O Segredo de Quem Faz

 

Defesa implacável
das causas dos ARROZEIROS

Leandro Mariani Mittmann
[email protected]

A Federação das Associações dos Arrozeiros do Estado do Rio Grande do Sul (Federarroz) é um guarda-chuva que abriga 40 entidades associativas regionais ou municipais que representam 18 mil arrozeiros gaúchos. A entidade política que atua de forma incisiva pelas causas dos arrozeiros tem agora na presidência o engenheiro mecânico Henrique Osório Dornelles, 39 anos, produtor de arroz e pecuarista, além de sócio de uma empresa de aviação agrícola, todos os negócios em Alegrete/RS. Em julho ele venceu a eleição e passou assim a ser um dos principais porta-vozes dos anseios da categoria no estado que planta 45% da área do cereal no País e gera 67% da produção (números da Conab para 2013/14). "Renda para o produtor!", responde ele qual é a principal causa de sua gestão de três anos.

A Granja — Quais são as maiores dificuldades do produtor de arroz do Rio Grande do Sul?

Henrique Osório Dornelles — Insegurança... nos preços, nos custos, legislação e fiscalização trabalhista e ambiental. Os arrozeiros são normalmente chamados de chorões, reclamões, etc. Entretanto, acredito que é a classe que mais se expõe, a mais inconformada e organizada, portanto a que mais aparece. Nestes últimos anos só houve arrochos. Na parte ambiental houve a obrigatoriedade do licenciamento, única lavoura de grãos com esta exigência; para o campo, a mesma legislação trabalhista urbana, sem ao menos considerar as características da atividade; os preços pagos ao produtor sofrem interferência governamental, mas nossos custos são regidos pela economia livre. O Governo Federal está pregando o cuidado com a agricultura familiar, mas é esta a que mais está sofrendo com o modelo atual. As pequenas lavouras estão sumindo aos poucos por todas as questões comentadas. Imaginem um produtor de 25 hectares, retirando na média dos últimos cinco anos R$ 1.500/hectare, isto significa R$ 37.500/ano, para pagar a prestação do Mais Alimentos, investimentos gerais, saúde, alimentação, educação, licenciamento ambiental, adequações à legislação, multas, etc. Isto tudo sem falar na segurança no campo, porque esta família ainda tem de pagar uma empresa especializada porque o Estado não é capaz de realizar este serviço, diga-se de passagem, com toda esta carga tributária! Como arrozeiros, temos a consciência de que o arroz é uma questão de Estado, sobretudo de segurança alimentar. Sabemos que o Governo possui esta clareza, mas pequenos, médios e grandes produtores estão sucumbindo à falta de competitividade, e com alta produtividade. Não é possível o arroz pagar a conta do Mercosul em troca dos produtos da linha branca.

A Granja — E, neste contexto, quais são as suas principais prioridades para o segmento arrozeiro à frente da Federarroz?

Dornelles — Renda para o produtor! Se formos analisar friamente, hoje qualquer corretor que recebe 2% de uma transação comercial é capaz de obter mais renda que muitos produtores. Isto porque os preços pagos aumentaram numa proporção e os custos, em uma outra muito maior. Nossa chapa foi eleita para resolver os anseios da maioria das associações de arrozeiros e de produtores. Assumi o desafio da presidência da Federarroz incentivado por inúmeras pessoas, inclusive ligadas a outras entidades de classe e governamentais, que hoje trazem suas interpretações sobre os problemas a serem enfrentados e possíveis soluções sobre diferentes óticas. Como produtor, tenho meus próprios conceitos e ideais, mas a diretriz da entidade será determinada pelo conjunto. Entretanto, certamente o setor não ouvirá "discursos eleitoreiros" ou somente aquilo que agrada. Como presidente, possuo o dever de falar e defender o que é correto, o que resultará em resultados positivos, não no curto, mas no longo prazo. O que vem sendo externado pelos diretores e associados é que a Federarroz precisa trabalhar o comércio exterior, custos de produção e com isto a tributação estadual e federal, profissionalização da classe pela disciplina financeira e armazenagem própria, profissionalismo na postura da entidade e questões relacionadas à atuação do Irga (Instituto Rio Grandense do Arroz) e recursos do CDO (taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura).

A Granja — Mercosul é muitas vezes citado como vilão para o segmento arrozeiro gaúcho. Isso tem solução? Como o Mercosul poderia deixar de ser um problema para quem planta arroz no estado?

Dornelles — Uruguai e Argentina não mais possuem custos de produção muito inferiores aos nossos. Hoje é o Paraguai, motivo do crescimento deste na participação no mercado brasileiro, especialmente na Região Sudeste, devido à logística. Mas, como todos os governos, duvido que isto consolide-se nos próximos anos. Certamente quem planta naquele país provará do mesmo veneno que nós brasileiros, a carga tributária. Os produtores de lá estão ganhando muito dinheiro e o Estado pouco arrecadando. Algum grande administrador público chegará a esta conclusão! Enquanto isto, nossos ambientalistas estão muito mais agarrados na ideologia do que nos interesses da Nação. A classe rural é culpada por tudo! O arroz brasileiro, especialmente gaúcho, é mais caro pela proibição da utilização de vários produtos mais baratos e por conta de legislação extremamente restritiva e onerosa. Enquanto isto, o arroz destes países entra no Brasil sem qualquer controle sanitário.

A Granja — A Federarroz poderá se tornar uma entidade em nível federal? Em que tratativas está tal possibilidade?

Dornelles — Minha diretoria possui a compreensão de que representamos somente 65% do arroz produzido no Brasil. E os outros 35% que também sofrem influência do Mercosul e dos malefícios da concentração do varejo e grandes supermercadistas? Se muitas vezes possuímos recursos federais para suporte dos preços ao RS e SC, por que não estendermos nossa atuação à totalidade do Brasil? Nossa identidade é o produtor, nós defendemos o arroz brasileiro, quem planta aqui, quem paga tributos aqui! Até hoje, pelas minhas informações, ainda não tivemos demanda de outras partes do País que justificassem a atuação nacional. Se isto acontecer, estaremos à disposição.

A Granja — Mercado externo, o que deve ser feito (pela entidade e pelo Governo) para que o Brasil amplie suas exportações?

Dornelles — A entidade estará propondo alguns eventos com o objetivo de facilitar a comunicação entre os agentes comerciais (tradings) e o Ministério da Agricultura (Mapa). Também entre produtores para elencar quais atitudes poderiam dinamizar e facilitar as exportações. Devido a atitude de alguns concorrentes, especialmente EUA, estamos encontrando e prevendo algumas dificuldades. Para nossa sorte, encontramos uma Secretaria de Relações Internacionais do Mapa extremamente atuante. Quanto ao Governo Estadual, estamos contribuindo com este elencando quais as prioridades de investimento no terminal da Cesa (Companhia Estadual de Silos e Armazéns). A entidade possui o desejo, que é o espelho dos produtores, do terminal da Cesa de Rio Grande/RS transformar- se em excelência no embarque de arroz. Pessoalmente estive conversando por várias vezes com o presidente da Cesa, Marcio Pilger, que tem demonstrado interesse, compreensão e trabalhado para realizar as indicações do setor.

A Granja — E como o arroz gaúcho pode se valorizar mais, agregar valor aos seus diferentes elos?

Dornelles — O arroz gaúcho é diferente, e não é papo de gaúcho! Não existe indústria superior a nossa! E não é somente pelo emprego de tecnologia, máquinas e sistema organizacional, mas pela padronização de produto. Hoje, as renomadas filosofias de produção exaltam a relação entre competência produtiva e cultura de um povo. O gaúcho é arrozeiro! Temos todos os predicados, mas ainda precisamos solicitar aos nossos produtores que mantenham ou diminuam a área! É contraditório! O sistema de armazenagem gaúcho é de Primeiro Mundo e com capacidade de segregação, indústria tecnificada, competência produtiva e qualidade nas cultivares disponíveis. Para agregar valor, precisamos de terminal portuário dedicado, tributação competitiva, Ministério da Agricultura atuante, na verdade com recursos financeiros e independência como os demais. E o Irga intimamente ligado às questões mercadológicas nacionais e internacionais.

A Granja — Em relação ao cultivo propriamente dito, quais são os principais desafios do produtor de arroz? Onde ele deve melhorar para produzir mais e melhor?

Dornelles — Da porteira para dentro o produtor precisa melhorar na armazenagem e capital de giro próprio, capacidade de decisão sobre determinado manejo ou técnica, capacitação de mão de obra e sucessão. Em produtividade estamos perto do teto e o detalhe é que está fazendo a diferença, na condução da água, tratos culturais, etc. Acredito que precisamos atuar muito mais na política. Se o arroz é instrumento de políticas públicas e não entendermos que o jogo é este, daqui a dez anos estaremos discutindo os mesmos problemas. Quem tem capacidade deve assumir e não adianta argumentar que não gosta de política. Se não o fizer, outro fará, a favor ou contra nossas necessidades! As associações de arrozeiros devem ser fortes e realmente representar seus associados. Estamos ampliando a representatividade da Federarroz, mas com qualidade, responsabilidade e capacidade crítica.

A Granja — Como o senhor e a Federarroz veem a ampliação do plantio de soja em várzeas de arroz? Que orientações deve seguir o arrozeiro que pretende investir em soja?

Dornelles — Nesta parte acredito que o Irga realmente esteja fazendo muito pelo produtor, não somente agregando renda, mas promovendo a reciclagem de nutrientes e, no longo prazo, redução de custos. Além disto, poderá ser alternativa ao arroz, e veja que já há uma variedade de soja para a várzea. Entretanto, foco nos custos será imprescindível, já que nos últimos anos somente vivemos os louros desta cultura.

A Granja — E que visão o senhor tem do agronegócio brasileiro e do próprio Brasil?

Dornelles — Apesar de todas as boas notícias, acredito que o agronegócio brasileiro está passando por uma fase de afirmação. Nossos custos estão nas alturas, a logística é precária e arcaica. O etanol está com grandes dificuldades, juntamente com o café, o algodão e o milho. O efeito sanfona não é desejável em qualquer atividade! Excetuando-se a soja, somente os que encolheram estão muito bem. E a origem de tudo isto está na carga tributária incidente nos custos de produção. A Farsul (Federação da Agricultura do RS) vem alertando sobre este problema com muita propriedade. Tomara que outras federações sejam contaminadas e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) levante esta bandeira! Falando em custos, não entendo a inexistência de uma secretaria específica do Mapa para o assunto, principalmente porque ainda possuímos uma dependência externa de fertilizantes. Para aqueles que criticam a exportação de produtos in natura, a contra-argumentação é que nossa agricultura já não é mais aquela da enxada e saraquá. Com os grãos vão nossa tecnologia de produção, as máquinas, a água, a genética, etc. Não é mais agricultura extrativista! O Irga vem desempenhando um papel muito importante na tecnologia de produção, incluindo lançamento de novas variedades de arroz e soja. Os avanços na área comercial estão ocorrendo, visto as tratativas de transferência de tecnologia com vários países com cooperação comercial para a venda de arroz. Entretanto, o setor precisa de um pouco mais de ousadia, assim como foi feito pela Secretaria da Fazenda ao criar decreto para desoneração do ICMS para o arroz gaúcho. Entretanto, mesmo esta ação apoiada pela cadeia necessita de ajustes, pois os números não confirmaram uma melhora no escoamento da produção e as indústrias e cooperativas ainda reclamam por melhor competitividade. O presidente do Irga, Claudio Pereira, possui intimidade com o setor, conhece as mazelas, mas estamos ficando para trás no aspecto comercial. Não avançamos na criação de dados para tomadas de decisões, planejamento estratégico comercial e propostas para campanhas de aumento de consumo ou diversificação do emprego do arroz. Criticamos a alta carga tributária, mas nós, conselheiros do Irga, ainda estamos admitindo que o superávit da taxa CDO vá para o caixa único do Estado, e isto é histórico! Atualmente, a OAB questiona o Estado no caso dos depósitos judiciais. Frequentemente, quando estamos fora do Rio Grande do Sul, as pessoas questionam a grandiosidade do Irga e a falta de recursos para ações comerciais ou mercadológicas. O arroz é muito importante para a economia do Rio Grande do Sul. Representa mais de 3% da arrecadação do ICMS, somente o grão. É uma cultura muito importante para a Metade Sul do estado, com baixos índices de desenvolvimento. Ao contrário do que muitos afirmam, nossos rios possuem qualidade e o arrozeiro é o maior armazenador de água privado, visto a quantidade de barragens construídas. Nossa tecnologia de produção prevê técnicas conservacionistas e a grande maioria dos defensivos atualmente utilizados possui uma boa degradação. Somos produtores do alimento mais consumido no mundo!