Agricultura de Precisão

 

A relação semeadura
PRECISA e altas produtividades

Novas ferramentas tecnológicas da AP permitem elevado controle na qualidade da operação para obtenção de altas produtividades de milho. A exemplo do que mostra experiência do Projeto Aquarius

Tiago Hörbe, Telmo Amado e Ademir Ferreira, pesquisadores do Projeto Aquarius, Universidade Federal de Santa Maria/RS, [email protected]

Na foto, é visível o resultado da semeadura precisa com plantas regularmente distribuídas e com desenvolvimento uniforme

A uniformidade no estande e no arranjo espacial de plantas na lavoura é importante estratégia para obtenção de elevada e uniforme produtividade das culturas de grãos, em geral, e do milho em especial. A combinação de estratégias como utilização de semeadora pneumática, organizadores de sementes no disco, controle de singularidade (uma só semente por local), sensores de falha na queda de sementes li- Fotos: Divulgação Na foto, é visível o resultado da semeadura precisa com plantas regularmente distribuídas e com desenvolvimento uniforme A GRANJA | 35 nha a linha, controle de pressão para abertura do sulco de acordo com a variabilidade espacial das condições de solo, correto posicionamento das sementes no sulco, direcionamento de máquinas na lavoura com sinal GPS de acurácia centimétrica, piloto automático, rastreabilidade da operação com registro de múltiplas informações (distribuição espacial da velocidade de operação, quantidade de sementes efetivamente depositadas, número de falhas, sementes duplas por linha de semeadura) fornecido pelos sensores e computador de bordo têm proporcionado um novo padrão de gerenciamento da operação de semeadura, contribuindo para alcançar altas produtividades.

O arranjo de plantas na lavoura é uma das práticas culturais que mais afeta a produtividade do milho, devido a sua elevada sensibilidade à competição intraespecífica e a limitada capacidade de produzir afilhos férteis. Estudos recentes do grupo de pesquisa Projeto Aquarius (www.ufsm.br/projetoaquarius) demonstraram que em um talhão, aparentemente uniforme, foi possível distinguir três ambientes de produção com ofertas ambientais distintas e, que neste caso, deveria se fazer o ajuste na população de plantas para cada ambiente visando diminuir a competição intraespecífica e otimizar o uso de recursos abióticos. Na agricultura de precisão, tão importante quanto o ajuste da população de plantas às distintas zonas de manejo, é a distribuição regular (equidistância) das sementes na linha de semeadura, que irão resultar no ótimo arranjo espacial de plantas na lavoura.

Uma observação a distância pode sugerir que as lavouras estão com um estande satisfatório de plantas, no entanto, uma análise mais detalhada poderá revelar que, muitas vezes, existem situações em que, apesar da população ótima de planta ter sido alcançada, ainda persistem muitos erros de distribuição de sementes, existindo, na mesma linha de semeadura, sementes duplas, ou seja, com o espaçamento entre as plantas muito reduzido e com ausência de sementes (falhas), que resultará em uma exagerada distância entre plantas. A primeira situação resultará em plantas dominadas e a segunda, em subutilização dos fatores produtivos (água, luz e nutrientes). Esta irregularidade no espaçamento entre plantas na linha determina a existência de plantas com vigores e potenciais produtivos distintos, devido à competição entre elas, resultando na dominância de uma planta sobre a outra, com comprometimento da produtividade média da lavoura.

A irregularidade no espaçamento de plantas na linha de semeadura ainda é uma situação frequente nas lavouras do Brasil, comprometendo a obtenção de elevadas produtividades de milho. Entre as causas mais frequentes para esta situação, destacam-se as seguintes: irregularidade no tamanho, peso e formato de sementes, que resulta em alvéolos do disco de semeadura com múltiplas sementes ou sem nenhuma; velocidade excessiva na operação da semeadura; descuido com a umidade do solo ideal; variabilidade na profundidade do sulco e no posicionamento da semente; corte imperfeito dos resíduos vegetais e deslocamento destes para dentro do sulco; espelhamento das paredes do sulco e proximidade excessiva da semente do local de deposição do fertilizante.

Pesquisador mostra a desuniformidade na emergência, que vai acabar resultando em plantas com vigores diferentes no futuro

Semeadura precisa — Com a utilização de sementes de elevado poder germinativo e vigor, as principais alterações involuntárias no arranjo de plantas se dão por erros na distribuição longitudinal de sementes na linha de semeadura e no espaçamento entrelinhas da cultura nos locais entre uma passada e outra da semeadora, devido à tortuosidade do deslocamento da máquina na lavoura. A variabilidade na distribuição entre as plantas na linha pode ser reduzida com a utilização de semeadoras precisas, com sistema pneumático que mantém a qualidade da operação com sementes de formato e tamanho irregular.

Neste estudo, utilizou-se uma semeadora precisa que possuía um único disco, independente do tamanho das sementes, ainda tinha um organizador com cinco hastes que realizava a singularização das sementes por alvéolo, eliminando sementes duplas. A eficiente vedação no sistema a vácuo permitiu uma satisfatória adesão da semente ao disco, evitando ausência de semente no alvéolo e condutores de semente com angulação e superfície diferenciada que reduziram o atrito e aumentaram a suavidade do deslocamento da semente até o leito do sulco.

Aliado a estas tecnologias, a utilização de sensor de fluxo de sementes nas linhas, que informou em tempo real problemas como entupimento, reduzindo as falhas de deposição de sementes e do computador de bordo, que informou a dose de sementes por linha, população por hectare, indicação de falha de semente e de dose abaixo/ acima da população alvo e, ainda, a velocidade de operação. Neste caso, observa-se que a velocidade foi de 4,9 quilômetros/hora, a população de plantas foi de 78 mil plantas e a linha 13 apresentou falha de semente.

Já a redução da variabilidade do espaçamento entre passadas da semeadora e o paralelismo entre linhas foi possível graças à utilização de trator equipado com tecnologia de piloto automático e sinal DGPS de acurácia centimétrica. O paralelismo entre as linhas permite melhor aproveitamento de área. Ainda com esta tecnologia embarcada, é possível fazer uma semeadura com velocidade sempre constante e, recentemente, as empresas brasileiras têm aderido ao sistema de telemetria, o que permitirá o recebimento de informações da operação em tempo real em celulares e tablets.

Variabilidade no espaçamento — Visando à avaliação da qualidade de distribuição das sementes na linha, foi medido, após duas semanas da emergência da cultura, o espaçamento (cm) entre plantas na linha de semeadura em diversos pontos amostrais da lavoura, monitorando-se em cada um destes, dez linhas de semeadura em cinco metros lineares (25 m2). Transpondo esta informação para uma planilha eletrônica Excel, gerou-se o coeficiente de variação (CV), que expressa a variabilidade do espaçamento entre as plantas, de modo que quanto maiores os valores de CV, maior a irregularidade de distribuição das plantas na linha. Estabelece- se como semeadura precisa aquela na qual o CV é inferior a 25%, sendo que com valores acima deste referencial, verifica-se decréscimo da produtividade de grãos do milho.

Em trabalho conduzido pela equipe do Projeto Aquarius nesta última safra de milho, avaliou-se tecnologias para a semeadura precisa, tendo como padrão uma população alvo de 75 mil plantas, sendo que, para isto, o espaçamento ideal e equidistante entre as plantas deveria ser de 26,6 cm, uma vez que o espaçamento entrelinhas foi de 50 cm. Neste estudo, avaliou-se a semeadora precisa e a tradicional (com sistema mecânico) em faixas com dimensões de 15 m x 900 m (13.500 m2), com três repetições, totalizando uma área experimental de quatro hectares, sendo que na semeadora tradicional o erro médio em relação ao espaçamento foi de ±14 cm, resultando em um CV de 46%.

Estes valores caracterizam uma semeadura de baixa qualidade. Já na semeadora precisa, o erro médio do espaçamento foi de ±8 cm, com um CV de 28%, próximo de uma semeadura de boa qualidade. Para estas duas situações avaliaram-se o índice de vegetação do milho, utilizando a estratégia planta a planta no estádio V8 com o sensor de cultura (greenseeker) e os componentes de produtividade de dez plantas em nove linhas de semeadura, além do registro da produtividade do milho com colhedora equipada com sensor de produtividade.

Efeitos da qualidade da semeadura — Observou-se nas faixas com a semeadora mecânica a ocorrência de plantas dominadas e com uma variabilidade no índice de vegetação entre plantas que alcançou 16%, além de muitos espaços vazios (sem plantas). Por outro lado, no tratamento com a semeadora precisa observou-se melhor qualidade de semeadura, que se refletiu em plantas mais vigorosas e com maior uniformidade, com uma variação no índice de vegetação de apenas 7%. Ainda, constatou-se que para a semeadora precisa, 90% das plantas estavam dentro da faixa de índice de vegetação ótimo em comparação a semeadora tradicional, que apresentava apenas 60% das plantas com o nível ótimo, 20% em um nível intermediário e 20% das plantas com nível baixo.

Estes valores de índice de vegetação no estádio V8 se refletiram na produtividade de milho, sendo a média de produtividade para a semeadora tradicional de 10.130 kg/ha e da precisa de 11.400 kg/ ha. Portanto, a redução de 18% no CV no espaçamento entre as plantas resultou em um incremento de 12% na produtividade de milho, devido a uma maior regularidade na distribuição de plantas na lavoura. Este incremento produtivo está associado a uma menor variação na produtividade entre as plantas, devido à diminuição da competição intraespecífica e ao melhor aproveitamento dos fatores abióticos.

As avaliações planta a planta revelaram elevada variabilidade da produtividade de milho no tratamento de semeadora tradicional com um CV de 33%, enquanto no tratamento com a semeadora precisa o valor de CV foi de 18%. Ainda, com a semeadora precisa mais plantas alcançaram produtividade acima de 16 mil kg/ha (266 sacas/ha) e houve menor frequência de plantas com produtividade inferior a 10 mil kg/ha (166 sacas/ha) em relação à semeadora tradicional. Portanto, a semeadora precisa proporcionou uma produtividade de grãos mais homogênea ao longo da linha de semeadura em relação à tradicional.

A partir do espaçamento homogêneo e produtivo. regular na distribuição de sementes na semeadura precisa, a consequência será a uniformidade na produtividade de grãos, como pode-se ver

Considerações finais — O Brasil vem apresentado ganhos de produtividade de milho safra após safra, graças ao aprimoramento do manejo da cultura, à melhor genética e à profissionalização dos agricultores. Embora isto, ainda persistem muitos erros de distribuição de sementes nas nossas lavouras. A semeadura precisa, por combinar um conjunto de modernas e inovadoras tecnologias, contribui para um melhor arranjo de plantas na lavoura, que resulta em plantas com desenvolvimento mais homogêneo e produtivo.