Florestas

 

ARBORIZAÇÃO de pastagens: tendências em tempos de ILPF

Vanderley Porfírio-da-Silva, pesquisador da Embrapa Florestas

No mês passado ocorreu em Curitiba o 1º Simpósio Internacional de Arborização de Pastagens em Regiões Subtropicais. O desafio de realizar um evento com um tema tão específico foi recompensado pelos seus resultados: mais de 100 participantes de toda a região subtropical brasileira, além de palestrantes e participantes sul-americanos. O tema ganha relevância quando temos uma política pública instituída pelo Governo Federal, a Política de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, associada a uma fonte de recursos ao produtor rural, o Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), onde a ar- Vanderley Porfírio da Silva borização de pastagens, como uma das tecnologias de iLPF, está contemplada.

Colocar árvores em uma pastagem é uma opção tecnológica para a produção animal a pasto, com a combinação intencional de árvores, pastagens e gado numa mesma área e ao mesmo tempo. Essa conversão de pastagens em sisteA GRANJA | 53 ma silvipastoris requer técnica e planejamento, mas resultados de pesquisa têm indicado ser uma opção muito interessante para uma pecuária mais sustentável. Os benefícios desta tecnologia são vistos em diversos aspectos da produção, com destaque para o bem-estar animal. O conforto térmico proporcionado pela sombra das árvores é, sem dúvida, um diferencial, pois ajuda a reduzir o estresse animal, com impacto na produtividade do rebanho.

O solo também é beneficiado, pois a presença de árvores ajuda na prevenção à erosão, na melhoria da infiltração de água no solo e na ciclagem de nutrientes. Também ocorre uma diminuição da amplitude de temperaturas do solo por causa da combinação do sombreamento pelas copas e cobertura do solo pelas forrageiras. É evidente também a melhoria das propriedades físicas do solo pela combinação dos efeitos da matéria orgânica e das raízes, além da melhor circulação do rebanho pela pastagem, o que favorece a distribuição homogênea de excretas, diminuindo a concentração do pisoteio em determinadas áreas da pastagem com consequente menor compactação o solo.

O pasto, se devidamente manejado, com a escolha das espécies corretas, também é beneficiado, produzindo alimento de qualidade para os animais. E o último diferencial, porém não menos importante, é a possibilidade de o proprietário rural diversificar sua produção. Se as espécies arbóreas forem adequadamente escolhidas, o produtor terá a oportunidade de aumentar sua carteira de negócios, passando a ser um produtor de madeira, por exemplo.

Planejamento — Mas todos estes benefícios só serão percebidos se houver planejamento para adoção da tecnologia. Durante o simpósio houve a oportunidade de conhecer como os países vizinhos trabalham com esta tecnologia. Da Colômbia, foi mostrado como a introdução de árvores no pasto aproxima a pecuária do que acontece na natureza. Em um ecossistema diversificado e em equilíbrio, insetos abrem galerias, descompactando a terra, e a própria fauna se encarrega do controle de pragas. Com mais tempo de pesquisa na área, algumas conclusões da Colômbia são que, para manter o equilíbrio, o tempo de desenvolvimento de cada espécie precisa ser respeitado.

Os piquetes precisam ter um intervalo que seja suficiente para a recuperação da forragem. Combinar árvores e arbustos de espécies nativas com outras introduzidas é uma opção viável para mitigar os danos causados pelo clima. Cada uma delas vai se comportar de uma forma e oferecer um benefício diferente. Da Argentina veio o alerta sobre os cuidados com o manejo do sistema, pois as árvores precisam também ser cuidadas, com podas e desbastes periódicos, práticas estas que ajudam a garantir melhor qualidade da madeira com consequente maior apelo comercial.

O Uruguai, país tradicional na criação de gado, começa a encontrar no sistema silvipastoril alternativas para enfrentar as geadas, com a atenuação da amplitude térmica, proteção contra eventos extremos, tanto no inverno, quanto no verão, custos convenientes para o produtor, controle de incêndios e ingresso de empresas florestais. Como o país adota a arborização de pastagens há um tempo relativamente curto, ainda existe a necessidade de pesquisas para melhorar itens como manejo do gado, gestão de saúde dos animais, comportamento reprodutivo e qualidade da forragem. Já no Chile, o trabalho tem mais tempo, com pesquisas e incentivo aos produtores para que adotem o sistema.

Em um país com uma grande diversidade ambiental, a arborização de pastagens tem sido realizada a partir de zonas agroecológicas, com a introdução de espécies florestais vindas de países com clima semelhante a cada região. Todas estas experiência nos mostram caminhos a serem seguidos aqui no Brasil. O Simpósio também mostrou o que tem sido realizado no subtrópico brasileiro, com experiências bastante enriquecedoras e pertinentes à realidade brasileira.

Dos três dias de intensas discussões nas palestras e painéis, alguns desafios e perspectivas futuras ficaram latentes, como a necessidade da validação de novas propostas tecnológicas por meio da pesquisa científica, além do aumento da troca de informações entre grupos de trabalho e instituições e o aumento da capacitação de técnicos extensionistas que fazem a tecnologia chegar efetivamente no campo, com a consequente capacitação dos produtores rurais para a adoção da tecnologia. A recuperação de pastagens degradadas com a introdução do componente arbóreo também é uma grande oportunidade identificada, inclusive porque existe uma linha de financiamento no Programa ABC para esta finalidade.

A pesquisa e a proposição de novas formas de arranjo também abrem perspectivas com a identificação de áreas mais frágeis ou regiões estratégicas para melhorias na forma de uso da terra e utilização de sistemas integrados. O Simpósio, em si, foi uma grande oportunidade para se levantar o estado da arte em arborização de pastagens no subtrópico. Os desafios estão postos e lançados e a sinergia entre as instituições tende a aumentar, trazendo uma forma mais estratégica de trabalho.