Arroz

BRUSONE: problema real e cada vez mais frequente

A principal doença do arroz no mundo na safra passada incidiu em praticamente todas as regiões do Sul do Brasil. Medidas preventivas como algumas práticas de manejo, variedades resistentes e controle químico são estratégias eficientes

Engenheiro Agrônomo, M. Sc., Felipe de Oliveira Matzenbacher, Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). [email protected]

A brusone, causada pelo fungo Magnaporthe oryzae Sin.: Pyricularia oryzae, causa prejuízos consideráveis para a cultura do arroz por ocorrer em todas as fases de desenvolvimento da cultura e em todas as partes da planta, como folhas, colmos, grãos e panículas. Nas lavouras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina os maiores danos são observados no período reprodutivo, quando o fungo incide sobre a base da panícula, chamada brusone de "pescoço". Quando isso ocorre, o enchimento de grãos é comprometido e a redução da produtividade é significativa.

A melhor forma de evitar os prejuízos ocasionados pela brusone é por meio da prevenção. Inúmeras estratégias podem ser empregadas para isso, como o uso de variedades resistentes, controle químico e ajustes nas práticas culturais. A semeadura de variedades resistentes é a principal forma de prevenção da brusone (Zhu et al., 2012) e outras doenças na cultura do arroz. Em trabalhos conduzidos na Estação Experimental Agronômica do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) em ambiente controlado para favorecer a ocorrência da doença, os pesquisadores mostraram a importância do controle genético e da interação com a aspersão de fungicidas no manejo de doença.

Nesse trabalho, em condições sem aspersão de fungicidas, o rendimento de grãos da cultivar resistente a brusone foi de 87 sacas de 50 quilos/hectare superior à cultivar suscetível, mostrando o efeito genético no manejo da doença. Quando foi utilizado controle químico, a resposta ao produto foi mais significativa na variedade suscetível. Nessa, o incremento obtido com o controle químico foi de 60 sacas/hectare, mais de 100% de incremento em relação à variedade resistente, que foi de 28 sacas. Dessa forma, o benefício da resistência genética em um ambiente com alta incidência de brusone é extremamente importante para uma maior estabilidade produtiva. Em relação à aspersão de fungicidas, a resposta econômica em variedades suscetíveis é sempre superior à resposta a variedades resistentes.

Além da escolha do produto correto, o momento da aplicação de fungicidas é um fator extremamente importante para o sucesso no controle. O estádio de desenvolvimento ideal para o uso de fungicidas e prevenção de doenças de grãos, como cárie e carvão verde, além de brusone de panícula, é no emborrachamento da cultura (R2, segundo escala de Counce et al., 2000). Trabalhos desenvolvidos no Irga, na safra 2012/13, avaliaram o momento de aplicação de fungicidas, de diferentes grupos químicos, em relação à incidência de brusone na panícula e à produtividade da cultura.

Matzenbacher: a melhor forma de evitar os prejuízos ocasionados pela brusone é por meio da prevenção e para tanto inúmeras estratégias podem ser empregadas

Nesse trabalho, observou-se que, conforme foi atrasado o momento da aspersão após o emborrachamento da cultura (R2), a incidência de brusone da panícula aumentou significativamente e o rendimento de grãos reduziu. Um fato importante observado foi que, na situação experimental testada, os sintomas ocorreram no final do ciclo da cultura, onde a aplicação de fungicidas já não repercutiu sobre o rendimento de grãos em comparação com a testemunha sem aplicação. Dessa forma, o controle químico após os sintomas visíveis já não repercutiu no retorno econômico esperado.

Ajustes de manejo podem contribuir para redução da incidência de brusone, minimizando assim os danos. Normalmente, em áreas com deficiência hídrica, excesso de adubação nitrogenada, alta densidade de semeadura (mais de 120 kg/ha), deficiência de potássio e em áreas semeadas após a época recomendada, a incidência de brusone é maior. De maneira geral, quanto mais adequadas as práticas de manejo, maior será o potencial produtivo da lavoura e menor será a incidência de brusone e de outras doenças.

Considerações finais — Fatores meteorológicos, como alta umidade relativa do ar, dias nublados e temperaturas altas, favorecem os danos da doença. Em 2013, o excesso de precipitação nos meses de outubro e novembro atrasou a época de semeadura da safra 2013/14 em algumas regiões do RS, principalmente na Planície Costeira Externa e Depressão Central, regiões com histórico de ocorrência de brusone. Nesse cenário, os cuidados preventivos devem ser maiores para evitar perdas significativas de rendimento de grãos. Outro fator que agrava a problemática é a alta proporção da área do estado que cultiva variedades suscetíveis à brusone. Isso aumenta a preocupação e os cuidados dentro de cada propriedade e demanda maiores investimentos em fungicidas.