Glauber em Campo

 

O DESAFIO DO ETANOL DE CEREAIS

Realizamos o I Fórum Brasileiro de Etanol de Milho e Sorgo. E, durante um dia inteiro de discussões, pude aprender muito e ver que o excedente do milho no Brasil tem solução, podendo ser transformado em etanol e DDGS – um farelo proteico que substitui o farelo de soja na ração. Me chamou atenção a quantidade de inscritos, interessados e curiosos pelo tema, por volta de 300 participantes estavam presentes no fórum, inclusive do Mato Grosso do Sul e de Goiás. O fórum também contou com a participação da maior empresa de engenharia norte-americana atuando no mercado do etanol de milho, a ICM, que construiu 122 das 200 usinas de etanol dos EUA, além de um representante de outra empresa, a Fermentis, que atua na Argentina, Uruguai e Paraguai.

E o primeiro painel já começou agitado, debatendo as políticas públicas para viabilizar o etanol de milho. Para o senador Blairo Maggi, um dos convidados presentes no evento e principais defensores da iniciativa, a produção de etanol a partir de milho vai garantir o equilíbrio da atividade. No evento, aproveitei para falar sobre a importância de se agregar valor ao cereal de Mato Grosso. Frisei que a produção de etanol de milho não vai competir com a produção de alimentos. A ideia, na verdade, é trabalhar com o excedente do cereal e ainda resolver o problema logístico. Mas o principal seria a produção de inteligente de biocombustível e um produto proteico altamente competitivo, o DDGS.

E como bem destacou Marcelo Duarte, diretor-executivo da Aprosoja/MT, é preciso neste momento pensar na competitividade do etanol de milho em relação ao etanol de cana, nas políticas públicas de fomento, nos mercados que vamos atender e no preço que as usinas poderão pagar pelo milho. E ficou claro durante o evento que também há viabilidade na produção do etanol. Como ressaltou o presidente do Sindalcool/MT, Piero Vicenzo Parini, até 2015 o Brasil vai precisar de pelo menos mais 40 usinas para suprir a necessidade de etanol de cana, e hoje já existe uma demanda potencial muito grande.

Além disso, como destacou meu amigo Rui Prado, presidente da Famato, os R$ 700 milhões disponibilizados pelo Governo Federal para custear os leilões de milho em 2013 foram uma alternativa para escoar o excedente de milho, mas não pode ser um modelo sustentável nos próximos anos. Para o presidente do Fórum Nacional de Milho, Odacir Klein, a chave para viabilidade neste caso está justamente na segunda safra de milho em Mato Grosso, que pode trazer problemas para o estado pelo excesso de produção, mas que é extremamente necessária. O segundo painel apresentou as experiências de sucesso que já existem no País, como o caso da Usinat, em Mato Grosso, em seu segundo ano de funcionamento. Primeira usina flex do Brasil e do mundo em cana e cereais, deve produzir na safra 2013/14 cerca de 30 milhões de litros de etanol e 15 mil toneladas de DDGS a partir de aproximadamente 85 mil toneladas de milho. O painel também mostrou os novos projetos que estão sendo desenvolvidos, como da Usina Rio Verde, em Goiás. Também foram discutidas questões de extrema importância para o setor agrícola, como a viabilidade econômica do etanol de milho e sorgo. Segundo Otávio Celidônio, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), tanto uma usina flex quanto uma usina full, são viáveis. Para converter uma usina de cana em flex, que consume 500 toneladas ao dia, o empresário investirá cerca de R$ 17,5 milhões. Já para uma usina full, que consome a mesma quantidade, estima-se um investimento de R$ 40 milhões a R$ 50 milhões.

Ainda segundo ele, além do preço do cereal, o mercado do DDGS é crucial para definir a viabilidade do projeto, já que o subproduto representa 80% do preço do milho. Mas ficou claro que para usinas flex foi viável se utilizar o milho até um preço de R$ 22 por saca, o que torna o negócio extremamente interessante também para os produtores que hoje estão recebendo até R$ 8 por saca de milho.

Por fim, o último painel trouxe para os participantes quais os desafios em termos de tecnologia, quais os novos processos disponíveis para a produção de etanol e como é possível reduzir os custos da produção de etanol com várias matérias-primas. E foi muito interessante ver que, mesmo dentro da produção de etanol em uma usina flex, é possível se fazer vários processos, inclusive um em que não há necessidade de separação na fase de mosto, misturando o que veio do processamento da cana com o do milho.

Os americanos da ICM deram uma aula de processamento em usinas full e disseram que hoje já se consegue extrair um DDG de alto teor proteico, competitivo até frente ao farelo de soja. E que hoje há uma especialização no mercado de DDG onde se obtém tanto produtos ricos em fibras para alimentação de ruminantes quanto pobres em fibras e mais ricos em proteínas para aves e suínos. O dia terminou com a afirmação de que a produção de etanol a partir de milho durante a entressafra da cana, nas usinas flex, é um processo irreversível. Segundo os participantes, há tecnologia e matéria-prima suficientes, basta saber se estamos dispostos a encarar esse desafio.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil