Pulverização

 

RASTREABILIDADE
possibilita segurança a todos

Pela Produção Integrada Agropecuária, sistema mantido pelo Mapa, são públicas todas as etapas produtivas de 30 cadeias agrícolas. Isso garante a idoneidade do produto final e o produtor é um dos beneficiados

Eng. agrônomo Luiz Carlos Bhering Nasser, do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS); pós-doutor em Biologia Ambiental e professor coordenador de pós-graduação de Análise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do UniCEUB

Atualmente, em conversas informais em ambientes sociais, tais como clubes, comemorações de aniversário, casamentos ou, até mesmo, em encontros de finais de semana em família, ou com amigos e conhecidos, é possível notar a recorrência dos assuntos: alimentos saudáveis, meio ambiente e preservação da natureza. Na maioria das vezes de forma interligada. É possível dizer que se trata de um reflexo do grande espaço dedicado pela imprensa, que, por sua vez, visa fornecer respostas a uma questão moderna, que gera uma sensação generalizada de ansiedade e dúvida. No entanto, a despeito desse esforço, jornais e televisão repetem manchetes e reportagens pouco informativas e, ao mesmo tempo, assustadoras: pimentão e morango contaminados com agrotóxicos; o Cerrado está sendo destruído; a produção de carnes do País está destruindo a Amazônia.

Esses medos são gerados, muitas vezes, pela falta de esclarecimento ao consumidor sobre o sistema de produção convencional de alimentos, que é a realidade da maioria das cadeias de produção de alimentos do mundo e no Brasil. Seja sobre os riscos desse modo de produção, como contaminação biológica (bactérias patogênicas) e/ou química (resíduos químicos) e agressão ao meio ambiente, produtor e ecossistemas, seja sobre iniciativas que são empreendidas para reduzir esses riscos.

Nas últimas décadas, graças a avanços da pesquisa agropecuária e à pressão social, identificou-se a necessidade de garantir a rastreabilidade de processos agrícolas de modo a tornar claro para o consumidor e para a sociedade a origem dos alimentos. Assim o consumidor estará a par dos problemas (ou não) envolvidos na produção de alimentos. Um produto originado de um local remoto pode ter um efeito no aquecimento global, pois exige o dispêndio de energia com o transporte. A rastreabilidade também informa o tipo de técnica utilizada na produção. Desse modo, será possível privilegiar alimentos saudáveis em sistemas de produção que comprovem a segurança dos alimentos e façam uso de boas práticas agrícolas.

A Produção Integrada Agropecuária foi iniciada em 2001 na cadeia produtiva da maçã, mas depois aplicada a outras cadeias de produção de frutas

Nesse sentido, uma das grandes inovações sendo atualmente implementadas é o sistema de Produção Integrada Agropecuária (PI Brasil), no qual o agricultor se compromete a seguir normas, registros, comprovação de todas etapas da produção e a avaliação da conformidade por agentes credenciados por órgão oficial de governo. Por um lado, beneficia- se o consumidor que terá a garantia da origem do produto e das informações que lhe darão segurança, E, por outro, também o agricultor, que poderá diferenciar seu produto no mercado e, desse modo, ter uma vantagem competitiva, podendo inclusive alcançar mercados onde a rastreabilidade é a regra e não a exceção.

Nos últimos tempos identificou-se a necessidade de garantir a rastreabilidade de processos agrícolas de modo a tornar claro para o consumidor e para a sociedade a origem dos alimentos

A Produção Integrada Agropecuária é um sistema baseado em sustentabilidade ambiental, segurança alimentar, viabilidade econômica e rastreabilidade de todas as etapas produtivas. O programa, iniciado em 2001, na cadeia produtiva da maçã e, depois, aplicado a outras cadeias de produção de frutas – e em seguida de arroz, feijão, trigo, milho, soja, café, mandioca, tomate de mesa/industrial, flores, leite e carnes – atualmente está presente em 16 estados, 150 projetos em 30 cadeias produtivas, onde insere tecnologias que propiciam a certificação oficial dos alimentos. Dentre muitas vantagens do programa é possível citar a racionalização do emprego de agroquímicos, a prevenção da contaminação por bactérias deletérias aos humanos, a redução da poluição ambiental, dos custos da produção e a utilização de tecnologias desenvolvidas por instituições brasileiras.

Um exemplo de sucesso da PI Brasil foi a produção de morango no interior de São Paulo, pois os produtores na safra 2012 já comercializaram morangos com o selo Brasil Certificado

Adesão espontânea — A adesão ao PI Brasil é voluntária, porém, o agricultor/ pecuarista que optar pelo sistema terá de cumprir rigorosamente as orientações técnicas estabelecidas. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), coordenador da PI Brasil, é responsável pela implantação dos projetos-piloto, em parceria com instituições de pesquisa, além da publicação das normas de produção de cada cadeia. Estas são validadas no campo em projetos pilotos com a participação efetiva do produtor rural, enquanto as certificadoras acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) fazem as auditorias e emitem o selo oficial do programa.

Vale enfatizar o sucesso da PI Brasil nas cadeias produtivas de maçã, citros, uva fina de mesa, melão, mamão, manga, caqui, pêssego, banana e goiaba, iniciadas entre 2001 e 2005, onde pequenos fruticultores, após treinamentos intensivos, adotaram o sistema de produção integrada frutas (PI Brasil) e conseguiram produtos de alta qualidade. Como consequência econômica dessa certificação, obtiveram a colocação das frutas nos mercados nacional e internacional, com a garantia oficial do Governo brasileiro. Recentemente, em 2011, no estado de São Paulo, um exemplo de sucesso da PI Brasil foi a obtenção da certificação de produtores de morango na região de Atibaia, Jarinu e Valinhos. Na safra 2012, os produtores certificados já comercializaram morangos com o selo Brasil Certificado.

Segundo a Dra. Fagoni Calegario, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, responsável pelo programa de produção integrada de morango em São Paulo, o processo envolvendo os agricultores da região começou em 2006 na região de Atibaia e foi trabalhoso, mas resultou em ganhos para os produtores e o ambiente. A necessidade agora é a divulgação do selo, para que seja conhecido por consumidores e demais produtores. Esse trabalho técnico de fomento à produção de alimentos seguros e certificados conta com a participação ativa do Mapa e das universidades brasileiras, empresas de pesquisa e extensão dos estados, unidades da Embrapa e associação de produtores.

É importante alertar o produtor rural brasileiro de que a produção de alimentos certificados tornou-se o caminho da sustentabilidade no campo em todas as cadeias produtivas. E que a geração de tecnologias a serem usadas nesses processos produtivos são produto de instituições de pesquisa brasileiras, respeitadas no mundo científico como as melhores do mundo nas áreas ambiental e da agropecuária. Vamos todos – consumidores, distribuidores de alimentos e produtores – acreditar na nossa capacidade de continuar a produzir alimentos de qualidade para os brasileiros e para o mundo, cada vez mais com ênfase na preservação ambiental para as gerações futuras.