Eduardo Almeida Reis

 

CONSTRUÇÕES

Tenho o livro Construções Rurais, do professor Orlando Carreiro, desde 1961, muito antes de começar a viver na roça. Com o passar do tempo, comprei uma porção de livros do gênero em diversos idiomas e até o Neufert, Arte de Projetar em Arquitetura, a Bíblia do ramo.

Basta lembrar que Peter Neufert dá as medidas dos degraus de uma escada, altura e largura, sem as quais as escadas ficam inviáveis. Errando um ou dois centímetros na altura entre os degraus, ou na largura e profundidade que devem ter, você inviabiliza uma escada para a maioria das pessoas. Sei disso, porque morei três anos num apartamento duplex em que o imbecil do arquiteto, que tinha espaço à vontade, inviabilizou o uso normal da escada.

Por incrível que pareça, muitos arquitetos saem das universidades sem saber como projetar uma rampa de garagem e o tamanho mínimo de uma vaga para automóvel médio, mas esse é assunto para construções urbanas e só quero, nesta conversa de hoje, falar sobre as construções rurais.

Só as sedes das fazendas permitem que se escreva um livro, mas me atenho aos aspectos que julgo básicos: suítes, bidês e fossas. Mesmo em casas modestas, a suíte é indispensável. Na roça há espaço de sobra. Foi-se o tempo das casas sem banheiro ou com um único banheiro numa sede imensa. Hospedei- me em fazendas assim: um banheiro lá no fim do corredor. Como também me hospedei em fazendas que tinham "água em casa", isto é, um rego no terreiro para lavar os pratos e as louças, bem como para pegar a água de cozinhar e a do banho para ser aquecida numa bacia: horror!

Bidê para mim sempre foi uma questão "filosófica", pois não entendo que se faça um banheiro sem bidê com esguicho. Não o telefoninho de parede, que molha tudo sem lavar o principal, mas esguicho no próprio bidê. Se os norteamericanos tivessem bidês não se meteriam nas guerras da Coreia, do Vietnam, do Iraque, do Afeganistão. E vou mais longe: o uso universal dos bidês acabaria com as cirurgias de almorreimas, do latim tardio haemorrheuma, "fluxo de sangue", que muita gente chama de hemorroidas, quando é sabido que almorreima entrou em nosso idioma nos anos 1400, enquanto hemorroida deixou para aparecer em 1677.

Fossa séptica é indispensável, barata, fácil de fazer. Se cada um fizer a sua e as prefeituras cuidarem do tratamento dos esgotos, a vida voltará aos nossos rios. Por enquanto, "ter esgoto" nas cidades brasileiras significa ter tubos que recolhem o esgoto das casas para jogálo nos rios. Mesmo as cidades importantíssimas de São Paulo, o estado mais rico do Brasil, têm números desanimadores.

Salesópolis coleta 100% dos esgotos e trata os 100% antes de despejálos nos rios. São Caetano do Sul coleta e trata 100%, mas Diadema coleta 93% e só trata 13% do material coletado, Santo André coleta 96% e trata 40%, Cajamar coleta 63% e despeja tudo in natura nos rios, a exemplo de Barueri, Francisco Morato, Itapevi, Franco da Rocha, Jandira e vários outros municípios, que têm números variáveis de coleta sempre com tratamento zero. Itapecerica da Serra só coleta 9% para despejá-los nos rios sem qualquer tratamento. E o negócio vai por aí para tristeza nossa e dos nossos rios.

Passei das 500 palavras sem começar a falar de outras providências óbvias, como, por exemplo, construir a casa de acordo com o clima da região. Em Urupema/SC, lareira, casa europeia; no Pantanal, tela contra mosquitos e telhavã, sem se importar com os vãos entre as telhas, que uma aranha preenche com suas teias para comer os pernilongos. Ao cair da noite você molha o telhado e refresca a casa. Tendo forro de madeira ou laje, o espaço entre o forro e o telhado se transforma num forno que irradia calor pela casa inteira.

Hábitos regionais devem ser respeitados. Não adianta botar camas nos estados em que o pessoal só dorme nas redes. Dorme e se multiplica, sabe-se lá como, porque deve ser difícil fazer amor numa rede. Há mil maneiras de dispor os armadores de tal forma que não dificultem as idas aos banheiros. Nossa população está envelhecendo e é preciso pensar no molejo do idoso.

Também é preciso respeitar os materiais disponíveis na região. Até pisos de cimento liso podem ficar lindos e ótimos. O piso mais bonito que já vi foi em pedras de ardósia, imensas, quadradas ou retangulares, tratadas com graxa preta de sapato. No princípio, a graxa suja quase tudo, mas, depois de impregnar na ardósia, basta passar a enceradeira que fica uma beleza! E é piso barato.