Alemanha

 

AGRITECHNICA reúne o mundo em Hannover

Maior feira agrícola do planeta, na Alemanha, em novembro, teve a participação de 2.900 empresas de produtos e serviços de 47 países, inclusive indústrias brasileiras. A Granja também esteve no megaevento

Leandro Mariani Mittmann*
[email protected]

Texto e fotos

Em 24 imensos e climatizados pavilhões distribuídos numa área de 42 hectares, a mais avançada tecnologia agropecuária disponível aos mais diferentes cultivos e criações e de agricultores e criadores do mundo foi exposta durante uma semana na 15ª edição da feira Agritechnica, no mês passado, em Hannover, Alemanha. A reportagem d'A Granja conferiu o evento que reuniu 2.900 expositores e que, pela primeira vez, teve mais presenças internacionais do que alemãs (52% a 48%). O número de expositores aumentou em 7% ante 2011 e mais que dobrou em relação há dez anos. A feira é bienal e uma oportunidade única para as empresas realizarem/ encaminharem negócios, inclusive entre elas, e mostrar seus produtos pessoas de todo o mundo — 1/4 dos 450 mil visitantes não são alemães. O evento é promovido pela Sociedade Agrícola Alemã (DLG).

A Agritechnica é bienal e uma oportunidade única para as empresas realizarem ou encaminharem negócios, inclusive entre elas, além de mostrar seus produtos para visitantes

O presidente da DLG, Carl-Albrecht Bartner, lembrou que o crescimento do número de expositores é o "resultado, em grande parte, da globalização da Agritechnica". Ressaltou a inédita maior presença internacional. "Apenas da China temos mais de 100 expositores e mais de mil visitantes." "A Agritechnica 2013 é uma feira de liderança mundial que mostra as tendências da evolução tecnológica, sendo ao mesmo tempo um lugar para o intercâmbio especializado entre agricultores e fabricantes de tecnologia agrícola", acrescentou. "A nossa tarefa é entender uma agricultura de futuro em toda sua diversidade, descobrindo suas oportunidades e desenvolvendo conceitos e soluções concretas. Fracassaríamos nessa empreitada se reduzíssemos nossas ideias a um plano regional, nacional e até mesmo europeu. A agricultura e a tecnologia agrícola do amanhã buscam inspiração na diversidade das experiências; elas trabalham na lavoura da 'aldeia global'", acrescentou.

"O fato de estar aqui é a plataforma principal para o intercâmbio de conhecimento", explicou por que o evento atrai a atenção o CEO, Reinhard Grandke

O perfil de visitantes é o formado, em primeiro lugar, por investidores, que podem ser agricultores ou pessoas que têm projeto para esta área, descreveu o CEO da feira, Reinhard Grandke. Em segundo lugar, representantes comerciais e, em terceiro, empresas contratantes que prestam serviço – um setor importante na agricultura europeia. Depois, pesquisadores e professores, além de congressistas (são muitos os congressos no local) e delegações políticas. "O fato de estar aqui é a plataforma principal para o intercâmbio de conhecimento", justificou porque o evento atrai tamanha atenção. "O conceito hoje é levar o know-how, o serviço para outros países." Ele ainda mencionou que a DLG, formada por 24.500 associados (de produtores a indústrias) promove feiras há 128 anos.

Expositores verde-amarelos — Um grupo de cinco empresas brasileiras esteve presente na feira por meio do programa Brazil Machinery Solutions, uma parceria da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). "Promocionamos o Brasil em feiras mundiais", descreveu Marco Carlotti, gerente do programa. "São empresas maduras, que entendem as necessidades de países." A Tatu Marchesan participou na busca de um revendedor para atuar no Leste Europeu, nos mercados de Rússia, Ucrânia e Cazaquistão. Segundo Sherbel de Almeida, coordenador de exportações para Eurásia/ Oceania, a empresa objetiva nestes mercados fabricantes que adquiram peças fabricadas na empresa, como mancais, discos e pontos cultivadores. "Procuramos quem venda e fabricantes que utilizem estas peças", revelou. "Independente da marca do equipamento que ele tenha."

Jan esteve em sua terceira Agritechnica. "Dentro da Europa o nosso mercado é o alemão", destacou Heitor Kunzler, promotor de vendas. Conforme Guilherme Simoni, representante comercial para exportação, o mercado alemão, onde a empresa atua há 13 anos, é o mais exigente. "No momento em que entrar no mercado da Alemanha, abre para toda a Europa", afirmou. A Jan apresentou na feira a distribuidora de fertilizantes e calcário Lancer Maximus 12.000. A Miac Colombo buscava na feira uma revenda na Alemanha, assim como já possui na França, Holanda, Espanha e Grécia. "O motivo principal é mostrar a máquina", explicou Aderito Scabelo, gerente geral. Ele se refere à colhedora de feijão e amendoim Double Master IV. França, Holanda e Espanha cultivam feijão, assim como a Turquia, que também planta amendoim.

"Como líderes mundiais em colhedoras de forragens acopladas para trator, temos que estar nas principais feiras do mundo", justificou a participação Rafael Prado, da JF Máquinas Agrícolas. "Nossa intenção é expandir." A empresa, com sede em Itapira/SP e que tem no mercado externo de 18% a 20% de seus negócios, testa na Dinamarca a máquina para a colheita da planta Salix viminalis para a produção de energia térmica. A Kuhn do Brasil participou da feira junto à Kuhn francesa, empresa que tem 185 anos. Segundo Evandro Fülber, diretor comercial, a proposta brasileira foi "expandir a gama de produto do Brasil com nossa tecnologia em plantio direto". "A maior de todas as avaliações da feira 2013 foi observar a forte tendência à grande performance, maior eficiência, robotização, design e eletrônica", analisou.

Já a Stara levou à Agritechnica um pulverizador, uma plantadeira e um distribuidor de fertilizantes. "Nosso objetivo é mostrar num pequeno espaço o que produzimos", avaliou Márcio Fülber, diretor comercial. Ele mencionou como foco da empresa os mercados promissores, visto as amplas e férteis áreas, situados no Leste Europeu – Rússia, Cazaquistão, Ucrânia e Bielo-Rússia. A empresa já tem cinco importadores na região, mas procura mais cinco. "O objetivo é abrir mercado, sermos vistos. A ideia é mostrar os nossos produtos", justificou a participação na Agritechnica. É a quinta participação na feira da empresa que exporta 10% do que produz – mas mira 20%.

Em sua segunda participação na Agritechnica, a Kepler Weber compareceu de forma independente, com um estande no pavilhão da armazenagem. "Aqui na Europa é o lugar de passagem do mundo todo", lembrou Antonio Carlos de Campos, gerente de Exportações e Novos Mercados. Segundo ele, o "compromisso estratégico" da empresa é estar presente em 100% da África, do Oriente Médio e do Leste Europeu. Campos destacou que nesta região europeia a empresa busca manter contatos e se inteirar sobre os concorrentes. Na feira a proposta era fazer contatos, buscar informações, agendar entrevistas. "Conhecer a necessidade do cliente", acrescentou.

"Aqui na Europa é o lugar de passagem do mundo todo", justificou a presença na feira Antonio Carlos de Campos, gerente da Kepler Weber

Outra empresa com atuação no Brasil e presente em Hannover foi a alemã Krone, líder em seu país em equipamentos de fenação e forragem. A empresa foi fundada em 1906, está na quarta geração e faturou 1,492 bilhão de euros em 1012/13. Num amplo estande, expôs seus produtos variados, de carrocerias a máquinas para alimentação animal, como forrageiras e ensiladeiras autopropelidas. A empresa está no Brasil há três anos por meio do Grupo Bouwman, sediado em Castro/ PR, e o carro-chefe aqui são os produtos para gado de leite. Rafael Bouwman, gerente para América do Sul, destacou as máquinas autopropelidas da empresa, como a enfardadeira de fardos gigantes Big Pack, que pode ser usada em cana. Segundo ele, o diferencial é que já pica o material ainda no campo. "Se não picar no campo, vai ter que picar na indústria", descreveu. "Traz do campo pronto para queimar".

O jornalista esteve na Agritechnica a convite da Sociedade Agrícola Alemã (DLG) e do Ministério da Agricultura da Alemanha


CURIOSIDADES DE UMA FEIRA MULTICULTURAL

A Agritechnica surpreende pelo gigantismo e pela diversidade e quantidade de produtos. Sobretudo por ser realizada visando à agricultura e à pecuária de clima temperado, diferente, portanto, da agropecuária brasileira. A primeira imagem a chamar a atenção é o volume de equipamentos grades, subsoladores (foto) e arados, inclusive do tipo aiveca, em exposição. Visto à adoção maciça do plantio direto na agricultura brasileira, tais equipamentos sumiram por aqui. Mas, em razão do frio em muitos meses do ano, os agricultores europeus revolvem o solo para aquecê-lo e para incorporar a palhada para que se decomponha mais rapidamente. Ao lado das máquinas mais modernas do mundo, algumas revolucionárias, num dos pavilhões estavam para visitação relíquias antigas, tratores dos anos 1920, alguns com capota de lona. Um deles, da marca italiana de carros de luxo Lamborghini, datado de 1961.

Muitas das máquinas apresentadas em Hannover são incomuns ou improváveis no Brasil, pelas flagrantes diferenças de cultivos. Como a gigante colhedora de beterraba açucareira da Ropa, uma máquina de três eixos e 600cv e que colhe três hectares por hora. As rodas têm um metro de largura para preservar o solo. Seu valor? Entre 550 e 600 mil euros (até R$ 1,9 milhão). Ou a Grimme, que inventou a primeira colhedora de batata que separa o tubérculo das pedras. A máquina que custa 420 mil euros (R$ 1,33 milhão) possui um dispositivo que expulsa as pedras em meio ao processamento do material colhido. A invenção rendeu à empresa a medalha de ouro da Agritechnica, uma premiação muito desejada pelos expositores. Outra curiosidade é que as empresas seguem familiares e os executivos fazem questão de mencionar qual geração está no comando. A Lemken, fabricante de arados, grades, segadoras e outros, tem 130 anos de vida, explicou o porta-voz.