados atualmente. Da mesma forma, as propostas de simplificação no manejo de pragas, doenças, mato e da cultura podem ser verdadeiras armadilhas ou bombas-relógio se não forem observados conceitos básicos.

Quanto à ausência de rotação de culturas na maior parte das áreas, constatase que o imediatismo que se atribui ao produtor deriva de um sistema de custeio que não considera a atividade planejada em médio prazo, dificultando a estratégia de adoção das rotações. Os produtores que adotam a rotação de culturas são os que financiam a atividade com recursos próprios, aumentando seus riscos. Portanto, o que temos hoje na situação de um produtor que adota boas práticas agrícolas e SPD é uma concentração e individualização dos riscos, uma distribuição dos lucros com os inúmeros fornecedores e prestadores de serviços e uma coletivização dos benefícios ambientais, que a sociedade não reconhece.

Perspectivas — Este quadro precisa mudar. É preciso ampliar o comprometimento dos produtores com a preservação ambiental, mas não se pode considerar que se faça isto com investimentos próprios. Há mecanismos de compensações e pagamentos por serviços ambientais e sociais já em uso, mas devem ser ampliados. Para tanto, necessitamos de uma política bem definida e objetiva e, também, de indicadores eficientes para avaliar os efeitos. Já temos as bases conceituais e são claras, basta empregá-las.

A Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação tem uma proposta de Indicador de Qualidade do Plantio Direto - IQP, feito com apoio da Itaipu Binacional para uma determinada realidade e que visa auxiliar os produtores a gerenciar sua atividade visando otimizar o SPD, proposta embasada e simples que poderá ser ampliada para as mais diversas realidades e interesses, trazendo benefícios a todos. Há muito ainda a ser expandido, as produções integradas, como ILP e ILPF, nos mostram isto. Há 140 milhões de hectares de pastagens a serem incorporadas em processo produtivos eficientes e conservacionistas; um reconhecimento das potencialidades do SPD só no ajudará.