Indústria

 

Por dentro da fábrica da AGCO na França

A reportagem d'A Granja conheceu a unidade de Beauvais, onde foram fabricados desde 1960 quase 900 mil tratores e são enviadas para o Brasil as máquinas da Série 8.600

Leandro Mariani Mittmann*
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Na região da Picardia, ao norte de Paris, a AGCO mantém na cidade de Beauvais a maior fábrica de tratores da França – e uma das maiores na Europa do Grupo que fabrica os tratores das marcas Massey Ferguson e Valtra, em atividade no Brasil, além de Fendt e Challenger. Desde a inauguração, em 1960, a unidade já demandou para o mundo quase 900 mil tratores, dos quais, atualmente, a série 8.600 da Massey Ferguson é enviada ao Brasil. No mês passado, a empresa levou um grupo de jornalistas brasileiros ligados ao agronegócio para conhecer por dentro a indústria que emprega 2.300 pessoas. Ao lado da fábrica, está a indústria Gina, mantida em parceria de 50% com a marca alemã de máquinas agrícolas Class e que fabrica as transmissões automáticas CVT e Dyna-6 – esta última equipa os tratores da Série 7.000, montados em Canoas/RS.

Na fábrica francesa são fabricados cerca de 80 tratores por dia (um a cada cinco minutos e meio) de 75cv a 370cv, sendo que a capacidade da fábrica é para uma centena/dia. No ano passado foram 17.300 tratores fabricados. Da produção total, cerca de 80% a 85% deixam a França. Nos dias da visita, a empresa inaugurou um local exclusivo para a fabricação de cabines. Junto à moderna fábrica, a empresa mantém um pequeno parque com modelos históricos da Massey Ferguson, como o Modelo A, fabricado entre 1936 e 1939, revolucionário por ter sido o primeiro trator com três pontos. À época era fabricado na Inglaterra em parceria com outra empresa, atingia oito quilômetros por hora e teve 1.354 unidades levadas ao mercado. E o TE 20 com esteiras de metal, de 1958, o primeiro veículo a chegar ao Polo Sul.

Dos funcionários, 300 atuam na engenharia, cujo resultado do trabalho é compartilhado com as unidades sediadas nos EUA e no Brasil. A fábrica é abastecida por 9 mil peças armazenadas. Uma centena de caminhões de toda a Europa aporta no local com peças todos os dias. Os motores da marca Sisu (pertencente à AGCO Power) são fabricados na Finlândia, e ali só recebem partes periféricas. Cada trator possui 2.500 componentes, sendo que o motor, por exemplo, é considerado um componente único. Dos tratores fabricados na unidade, 99% são traçados 4 x 4 – apenas 1% é 4 x 2, enviado para lugares como a África. Numa visita detalhada à linha de montagem, os jornalistas conhecerem o minucioso processo que leva à elaboração da máquina.

Transmissões automáticas — Na fábrica Gina são feitas as transmissões automáticas CVT (transmissão de variação contínua), que equipam os tratores da Série 8.600, e Dyna-6, para a Série 7.000 – MF 7350, de 150cv, MF 7370, de 170cv, MF 7390, de 190cv, e MF 7415, de 215cv. A transmissão CVT (também usada em veículos de passeio) garante maior precisão na aplicação e gera economia de combustível, uma vez que permite a manutenção da velocidade e rotação do motor em um nível ideal ao trabalho realizado. Já a transmissão inteligente Dyna-6, que permite programação prévia e troca automática de marchas para determinada faixa de rotação, proporciona alto desempenho aliado à economia de combustível.

O gerente global da marca Massey Ferguson, Campbell Scott, destaca que a vantagem das transmissões é permitir mudar a velocidade do trator sem fazer a troca de marchas, o que facilita várias operações na agricultura. E, inclusive, no deslocamento do trator em estradas. "Permite melhor qualidade e melhor resultado", resume Scott. "Ajusta a velocidade para a atividade ser feita da melhor forma", ressalta. As transmissões permitem adequar a velocidade às revoluções por minuto (RPM) do motor, o que possibilita maior potência e menor consumo de combustível.

De Beauvais vem para o Brasil os tratores MF 8670, de 320cv, e 8690, de 370cv. Segundo Alfredo Jobke, diretor de Marketing América do Sul e que acompanhou a comitiva brasileira, os modelos são utilizados para trabalhos mais pesados em regiões canavieiras de São Paulo e no Cerrado, para tração de implementos pesados. E ele anunciou que talvez estes modelos poderão a vir ser montados na fábrica brasileira a partir de 2015. Nos próximos cinco anos, revela Jobke, a marca vai renovar toda a oferta de produtos. "Muita tecnologia será renovada", sintetiza. "A tecnologia está evoluindo e o produtor precisa de tecnologia". Hoje, por exemplo, 60% dos tratores da empresa são cabinados e a proposta é atingir 80%. A ideia, explica o executivo, é "unificar as tecnologias da AGCO no mundo", ou seja, com as demais fábricas da empresa.

Para 2014, revela Jobke, a meta da AGCO é ampliar a participação de mercado em 1,5 a 2 pontos percentuais. Em colheitadeiras, a empresa detém 15% de mercado e, em tratores, 48% (somando Massey Ferguson e Valtra). No caso de colhedora de cana, a partir da Santal, marca adquirida em 2012, a proposta é ampliar a atual fatia de 4%/5% para 7% no próximo ano. O principal indutor das vendas é o financiamento do PSI- Finame com juros anuais em 3,5% neste semestre. "Isso foi uma ajuda muito grande ao produtor", reconhece. Em 2013 deverá ser batido o recorde histórico de vendas de tratores e colheitadeiras. E Jobke prevê vendas aquecidas em 2014, visto que o produtor antecipou a compra de insumos com preços menores que os atuais.

Escola de Agronomia — Além de conhecer a fábrica, a delegação esteve no Instituto Politécnico La Salle, também em Beauvais, considerada a melhor escola de Agronomia da França. A Massey Ferguson cede por empréstimo cinco tratores por ano para a instituição onde estudam 1.700 alunos, inclusive, atualmente, dois brasileiros. No local são 200 hectares de trigo, milho, cevada, colza e ervilha, além de gado de leite. O administrador da fazenda, Benoit Lupurs, descreve que entre as experiências no local está o plantio direto, inclusive com uma plantadeira importada do Brasil. São três anos de testes e o maior entrave para a aplicação da técnica tão comum em lavouras brasileiras é a dificuldade de decomposição da matéria seca, visto que o clima frio e a não incorporação da palhada impedem que material se decomponha. "A janela é curta, não dá tempo para decompor a palha", esclarece Lupurs. "É preciso dominar a técnica", adverte. Outra diferença em relação à agricultura brasileira é a proibição de plantio de transgênicos.

* O jornalista esteve em Beauvais, França, a convite da AGCO