Compostagem

 

Possibilidades da COMPOSTAGEM acelerada

O processo feito por um biorreator é uma alternativa prática para gerar adubo orgânico a partir de diversos resíduos, inclusive industriais

Claudio Bellaver M.Vet. PhD, ProEmbrapa e Qualyfoco Consultoria Ltda; [email protected], Egídio Arno Konzen, eng. agrônomo, MSc, consultor do agronegócio, [email protected]

A adubação química se faz necessária para repor os nutrientes retirados pelas colheitas da produção de grãos, pastagens, cana-de-açúcar, café e produtos florestais, sendo que a expansão das áreas de plantio e as novas tecnologias incentivam o aumento da demanda por fertilizantes e possibilitam maior produtividade e rentabilidade das culturas. O Brasil é o quarto maior consumidor mundial de nutrientes para formulação de fertilizantes, mas é dependente de impor- Fotos: Divulgação tações. Em 2010 a importação representou cerca de 60% dos fertilizantes utilizados, configurando assim um forte atrelamento externo. Na tentativa de reduzir essa dependência, o Ministério da Agricultura definiu um Plano Nacional de Fertilizantes, no qual visa reduzir até 2016 as importações de fósforo, de 49% para 12%, e de nitrogênio, de 78% para 33%. Em relação ao potássio, a dependência deve continuar acima de 80%.

Ao mesmo tempo, a maioria dos cenários estratégicos não considera a produção de adubos orgânicos ou organominerais, os quais têm grande interatividade com os fertilizantes químicos. Isso acontece em parte porque as tecnologias existentes para produção de compostos orgânicos são pouco eficientes e implicam em excessivo tempo para a sua produção. Mesmo assim, o mercado nacional de fertilizantes orgânicos e organominerais vem crescendo e, em 2012, representou 10% do consumo de NPK no Brasil. E a tendência é de crescimento ainda maior para os próximos anos (Polidoro, J. in: V Fórum Abisolo). Ainda, é esperado um significativo aumento da produção nacional de fertilizantes organominerais de 3,5 milhões para 8 milhões de toneladas/ano até 2015, e para 15 milhões de toneladas até 2020. Isso representa uma grande oportunidade para quem tem a matéria-prima orgânica, principalmente resíduos. Mas, que resíduos seriam esses?

Uma listagem rápida mostra que os materiais para compostagem são os orgânicos de diversas cadeias produtivas, entre os quais podem ser citados os seguintes: todas as palhas agrícolas, cascas de cereais e de café; resíduos da poda de árvores; maravalha e serragem; papel e papelão descartados; resíduos de limpeza de grãos e de silos; bagaços de cana-deaçúcar, de frutas (uva, banana, laranja); tortas e filtrados vegetais danificados (de cana e cereais); estercos de confinamentos e camas de aviário, de suínos, de bovinos de leite; resíduos de incubatório; resíduos de restaurantes industriais e de feiras; lodo e borra de flotadores frigorífico, de celulose e de laticínios; resíduos da indústria de alimentos (carnes, cerveja, vinho e fermentações diversas); mortalidade de animais urbanos e rurais; biosólidos de biodigestores, de estações de tratamento de efluentes (ETEs) e de água (ETAs); cinzas de caldeiras à lenha; terra Fuller (usada no clareamento de gorduras) e a fração orgânica do resíduo sólido urbano (RSU).

Não existem boas estimativas no assunto, mas podem-se estimar potenciais como, por exemplo, os resíduos de incubatório, com produção de 65 mil toneladas/ ano; os lodos frigoríficos de suínos e aves, com mais de 500 mil t/ano; os dejetos de suínos e de gado leiteiro, com cerca de 135 milhões de m3/ano; as camas de aviário, com 9 milhões de t/ano. No caso do RSU, no Brasil são produzidas 180 mil t/dia (66 milhões t/ano) e na composição gravimétrica há 51% de materiais orgânicos. Sem entrar no mérito das atuais destinações do RSU e considerando apenas a metade como tendo possibilidade industrial, há cerca de 16,5 milhões de t/ano de orgânicos à espera de melhor destinação do que a dada atualmente. Sem contar todos os resíduos que se têm, nota-se que é um volume muito grande para ser desconsiderado pela cadeia de fertilizantes e pelos responsáveis por políticas públicas.

Assim, para esses volumes há necessidade de inovação tecnológica, a qual foi recentemente oportunizada por meio da compostagem acelerada em biorreator rotativo. Essa tecnologia cumpre os fundamentos da NBR 13591:1996 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e demais normativas, que definem a compostagem como um processo de decomposição biológica da fração orgânica biodegradável dos resíduos, efetuado por uma população diversificada de organismos, em condições controladas de aerobiose e demais parâmetros (relação de carbono: nitrogênio, umidade, temperatura, pH do meio, tamanho das partículas, porosidade, homogeneização da mistura).

O processo de compostagem acelerada se inicia imediatamente após a entrada do material no biorreator, atinge a sua máxima oxidação fermentativa entre quatro e sete dias e segue-se com a estabilização de 21 dias

O processo de compostagem acelerada se inicia imediatamente após a entrada do material no biorreator, atinge sua máxima oxidação fermentativa entre quatro e sete dias e segue-se com a estabilização de 21 dias. O processo é feito sob pressão negativa e, se necessário for, os compostos odoríficos voláteis podem ser biofiltrados. Portanto pode ser operado em regiões industriais dentro de uma visão de processo industrial com: a) recebimento de matérias-primas (os resíduos); b) a preparação da receita (misturas); c) o sistema de transporte para o biorreator; d) a fase oxidativa em biorreator e a estabilização; e) a industrialização do composto/organomineral; f) embalagem (sacaria, big bag, granel); g) a expedição.

A partir do diferencial de melhor processo em que todas as características físico- químicas são atendidas, têm-se como vantagens desse sistema o seguinte: melhor produto final; controle total da temperatura, umidade e oxigenação do processo; um menor tempo de processamento; pouca necessidade de mão de obra e de área; sem produção de gases de efeito estufa; sem produção de insetos, de chorume e de odor; opera independente de condições climáticas em sistema contínuo ou batelada, podendo ser totalmente automatizado em biorreatores de tamanho ajustado à demanda existente.

Nos demais tipos de compostagens, se não bem manejadas, podem ocorrer zonas de anaerobiose e compactação, produzindo metano, óxido nitroso, odores e formação de áreas mortas. O clima interfere no processo e, em regiões secas, a falta de adequada umidade leva ao retardamento da compostagem. Já em regiões úmidas aumenta a lixiviação de nutrientes e a produção de chorume.

Os compostos oriundos dos processos de compostagem adequadamente realizados apresentam-se como valiosos e eficientes insumos para produção agrícola. Quando obedecidas as exigências da equivalência nutricional de exploração das culturas, especialmente de gramíneas, as produtividades têm-se mostrado de 20% a 60% superiores às obtidas com a adubação tradicional (química). Além desse benefício, as adubações orgânicas sucessivas proporcionam o aumento da fertilidade do perfil de solo em profundidade, garantindo estabilidade de produção econômica e ambientalmente segura. Ao conjunto de informações desse artigo chega-se à prática da sustentabilidade de fato – o econômico, o social e o ambiental juntos.