Na Hora H

 

O BRASIL AGRÍCOLA VISTO LÁ DE FORA

ALYSSON PAOLINELLI

Tive a oportunidade de participar de três eventos internacionais e vários encontros com autoridades, cientistas, produtores e empresas de comercialização em duas semanas de novembro, quando, com os companheiros produtores de milho e suas organizações da Argentina, dos Estados Unidos e do Brasil, visitei a Coreia o Sul e a China.

Formamos recentemente a Mayzall, uma associação exclusivamente de produtores de milho e suas organizações que representa a produção e a exportação de milho de Argentina, Brasil e Estados Unidos, que, por acaso, no último ano foram responsáveis, juntos, por 83% de todo o milho exportado no mundo. Queremos ver o que pensam e desejam de nós nesta nova e frenética fase do mercado mundial de alimentos, onde tantas e controversas opiniões e conceitos estão sendo emitidos.

Para nós não foi surpresa o que vimos e ouvimos na Ásia. Primeiro, num país em elevado grau de desenvolvimento, com uma economia muito sólida e num nível de educação dos mais altos do mundo, exercendo uma democracia exemplar, a Coreia do Sul hoje atinge uma invejável condição de competência, organização e capacidade de produzir riquezas numa área pequena e de poucos recursos naturais. Pode-se dizer que a grande riqueza daquele país é o seu povo educado e preparado em níveis de conhecimento atingido por poucos na face da Terra.

A Coreia do Sul sabe que não tem recursos naturais para atingir a sua autossuficiência em alimentos. Sabe que tem de importar muitos alimentos, inclusive o milho, principal objeto de nossa visita. Diga-se de passagem, este ano o Brasil foi o maior exportador de milho para a Coreia do Sul. Eles estão trabalhando intensamente na busca de tecnologia e inovação na produção de alimentos e fazendo maciços investimentos financeiros que possibilitam a seus cientistas, institutos e universidades buscarem as melhores soluções para o aproveitamento do seu pequeno território.

Conhecer as suas organizações científicas e sua racional organização governamental é um privilégio especialmente para nós brasileiros, que ainda estamos longe deles em organização e planejamento de seus Governos. Conhecer e dialogar com a elite pensante que aquele país tem e usa para aconselhar e orientar os governos e suas ações é viver um sonho e um exemplo de evolução que, esperamos, um dia poderemos chegar lá. Em todos os encontros, trocas de informações que ali tiveram, o que nos alentou foi o grau e o reconhecimento que eles têm do setor agrícola brasileiro. É mais do que uma referência ou admiração, é um respeito mesmo. Lá encontramos a Embrapa e a constante referência que fazem dela e do País.

Na China, onde realizamos a nossa segunda bateria de reuniões, encontros e estudos, a coisa não foi muito diferente. Um país superpopuloso, alegam já ter mais de 1 bilhão e 350 milhões de habitantes, um verdadeiro canteiro de obras que assusta a todos os visitantes, pois a cada dia, mês e ano as transformações são muito grandes. A China tem muitos recursos naturais, pois o seu país é e dimensões continentais, embora tenha uma grande área improdutiva que são seus desertos e montanhas rochosas. Também tem limitações de água. A área propícia à produção de alimentos a cada dia fica menor, pois a urbanização vai ocupando as áreas produtivas. Lá também o setor de ensino tem evoluído muito e o desenvolvimento das ciências é exemplar.

Estão investindo maciçamente em busca de tecnologia da produção de alimentos. Estão fazendo grandes reformas estruturais. Só para comparar, a grande reunião do Partido Comunista em outubro colocou a agricultura e a produção de alimentos em prioridade máxima, e os recursos para atender esta prioridade são ilimitados. Deramnos exemplos de reformas e inovações que estão realizando, tanto pelo Governo Federal como pelos governos provinciais. Chegamos a ter na Conferência sobre Segurança Alimentar que participamos a presença de dois governadores provinciais e quatro vices-governadores, que foram apresentar as suas reformas e inovações no setor agrícola. Estão lutando bravamente para atingir a sua auto-suficiência, mas como eles mesmos dizem, não é fácil alimentar uma população deste tamanho e que a cada dia aumenta a sua renda e quer mais e melhores alimentos. No entanto, repetem permanentemente o exemplo brasileiro e respeitam a nossa posição como novos supridores estáveis de alimento para o mundo. Eles aos poucos vão aprovando e experimentando novos alimentos exportados daqui.

Será que nós brasileiros também estamos acreditando no nosso setor produtivo agrícola que faz inveja ao mundo?

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura