Reportagem de Capa

 

Soja na produtividade EXTREMA

O Desafio Nacional de Máxima Produtividade, concurso organizado pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), prova ser perfeitamente possível e viável técnica e economicamente colher mais de 100 sacas de soja por hectare – mais do que o dobro da média brasileira. E multiplicar por quase quatro a rentabilidade. Mas, afinal, o que é preciso fazer para colher tanta soja? Pois abrimos a caixa-preta do Cesb

Thais D'Avila

Surgido a partir da intenção de utilizar o segredo dos grandes produtores para aumentar a produtividade da soja no Brasil, o Cesb – Comitê Estratégico Soja Brasil – chega na quinta safra de existência superando a expectativa de participação de sojicultores e de alternativas encontradas para elevar o rendimento das lavouras. A meta, desde a criação do comitê na safra 2008/2009, era puxar para cima a média de produção por hectare das atuais 47 sacas para 67 sacas – tudo de olho no lucro do produtor. "O número mágico para dobrar a lucratividade, passando dos atuais R$ 800 para R$ 1,6 mil, é 4 mil quilos por hectare" afirma o diretor presidente do Cesb, Orlando Martins.

O objetivo é alcançar esse número até 2015 no Cerrado e 2020 no Sul. A diferença de prazo para alcançar a meta do comitê entre as duas regiões foi estabelecida em função das condições climáticas registradas no Sul. "Um dos processos que precisam avançar para reduzir os problemas que os sulistas têm com o clima é o desenvolvimento da soja transgênica com tolerância à seca. E isso só vai acontecer na segunda metade desta década", aponta Martins.

O dirigente, que é engenheiro agrônomo e produtor, salienta que o agricultor brasileiro vive bons momentos. "Estamos vivendo um período de vacas gordas, há oito anos com lucro. No passado não tinha acontecido ainda um período contínuo tão longo quanto esse, com uma situação confortável para o produtor." Por isso, Martins afirma que o produtor precisa estar preparado para momentos que não sejam assim tão bons e, ainda assim, se manter na atividade com saúde financeira. "O Brasil tem uma série de problemas estruturais, precisamos estar prontos para suportar algum período não tão favorável", projeta.

"Não temos como expandir a produção só aumentando áreas. Definitivamente precisamos aumentar a produtividade", esclarece o pesquisador Décio Gazzoni,

E para garantir fôlego nas safras problemáticas, a produtividade é a grande estrela. O grande foco do Cesb, conforme Martins, está na retomada do crescimento da produtividade no Brasil. "Ela, nos últimos anos, parou de aumentar. Aumentou muito na década de 1980 até o início dos anos 2000. Saiu de 25 a 30, em média, e chegou a 47, 48. Hoje está há dez anos parada em 47, em média. Temos que encontrar o caminho do ganho de produtividade novamente. Para que no futuro a gente tenha uma situação mais confortável em termos de preço no mercado internacional", avalia.

O Comitê Estratégico Soja Brasil é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) mantida por entidades patrocinadoras e apoiadoras. Entre os participantes estão empresas de sementes e defensivos, instituições de pesquisa, universidades e associações de produtores. O embrião do Cesb surgiu em 1997, quando Martins criou entre as áreas às quais prestava consultoria o S100, um projeto para alcançar 100 sacas por hectare no Cerrado.

Na época, o projeto não deu certo, mas algumas áreas superaram 80 sacas. "Vimos que é um trabalho de grande envergadura e ninguém consegue sozinho. Temos que juntar forças. Por isso, com o Cesb, juntamos forças do setor da soja, cada um com a sua parte. Tentamos fazer, mas não é uma consultoria que vai conseguir sozinha. Precisamos de todo o apoio que temos agora, os produtores com as áreas, as empresas com produtos, com incentivo. E as entidades de pesquisa avaliando resultados e aprofundando as descobertas de campo", reconhece Martins.

Anos depois, Martins implantou um sistema semelhante com algodão. "Neste, o objetivo era chegar a 250 arrobas por hectare e o projeto alcançou 300", orgulha-se o dirigente. Para repetir o feito com a soja, Martins e uma grande equipe de agricultores, professores e pesquisadores estão atuando para coletar e organizar os dados dos produtores que conseguem superar 90 ou 100 sacas por hectare. Uma ferramenta do Comitê para difundir informações são os fóruns.

Prontos para o futuro — A preocupação em melhorar a produtividade tem fundamento na análise do mercado mundial da oleaginosa. O Brasil é quem deve manter a oferta de soja, enquanto alguns dos grandes produtores mundiais passaram a importadores, como a China e a Índia. A afirmação é do pesquisador da Embrapa Agroenergia e portavoz do Cesb, Décio Gazzoni, uma autoridade quando o assunto é soja. "Quando a gente analisa os atuais fornecedores, percebe que Estados Unidos e Canadá não têm mais pra onde ir; Argentina está terminando o Pampa Úmido; Uruguai e Paraguai são pequenos; Bolívia tem ambiente péssimo para negócio, dificilmente vai ampliar a produção", observa Gazzoni. E a África? "A África é o Brasil nos anos 1960. Ainda estão na fase de importação e adaptação de tecnologias, precisa de organização interna, estrutura, mão de obra. O continente será uma potência da soja daqui a 20 ou 25 anos", afirma.

Neste período, quem vai atender a demanda é o Brasil. Foi esta visão que motivou os fundadores do Cesb a buscarem alternativas. "Não temos como expandir a produção só aumentando áreas. Definitivamente precisamos aumentar a produtividade", alerta Gazzoni. Para isso, afirma o pesquisador, é necessário o apoio governamental. E isso ainda é raro. Gazzoni garante que a falta de apoio, de fomento por parte do Governo prejudica o produtor. "Se nós continuarmos como hoje, sem muito apoio governamental, na área de assistência técnica e transferência de tecnologia, nosso prazo para atender a meta pode ser mais demorado." O pesquisador define como "esforço hercúleo" trabalhar em uma área de quase 30 milhões de hectares sem apoio oficial. "O Governo precisa incorporar essa ideia e se dar conta de que isso é importante para o País, para o seu portfólio no mercado internacional."

E quando o assunto é assistência técnica, Gazzoni divide os sojicultores em três grupos. Os grandes produtores, com 2 mil, 5 mil, 10 mil hectares plantados; os médios, que têm entre 50 e 500 hectares, e os pequenos, que têm até 50 hectares, em média. Nestas categorias, os que mais sofrem com a falta de assistência são os médios produtores, que, conforme o pesquisador, são responsáveis por 50% da produção brasileira. Segundo ele, os grandes têm seus agrônomos, suas consultorias; os pequenos, as cooperativas, os programas e a assistência técnica oficial, preocupada com quem tem menos condições. "Os médios, que respondem pela metade da produção nacional, estão num limbo, alguns são cooperativados, conseguem através da cooperativa. Outros procuram consultores privados, mas, em geral, é o grupo menos coberto, menos assistido por assistência técnica e é justamente o que precisaria de mais atenção. Caso essa nova agência (a Anater, anunciada pelo Governo) venha a cobrir esse séquito de agricultores, seguramente teremos mais adoção de novas tecnologia e vamos aumentar a produtividade média no Brasil."

O principal elemento para buscar esse status de crescimento na produtividade, segundo o presidente do Cesb, é o conhecimento. "Nós temos que investir mais em conhecimento. Não nos falta insumo, máquina... é conhecimento é o que fazer a diferença. No passado a agricultura teve dificuldades, faltava crédito, faltava máquina, faltava genética, tinha muito problema." Hoje, conforme Martins, os recursos estão bem atendidos, pois a agricultura se capitalizou muito. Segundo ele, boa parte trabalha com capital próprio, e também tem facilidade de crédito. "O que vai diferenciar 47 de 67? É conhecimento, saber o que tem que se feito. Porque a produtividade maior se mostra viável, vai deixar mais lucro. Os insumos existem, e se não existirem, nós estamos com possibilidade de mudar", entende.

É possível R$ 3 mil/hectare de lucro — Imagine quase 2 mil hectares experimentando todo o tipo de manejo, os recomendados, os alternativos, o conhecimento do produtor aliado às tecnologias existentes. Esta foi a área total participante do Desafio Nacional de Máxima Produtividade, o termômetro do Cesb para encontrar as melhores práticas de olho no aumento do rendimento de lavoura. Produtores inscrevem áreas em suas propriedades e buscam chegar – ou superar – 100 sacas por hectare. Como prêmio, os vencedores – em categorias nacional, regionais e municipais – recebem viagens técnicas para conhecer lavouras mundiais de alta performance e centros de pesquisa. Mas também conta para os ganhadores serem considerados referência entre seus pares.

O que chama a atenção nas áreas participantes do concurso e que conseguiram superar a marca de 100 sacas por hectare são os números de lucro do produtor. Em uma produção média de 47 sacas por hectare (média dos últimos quatro anos no Brasil), descontados os custos, o produtor ganha R$ 800. "Considerando os resultados nas áreas vencedoras do concurso, que superaram 100 sacas por hectare, a lucratividade passa de R$ 3 mil", ilustra Martins. O presidente do Cesb garante que não existe uma receita de bolo, e que o Comitê vem levantando os dados, por isso o trabalho de coleta de informações de procedimentos junto ao produtor é tão importante. "Ficou claro que a lucratividade aumenta. Agora, o que nós não temos hoje é o domíno da tecnologia. Estamos observando. Não existe um domínio; existem diferentes caminhos que ele (o produtor) percorre."

Outro objetivo do Cesb, além de elevar a média para 67 hectares, é, nos próximos anos, ter um aumento do volume de produtores que atingem a marca de 90 sacas por hectare. Na quinta edição do desafio já foram 40 áreas – destas, 22 superaram 100 sacas no último concurso. "De tal forma que em quatro ou cinco anos teremos pelo menos 200 áreas com mais de 90 sacas", espera Martins. Das áreas que participam do concurso já saíram muitas surpresas e ideias para trabalhos de pesquisa. O Comitê ainda estuda de que forma isso pode se tornar uma recomendação, uma espécie de "receita de bolo" para cada região.

Pesquisador Zancanaro lembra que um dos objetivos do Cesb é provocar a curiosidade e a criatividade do produtor, para que ele faça num pedaço pequeno da sua área aquilo que ele queria fazer e ninguém estimulou

Um produtor que consegue superar uma marca de 100 sacas por hectare em uma safra vai querer repetir o resultado, quem sabe em uma área maior. "Queremos aprender o que fazer para atingir esses números. Não é um experimento tradicional – estamos envolvendo o agricultor com o experimento dele. Ainda não estamos entendendo bem o processo, qual o conjunto de fatores que consegue isso", admite. Martins afirma também que a intenção é gerar fatos e, a partir daí, envolver a pesquisa para verificar a importância de cada técnica ou tecnologia utilizada na consolidação do resultado.

Rendimento operacional x altas produtividades — Visto como uma solução para otimizar a movimentação de máquinas e usar a menor janela de plantio possível, o rendimento operacional pode ser um fator que limita as altas produtividades. A explicação é do pesquisador da Fundação MT Leandro Zancanaro, um dos integrantes do Cesb que, juntamente com outros pesquisadores, avalia os resultados dos participantes do Desafio. "Em todas as lavouras vencedoras do concurso do Cesb, o plantio foi feito com velocidade de 4 a 5 km/h. Nas lavouras comerciais, o usual é entre 8 e 10 km/h. O produtor anda mais porque quer plantar mais área num menor período de tempo. É tudo uma questão de escolha", descreve.

Zancanaro também conta que, no geral, o produtor está retirando a fertilização do sulco por questão de rendimento operacional. Estão aplicando antes do plantio, em superfície e a lanço. O rendimento de plantio aumenta, mas reduz a qualidade desta adubação. É preciso regular melhor e reduzir a faixa de aplicação para uniformizar, mas a orientação nem sempre agrada. "Ele pensa que se reduzir o rendimento diário vai ser ruim. Vivemos um conflito muito grande por querer produzir mais, simplificando demais as coisas", lamenta. O Cesb mostra claramente que as áreas de altas produtividades são aquelas em que se tem zelo em todo o processo. São áreas com maior investimento, com correção do solo em profundidade, em que a raiz cresce mais do que nas lavouras comerciais. Com isso consegue ter mais água e nutriente disponíveis.

Outro exemplo citado por Zancanaro é o arranjo espacial de plantas. A revisão da disposição das plantas no solo pode proporcionar maior produtividade. Atualmente, o utilizado, na média, para a cultura da soja é um espaçamento de 45 a 50 centímetros nas entrelinhas. Porém, o que os trabalhos do Cesb vêm constatando, conforme o pesquisador, é que a melhor prática é verificar o espaçamento ideal para cada material genético. "Em algum momento, os dados do Cesb vêm mostrando que essa distribuição das plantas pode mudar a produtividade. Não se sabe ainda o número correto e nem se vai funcionar para todos os materiais genéticos e condições climáticas. É isso que estamos verificando."

O pesquisador cita o exemplo de produtores baianos que vinham enfren- Leandro Mariani Mittmann Pesquisador Zancanaro lembra que um dos objetivos do Cesb é provocar a curiosidade e a criatividade do produtor, para que ele faça num pedaço pequeno da sua área aquilo que ele queria fazer e ninguém estimulou A GRANJA | 29 tando problemas com o mofo branco. Eles utilizavam o espaçamento recomendado para a soja e, em função da doença fúngica, passaram para 60 centímetros ou mais e mantiveram a produtividade. "É uma experiência que mostra que, mudando, podemos ter ganho de produtividade para algumas condições e materiais genéticos", revela. Alguns produtores inscritos no concurso de produtividade chegaram a utilizar um método chamado plantio cruzado. O sistema consiste em plantar em um sentido primeiro e, depois, em outro, de forma que as linhas de plantio formem um quadrado. Zancanaro explica que o Cesb não recomenda mais essa prática, uma vez que não seria viável de aplicar em lavouras comerciais.

Professor Balardin: o conhecimento que o produtor tem sobre o processo químico fitossanitário é muito pequeno frente à complexidade que o controle hoje já alcançou

Um dos objetivos do Cesb é provocar a curiosidade e a criatividade do produtor. De modo que ele faça, num pedaço pequeno da área, tudo aquilo que ele queria fazer e ninguém estimulou. "Porque ele vivencia a lavoura direto. Se ele vai fazer um conjunto de práticas, o Cesb quer pegar as boas ideias e propor para a pesquisa", lembra Zancanaro.

Controle fitossanitário — A ocorrência de doenças – sejam elas foliares ou radiculares – naturalmente também preocupa a equipe técnica do Cesb. Conforme o professor da Universidade Federal de Santa Maria/RS Ricardo Balardin, também ligado ao Cesb, o percentual de perdas pode variar entre 15% e 25%, dependendo da região. Balardin informa que no Sul o percentual de perda é menor, entre 15% e 20%, porque os problemas são regionalizados e a diversidade é menor. Já no Cerrado, o impacto pode chegar a 25%, por existir uma maior diversidade e abundância de doenças próximo à faixa equatorial. Essa presença mais marcante de enfermidades, segundo o professor, começa a diminuir à medida que se vai para o Sul. "Existe dano, mas não no mesmo patamar", completa.

Para pragas o professor não vê muita diferença. Mas, de qualquer forma, afirma que o Cesb vem tentando sugerir aos produtores que compreendam essa diferença em termos de local. "Ele (o produtor) precisa utilizar práticas de controle adequadas às suas realidades", afirma. Olhar para a produção nacional por regiões mostra muitas peculiaridades. E as diferenças podem continuar aparecendo se o foco for ainda mais fechado. "Temos uma série de microrregiões que também vão ter pragas ou doenças em níveis mais significativos, dependendo das variações climáticas diárias e anuais", menciona. O professor cita exemplos como a região do Araguaia e municípios de Sapezal e Parecis, no Mato Grosso, os Campos Gerais do Paraná, as regiões do Planalto Médio e Campanha, no Rio Grande do Sul, levando em consideração, principalmente, aspectos climáticos.

Para o controle de pragas e doenças é preciso, além de observar as particularidades regionais no que diz respeito ao clima, realizar o bom manejo da lavoura. E, neste quesito, o professor divide o assunto entre os manejos cultural e químico. No bloco cultural, entram fatores como rotação de culturas, qualidade de sementes e nutrição de plantas. Já no químico, o uso de produtos, mas aqui a situação exige uma análise muito mais complexa. "O conhecimento que o produtor tem sobre esse processo químico é muito pequeno frente à complexidade que o controle hoje tem. Em função de produtos novos, modernos, com atividade química muito desenvolvida, que têm uma formulação extremamente complexa. Enfim, o grau de necessidade de conhecimento técnico, hoje, na área de químicos é tão grande que o produtor não acompanhou isso", lamenta.

Balardin explica ainda que as experiências do Cesb têm mostrado que quem quer produzir mais deve entender que, para um químico ter maior eficácia, é preciso respeitar horário de aplicação, depositar o produto na planta e que muitas aplicações devem ser feitas sem ver o sintoma. "Ele tem que entender também que a maior eficiência do controle se dá quando a atividade da planta é mais alta e isso ocorre na transição da fase vegetativa para a reprodutiva", acrescenta. A importância de conhecer bem os processos químicos começa desde a hora de escolher o produto, passa por aplicar bem – procurando atingir o máximo potencial apresentado pelo fabricante – e, por último, quando aplicar – se é pela observação da parte fisiológica ou por um calendário preestabelecido.

Balardin finaliza explicando que o mundo do manejo químico é muito complexo e que o produtor precisa pensar, na hora da tomada de decisão, que não é apenas o controle. É preciso ter uma planta bem estruturada, bem protegida, que tenha uma resposta melhor. "Não é o químico que responde pelo controle. É uma planta de alta performance e bem protegida. E isso começa na análise física e química do solo, numa boa adubação, num plantio bem feito."


Por uma pesquisa mais conectada à realidade do produtor

Orlando Martins tem 25 anos de experiência em consultoria agronômica. Formado em Agronomia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e mestre em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade de Viçosa/MG, sempre teve o foco no aumento da produtividade. Junto com outros incentivadores da elevação do rendimento de grãos, Martins foi sócio-fundador do Cesb, tendo ficado na época (e até agora) responsável pela área de nutrição de plantas. Recentemente foi reeleito para a presidência da entidade. Entusiasta das descobertas proporcionadas pelo conhecimento do produtor, o especialista em nutrição começa a questionar o caminho da pesquisa, acreditando em olhar para coisas simples, mas que podem ter mudado com o passar do tempo.

A Granja — Dentro do quesito nutrição, é possível afirmar que os produtores que utilizam taxas mais elevadas de adubação são os que produzem mais?

Orlando Martins — Nós temos observado que, geralmente, as áreas de produtividade maior têm um nível de nutrição maior ou o produtor fez uma adubação mais pesada. Mas normalmente nós temos um nível nutricional destas áreas acima da média.

Essa questão é o diferencial dentro das produtividades maiores?

O que o ocorre: nós temos um sistema de recomendação de adubação que foi feito nos 20 últimos anos. A maior parte das recomendações, do IAC (Instituto Agronômico, sediado em Campinas/ SP), do serviço de pesquisa de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, foram feitas quando os patamares de produtividade da cultura eram menores. Essa pesquisa foi feita há 20 anos, quando a produtividade da cultura era menor. Os números ainda são os utilizados hoje que a produtividade é maior e nós queremos uma maior ainda. Então, nós vemos que tudo terá que ser revisto. Temos que rever esses conceitos e criar novas tabelas de recomendação, adubação, novos sistemas que nos permitam produtividades maiores.

E a quem caberia liderar o processo de criação de nova tabela?

Pois é... (risos) acreditamos que seria a pesquisa. Agora, o que acontece hoje: temos toda uma situação de pesquisa montada, onde existem os órgãos que financiam as pesquisas - Capes, CNPQ e outros. E existem comissões que organizam as pesquisas que estão sendo pleiteadas, e, geralmente, quando o pesquisador apresenta algum projeto, ele vai ser julgado. E, na maior parte das vezes, as pesquisas que são básicas, não são aprovadas. Acontece que o financiador acha que isso é coisa do passado. Aprova uma pesquisa que está falando em nanotecnologia, em coisas mais atuais do ponto de vista tecnológico. Nós, do Cesb, entendemos que temos que reestudar coisas que foram feitas 20 anos atrás. Essa pesquisa que está aí considera que não é importante. Mas o sistema produtivo considera que é.

Como mostrar isso?

O fato de nós gerarmos essas produtividades mais altas, e questionarmos novamente essa necessidade, é importante para voltar a pesquisa para onde ela é realmente necessária e não onde se acredita que seja. Muitas vezes é pesquisado um monte de coisas que está entulhando as bibliotecas. Não chega no campo porque é um negócio que está desconectado com o campo. Queremos tentar trazer pelo menos parte do recurso existente para que ele seja utilizado para o consumidor final, que é o agricultor. Que é de onde sai o dinheiro pra pagar tudo isso que existe.

A pesquisa não está falando direto com o produtor?

Está ocorrendo uma desconexão muito forte. A pesquisa está num nível muito alto, mas a maior parte das coisas que ela está gerando alimenta novas pesquisas, publicação de novos trabalhos em revistas científicas de renome internacional... Mas isso não chega no produtor. Ao produtor, às vezes, é importante uma coisa mais básica, como nós estamos falando.

Mas os resultados dos programas do Cesb estão apontando para essa necessidade, não é?

Sim. Só que o pesquisador que apresenta um trabalho de recalibração nutricional, por exemplo, ele é visto até como chacota. Pois isso é assunto de 30 anos atrás. Já foi assunto, mas quando a soja produzia 30 sacas por hectare. Hoje, nós produzimos quase 50 e queremos chegar a 70. Então, precisamos rever. O Brasil aumentou violentamente a quantidade de recurso para pesquisa e o número de pesquisadores. Mas as questões mais básicas não estão corretas, o produtor está sem atendimento, subsídio. O que nós queremos com o Cesb é resgatar essa necessidade de reestudar essa situação para que se permita trabalhar nestes patamares de produtividade maior.

Como os pesquisadores veem a iniciativa do Cesb de tornar o produtor o protagonista da descoberta de novas técnicas?

O pesquisador mais maduro vê como uma oportunidade de trabalho. Pois o campo de pesquisa é muito amplo. Normalmente essas técnicas que aparecem com o produtor estão dentro de um conjunto de técnicas. O que nós temos observado é que o diferencial, os ganhos que teremos no futuro, não estão relacionados a mudar uma técnica apenas no sistema de produção. É um conjunto de técnicas, a interação deste conjunto que vai nos proporcionar um novo patamar de produção. Temos as entidades de pesquisa que participam do Cesb, que veem essas informações como algo benéfico. O concurso está trazendo também material novo para ser pesquisado, chegando a um potencial de produção que se acreditava que não era possível chegar. O Cesb é uma nova fronteira. Dá pra ir além. Aquilo que nós imaginávamos que seria de um nível menor. Dá para fazer mais e isso instiga os pesquisadores a procurar mais.

Qual a relação entre a pesquisa e a produção hoje?

Num primeiro momento, quando começamos a cultivar a soja no Brasil, a informação do pesquisador era muito importante. Trazia a experiência de fora, de outros países. Com o passar dos anos, nós fomos dominando aquilo, e em algum momento a pesquisa passa a contribuir menos, pois a experiência do agricultor passa a contribuir mais com sua vivência. O agricultor faz aquilo todo o ano. O pesquisador, quando ele não é produtor, tem um conhecimento específico, mas teórico. E a prática é muito importante. Por isso, em algumas situações, o agricultor tem muito pra contribuir e, às vezes, num nível superior ao do pesquisador.