O Segredo de Quem Faz

 

Um 2014 de maiores RISCOS

Denise Saueressig
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Mesmo que os sinais indiquem rentabilidades positivas para o produtor brasileiro na safra 2013/2014, é preciso prestar atenção a detalhes importantes que diferenciam o próximo ano do cenário observado no último ciclo agrícola. Na entrevista a seguir, o engenheiro de Produção Marcos Rubin, sócio e analista de mercado da consultoria Agroconsult, empresa da Plataforma Agro, fala sobre as projeções para o novo ano. Ele também conta as evoluções que viu na agricultura em oito anos de participação no Rally da Safra, expedição realizada desde 2004 pela Agroconsult e que percorre as principais regiões produtoras do País durante as fases de desenvolvimento e colheita das lavouras.

A Granja – Quais são as projeções da Agroconsult para a safra de soja 2013/ 2014?

Marcos Rubin – Para 2013/2014 existe a expectativa de um aumento expressivo na produção de soja. Na safra anterior, os produtores brasileiros foram beneficiados pelos problemas climáticos nos Estados Unidos, mas agora esse cenário é diferente, porque não houve quebra de safra por lá e já existe um certo reabastecimento do mercado. Mesmo assim, os preços se mantêm em bons patamares. Então, o produtor está plantando mais e deve ter níveis de preços que possibilitem uma boa rentabilidade. Além disso, a taxa de câmbio é vantajosa e favorece os negócios. No entanto, neste momento, o mercado está ansioso com relação ao que vai acontecer no Brasil e na Argentina, principalmente devido ao histórico de secas que são registradas frequentemente em algumas regiões, como o Sul e o Nordeste do Brasil. O mercado também está ansioso para entender como a logística vai absorver o aumento de produção e de exportação de soja pelo Brasil. A partir do momento em que o mercado tiver uma visão mais clara dessas situações, os preços devem se movimentar, ou pra baixo, ou pra cima. Se tivermos clima bom, a tendência é de queda nos preços. E se a logística não funcionar adequadamente, vamos precisar alongar os nossos embarques de exportações ao longo de 2014, causando um problema de abastecimento na China ou em outros países importadores, o que pode provocar impacto sobre os preços. Tudo isso forma um cenário interessante para soja: preços ainda em patamares elevados, um aumento de produção, mas muitas dúvidas em relação à logística. Se o clima for favorável e a logística funcionar razoavelmente bem, devemos ter redução nos preços, mas não significa que o produtor vai trabalhar com rentabilidades negativas, mas sim com rentabilidades inferiores com relação ao ano passado. Na Agroconsult trabalhamos com preços médios de US$ 12 o bushel para a safra 2013/2014. A variação cambial também implicou em um aumento de custo de produção na lavoura de soja na atual safra. Nós estimamos o investimento em R$ 1.422 o hectare, considerando o município de Sorriso/MT. Na safra anterior o custo foi de R$ 1.337 o hectare. A rentabilidade esperada é de R$ 817 por hectare, enquanto no ciclo passado foi de R$ 922 o hectare.

A Granja – E qual é a estimativa quanto à área plantada e à produção da oleaginosa?

Rubin - Nossa projeção de plantio de soja é de 29,6 milhões de hectares, 7% de aumento sobre a temporada anterior. Em produção, pela primeira vez o Brasil poderá passar de 90 milhões de toneladas. Nós trabalhamos com 90,7 milhões de toneladas e, na safra passada, foram 82 milhões de toneladas. Para os Estados Unidos, a previsão agora é de 88 milhões de toneladas. No total, o Brasil obteve um recorde de produção de 189 milhões de toneladas de grãos em 2012/2013. E esse volume só não foi maior porque houve secas localizadas e perdas devido à Helicoverpa armigera. Na atual safra, já ouvimos relatos em relação à praga, mas o produtor também está preocupado e agindo preventivamente. A dúvida ainda é o quão eficiente será esse controle preventivo.

A Granja – Se os problemas logísticos forem ainda mais sérios do que os observados na safra passada, o produtor pode ter uma perda ainda maior na rentabilidade, especialmente o produtor do Centro- Oeste?

Rubin – Nesse caso, temos os dois lados da moeda. O problema logístico pode impactar nos custos do transporte, assim como aconteceu em 2013, quando tivemos alta de preços nos fretes domésticos. Por outro lado, se o problema estiver mais concentrado nos portos, isso pode significar aumento de preços das commodities na Bolsa de Chicago. Para o produtor que ainda não tenha vendido a safra, pode haver algumas oportunidades mais interessantes de preços lá na frente. A questão é que dificilmente os problemas logísticos nos portos estão dissociados do transporte interno. Mas pode haver mudanças nos preços para a soja que ainda não estiver sido vendida na época do escoamento.

A Granja – Você esteve recentemente na China. Como estão as perspectivas para as importações de grãos por parte do país asiático?

Rubin – Quanto ao mercado chinês, não há mudança de curso em relação ao que vem ocorrendo nos últimos anos. A partir do momento em que a economia chinesa passou a crescer a taxas menores, foi colocada em dúvida a sustentação das importações de soja por parte da China. Mesmo considerando que uma turbulência lá significa crescer em torno de 7% ao ano. O Brasil é totalmente dependente das vendas para a China. E, na China, não há uma política de estímulo ao cultivo de soja. Existe o incentivo a outras culturas, como milho, arroz e trigo, mas, na soja, eles assumiram a sua posição de importadores. No ciclo 2012/2013, as importações de soja pela China ficaram abaixo do esperado pelo mercado, em torno de 60 milhões de toneladas. A projeção era de 65 milhões de toneladas. Isso aconteceu principalmente devido à gripe aviária que houve no país e que ocasionou uma queda na demanda por aves e, consequentemente, na procura por soja. Agora, os chineses devem voltar a importar mais soja do Brasil e dos Estados Unidos e, por isso, esperamos que ao longo de 2014 o ritmo de importação de soja pela China seja bem melhor do que foi em 2013.

A Granja – Quais as expectativas para a lavoura de milho em 2013/2014?

Rubin – Para o milho, o cenário é um pouco mais delicado. O primeiro fator está ligado ao mercado internacional, onde há excesso de produção e queda de preços. Isso se contradiz ao que observamos nas últimas semanas no mercado doméstico, quando tivemos leve alta nos preços em algumas regiões. Um dos motivos para esse aumento observado no mercado interno é o câmbio, e o outro é que começamos a entrar na entressafra no Centro-Sul do País. Se olharmos as projeções para o verão, vai haver uma queda na área plantada no Brasil e, se tudo der certo, uma produção de 32 milhões de toneladas, com plantio de 6,38 milhões de hectares. Até esperamos uma superoferta no País, mas só depois da segunda safra. Ou seja, essa produção na safra de verão será exatamente o necessário para o primeiro semestre. Se houver qualquer quebra na safra de verão, deveremos perceber um repique de preços no mercado doméstico. Só que há um limite para essa alta de preços, porque ao mesmo tempo em que podemos ter uma situação de falta de milho no primeiro semestre, por queda de safra, temos no mercado internacional, um cenário de queda nos valores. Quanto mais subir o preço do milho nos primeiros meses de 2014, mais safrinha será plantada. E aí, no segundo semestre, poderá haver queda de preços com excesso de milho no mercado. É um cenário de risco cuja amplitude será definida pela colheita de verão. A maior parte da safra de verão é colhida no Sul, onde há o maior risco climático para o milho. Então, temos estoques razoavelmente ajustados no primeiro semestre e talvez um excesso de milho no final de 2014, o que significa um cenário bastante parecido com o que vimos em 2013. Por isso, é muito provável que, assim como está ocorrendo agora, que o Governo precise auxiliar o mercado em 2014. Precisamos lembrar que a safra de milho norte-americana vinha aos "trancos e barrancos" há três anos. Houve quebra nas últimas três safras. Foi isso que fez com que os preços saíssem de um patamar de US$ 4 por bushel para US$ 7 ou US$ 8 por bushel. E agora os preços estão voltando ao que eram, o que fez inclusive com que o cereal chegasse ao patamar mais baixo dos últimos 38 meses em Chicago. Isso ocorreu porque os EUA estão colhendo uma safra de 355 milhões de toneladas. Então, é difícil termos uma situação de alta ininterrupta no mercado interno, enquanto os preços lá fora estão caindo. Podemos ter situações pontuais no mercado doméstico com altas de preços, mas no cenário internacional a realidade é outra.

A Granja – E para o algodão, quais são as projeções?

Rubin – O algodão conta com o benefício do câmbio nesse momento, que mudou de patamar em relação a 2012, fator que acabou incentivando o plantio. Também temos a confirmação da viabilidade da safrinha em Mato Grosso. Observamos uma recuperação da rentabilidade do produtor para 2013/2014, com migração de produtores de milho segunda safra para algodão no estado. Boa parte do aumento do cultivo da pluma na próxima safra é de segunda safra em MT, tendência que deve continuar nos próximos anos. O mercado anda bastante turbulento por alguns fatores, como a alta concentração de estoques na China. E é a política de compra e venda desses estoques que vai determinar como ficará o mercado em 2014. O produtor brasileiro tem rentabilidades positivas, mas o mercado tem risco elevado em função dos estoques elevados na China. Nossa expectativa é de que o plantio seja de 1,132 milhão de hectares, sendo que em 2012/2013 foram 894 mil hectares plantados. Já a produção é estimada em 1,6 milhão de toneladas.

A Granja – Você participou de oito edições do Rally da Safra. Nesse período em que trabalhou visitando as regiões do Brasil agrícola, o que mais chamou a sua atenção?

Rubin – O que eu posso dizer é que o agronegócio é extremamente dinâmico. Entre a primeira e a oitava edições do Rally, é a mesma coisa que você visitar uma cidade na China em pleno crescimento num intervalo de oito anos. Entre as evoluções, está a adoção da safrinha em larga escala. Em 2004, quando fiz a minha primeira participação, a safrinha era uma cultura de risco, não era completamente dominada do ponto de vista técnico, e os investimentos eram mais baixos, porque os riscos eram muito elevados. Hoje, a safrinha tem níveis tecnológicos altos, um domínio total por parte dos produtores, e os retornos também são muito elevados. Claro que para regiões onde a logística não é favorável, a rentabilidade também tem sido positiva porque os preços estão elevados. Mas, do ponto de vista técnico, os produtores dominam completamente esse cultivo. Outra coisa impressionante é que as estradas não mudam. As estradas que passamos em 2004 são praticamente as mesmas em relação àquelas que passamos em 2013. Você consegue ver alguma evolução nas estradas marginais, com asfalto, mas esse asfalto não dura mais do que dois anos. Do ponto de vista da gestão da propriedade, notamos que os produtores estão mais sofisticados, mais tecnificados, mais bem informados. O produtor brasileiro é de ponta, ele busca sempre novidades, ele não para. Os produtores que visitamos há dez anos e que visitamos hoje evoluíram muito. As fazendas, em algumas situações, são verdadeiras cidades, as máquinas ficaram maiores e têm mais tecnologia. O produtor também depende menos de quantidade de mão de obra, mas depende de mão de obra qualificada. Muita Muita coisa mudou nesses dez anos de Rally, mas infelizmente, as coisas mudaram muito pouco em relação às estradas. Temos alguns projetos novos na área de logística, mas que têm um tempo longo de maturação, que demoram para se concretizar. Mas o produtor fez a parte dele.

A Granja – Considerando a sua experiência e as perspectivas para a atual safra, que recado pode ser deixado para o produtor brasileiro nesse momento?

Rubin – A agricultura viveu anos mágicos. Os preços atuais são remuneradores, de uma forma geral. E, ao mesmo tempo em que vivemos três safras excelentes, temos que pensar que parte do nosso sucesso foi resultado de problemas climáticos que aconteceram nos Estados Unidos e em outros países. Tendo em vista que os preços hoje são positivos e que estamos partindo para um ciclo de excesso de oferta mundial, é preciso prestar atenção. O produtor brasileiro teve muita sorte e competência nos últimos anos, mas não podemos esquecer que os preços das commodities são cíclicos. Em algum momento deve haver um ajuste de preços. Nos últimos anos a expansão no plantio de soja foi bastante expressiva. Houve um aumento de cultivo e de produtividade média, ou seja, vai haver um excesso de oferta. E é provável que isso aconteça ao longo de 2014. Hoje o risco de haver uma queda de preços é maior do que havia em 2013. É importante o produtor ficar atento a isso. Se ele tem uma rentabilidade remuneradora, ele pode reduzir seus riscos, se expor menos a uma queda de preços, tentar garantir essa rentabilidade, porque o risco agora é maior.