Cana de Açucar

 

Palha atrapalha ou ajuda no manejo de DANINHAS?

Com a expansão da colheita mecanizada da cana em São Paulo, torna-se mais relevante a questão se a palha que não é mais queimada facilita ou não o controle das invasoras, inclusive na hora de usar herbicidas

Prof. Dr. Pedro Jacob Christoffoleti, área de Biologia e Manejo de Plantas Daninhas, Departamento de Produção Vegetal, Esalq/USP

A quantidade de resíduos deixados sobre a superfície do solo, após a colheita da cana-de-açúcar sem a queima das folhas secas, denominada na prática de palhada, é da ordem de 10 a 15 toneladas/hectare. A adoção da co- Fotos: Pedro Christoffoleti lheita mecanizada crua cresceu e trouxe muitas vantagens. Destaca-se menor uso de mão de obra, melhoria das priedades físicas e químicas do solo, redução da erosão e eficiência de uso da água. No entanto, esta prática afeta de forma significativa a flora daninha emergente, quando comparado com as áreas colhidas após a queima.

A palhada dificulta a emergência de plantas daninhas cujas sementes são fotoblásticas positivas, ou seja, dependem da incidência da luz para sua germinação, favorecendo a emergência de plantas daninhas com sementes com grandes quantidades de reservas em seu endosperma e fotoblásticas negativas. Outro aspecto que a presença da palhada influencia é na eficácia do herbicida, pois intercepta o defensivo antes deste atingir o solo. Assim, para que o herbicida possa atingir o banco de sementes de plantas daninhas no solo há necessidade de chuva ou irrigação. A água é responsável pela transposição do herbicida residual pela palha até atingir o solo e, assim, controlar as plantas daninhas em processo de emergência.

A quantidade de resíduos deixados sobre a superfície do solo após a colheita da cana-de-açúcar sem a queima das folhas secas, denominada na prática de palhada, é da ordem de 10 a 15 toneladas/hectare

Influência na flora emergente de daninhas — Em áreas de palhada há a predominância de plantas daninhas da classe das dicotiledôneas, conhecidas na prática como folhas largas. Normalmente as espécies predominantes apresentam sementes grandes, com muitas reservas em seus cotilédones, que lhes permitem germinar mesmo que a camada de palha seja espessa. As gramíneas, com ciclo de vida anual, são por sua vez desfavorecidas em termos de emergência, pois apresentam poucas reservas em seus frutos do tipo cariopse, assim como dependem da incidência de luz na semente para quebra de dormência. Assim, as plantas daninhas que têm sido mais abundantes em áreas de palhada são as espécies dos gêneros Ipomoea e Merremia, conhecidas popularmente como cordas de viola, além de espécies como mamona, mucuna preta, fedegoso, soja perene, dentre outras.

Christoffoleti: as plantas daninhas que têm sido mais abundantes em áreas de palhada são as espécies dos gêneros Ipomoea e Merremia, conhecidas popularmente como cordas de viola

A palhada, portanto, altera a composição específica do banco de sementes de plantas daninhas. De início, quando a colheita mecanizada sem queima é estabelecida em uma área, a emergência de plantas daninhas na área é reduzida significativamente. Porém, a medida que o sistema é utilizado vários anos seguidos, a flora de plantas daninhas adapta-se e exige medidas efetivas de controle. A composição da flora infestante em áreas de palhada é influenciada por quantidade, composição, periodicidade da produção e tempo de permanência da cobertura morta na área, que são características que dependem de cultivar, clima e manejo da área.

Nos últimos anos, no entanto, as possibilidades econômicas de uso da palhada como fonte de bioeletricidade têm deixado na superfícies quantidades reduzida de palha, e distribuída de forma desuniforme. Esta prática provavelmente irá influenciar de forma significativa a flora daninha emergente. Também alguns produtores estão fazendo aleiramento parcial ou total da palhada, deixando a linha ou a entrelinha sem a presença de palha, respectivamente.

Influência na eficácia dos herbicidas — O uso de herbicidas aplicados em condições de pré-emergência sobre a palha de cana é uma prática comum na canavicultura. Ela possibilita o uso de herbicidas de diferentes mecanismos de ação no controle de plantas daninhas de difícil controle e em fases precoces. Também é possível o controle de fluxos múltiplos de emergência, além de controlar plantas daninhas resistentes a herbicidas, e pode ser mais economicamente viável que outras práticas.

O uso de herbicidas aplicados em condições de pré-emergência sobre a palha de cana é uma prática comum nas lavouras e possibilita o uso de produtos de diferentes mecanismos de ação

A seguir, algumas dicas para o uso de pré-emergentes em áreas com palha:

• Usar como parte de um plano de manejo integrado

• Maximizar a uniformidade de distribuição da palhada

• Minimizar a movimentação de solo nas adubações e no cultivo

• Banco de sementes deve permanecer superficialmente

• Evitar o cultivo da entrelinha

• Conhecer as propriedades físicoquímicas dos herbicidas

• Escolher o herbicida e as doses corretas para cada talhão

• Selecionar herbicidas de melhor comportamento na palha

• Maiores doses do herbicida Para que um herbicida aplicado em condições de pré-emergência atue de forma eficaz, é necessário que este seja ativado no solo, ou seja, atingir a superfície do solo. Nas áreas de palhada, a transposição até o solo através da palhada é feita por meio da água resultante de chuva ou irrigação. Após atingir o solo, o herbicida é ativado (lixiviado) para a profundidade de germinação/ emergência das plantas daninhas. A palhada pode ser uma barreira para que o herbicida atinja o solo, principalmente para os aplicados em período de baixa precipitação pluvial ou sem irrigação e que têm baixa solubilidade em água e ficam retidos de forma irreversível na palhada. A palhada pode, com o tempo, adsorver o herbicida e diminuir sua disponibilidade para o solo, sendo que a intensidade de adsorção é dependente das características físico-químicas do herbicida.

As principais características dos herbicidas que favorecem seu comportamento adequado quando aplicado sobre a palhada são alta solubilidade em água, baixo coeficiente octano/água (Kow), ausência de volatilidade e foto decomposição. Dentre os herbicidas que apresentam estas características, destacam- se amicarbazone, imazapic, imazapyr, isoxaflutole, tebuthiuron, sulfometuron, hexazinone e sulfentrazone durante o período seco do ano, sendo que, para o período chuvoso, além destes herbicidas, acrescentam-se os demais herbicidas recomendados em canade- açúcar em condições de pré-emergência.

A quantidade de chuva ou irrigação necessária para que o herbicida atravesse a palha é normalmente de 20 a 40 milímetros, dependendo da habilidade do herbicida em atravessar a palhada. Para os herbicidas aplicados durante o período seco do ano, quando as probabilidades de chuva são baixas, é recomendável incremento de dose, comparado com as aplicações em períodos chuvosos. Este incremento depende da extensão do período seco, bem como da seletividade do herbicida.

Da mesma forma que a flora daninha e afetada, o recolhimento da palha para outras finalidades também interfere no comportamento do herbicida. Assim, temos que iniciar novos estudos de comportamento de herbicidas no solo nesta nova situação. Trabalhos de pesquisa têm demonstrado que a idade da palhada que permanece no campo não afeta a capacidade adsortiva da palha. Da mesma forma, diferenças varietais na quantidade de celulose e lignina não interferem de forma significativa na capacidade adsortiva da palhada.