Eduardo Almeida Reis

 

DOIDERAS

Eduardo Almeida Reis

A Organização Mundial de Saúde estima em 700 milhões o número de pessoas com problemas mentais e neurológicos. Portanto, cerca de 10% da população do planeta neste ano de 2013. Cálculo modesto: o número de malucos é muito maior. Ainda outro dia viajei por uma estrada fluminense, próxima do Rio, onde não passava há pelo menos 15 anos, e fui me lembrando da quantidade de malucos que conheci naquela região.

O fazendeiro profissional é homem sério e equilibrado, mas o brasileiro que enriqueceu noutros negócios e resolveu comprar fazenda apronta cada maluquice que vou te contar. Para início de conversa, procura afazendar-se perto da cidade onde mora e tem a sede dos seus negócios. No entorno do Rio são raríssimas as regiões que se prestam para moderna exploração agropecuária.

Honestamente, devo incluir-me entre os malucos que tentaram criar bovinos por lá. Mas havia exemplos piores na vizinhança. Basta dizer que um rapaz solteiro, de família rica, comprou bela casa num terreno plano de 5 mil metros quadrados. Tirando a casa e a piscina, sobravam 4 mil metros. O jovem comprou um trator Massey Ferguson, com arado e grade. No entusiasmo da compra, me perguntou se o trator daria conta dos serviços de seu latifúndio. Muito sério, expliquei-lhe que o trabalho ficaria perfeito se o tratorista não fizesse curvas, limitando-se a andar para a frente ou de marcha à ré.

Outro vizinho comprou 500 hectares e construiu estábulo de quatro andares, em que as vacas holandesas escorregavam em rampas de borracha: eram ordenhadas no segundo andar. Ração, melaço e resíduos de cervejaria eram bombeados para o quarto pavimento para "economizar" na descida por gravidade. Beirando os 80, o excelente patrício só circulava com mocinhas muito novas, na faixa dos 20 anos. O bombeamento do melaço e dos resíduos de cervejaria, bem como as despesas com as mocinhas, eram garantidos pelos rendimentos da indústria farmacêutica do fazendeiro.

Conhecido e poderoso bicheiro, naquele tempo em que havia bicheiros do bem, montou um haras e adquiriu garanhão caríssimo. Visitei seu haras num domingo em companhia de um amigo, diretor do Jockey Club Brasileiro. Não havia ninguém. Fomos entrando, por volta das duas da tarde, e não encontramos um só empregado. Meu amigo descobriu e retirou, do chão da baia do garanhão importado, uma tábua com imenso prego voltado para cima.

Já lhes contei de uma senhora que adquiriu sítio de tamanho razoável e resolveu povoar os pastos com vaquinhas que combinassem, na cor, com as plantas dos jardins e as paredes da casa. Depois de estudar diversos livros, optou pelo gado guernsey e importou um lote de 30 vacas daquela ilha do Canal da Mancha. Com efeito, a pelagem da raça fazia pendant com o conjunto arquitetônico e paisagístico. Pena que os carrapatos fluminenses matassem todas as vacas em seis ou sete semanas.

Senhora riquíssima, dona de poderosa indústria cervejeira, tinha fazenda de bom tamanho em que criava gado confinado e produzia plantas em estufas. Até aí, tudo bem, não fosse pelo fato de aparecerem passarinhos mortos em seus 400 hectares de pirambeiras. Cada ave morta era motivo para um enterro com o pássaro defunto metido numa caixinha de madeira, revestida de cetim branco, a fazendeira, seu marido e todos os empregados acompanhando o cortejo fúnebre até o pequeno cemitério avícola.

Médico brilhante, doutorado na França, criava gado holandês puro de origem num sítio ótimo para criar condores, aves da família dos catartídeos (Vultur gryphus), encontradas ao longo de toda a Cordilheira dos Andes, com cerca de 1 metro de comprimento e 3 metros de envergadura.

Padecia de uma doença incomum no Brasil: era honestíssimo. Basta dizer que comprava ampolas de sêmen do touro Rosafé Citation, inseminava, perdia a dose caríssima e comunicava a perda à associação. Naquele tempo não havia exame que permitisse identificar o pai do bezerro, motivo pelo qual muitos criadores, perdendo uma ampola do Rosafé, inseminavam com outros touros e diziam que os bezerrinhos nascidos eram filhos legítimos do touro famoso.

Felizmente, vou chegando ao fim desta crônica sem sobrar espaço para falar das minhas maluquices, que rivalizaram em grau e quantidade com as dos vizinhos. Contei-as num livrinho, felizmente esgotado, porque doideiras não conjuminam, nem sequer congeminam com a biografia de um sujeito sério como este que lhes fala. Algo me diz que faço parte dos 700 milhões citados pela OMS. Felizmente, minhas maluquices não incluíram homicídios, estupros, assaltos, pedofilias – essas coisas tão comuns por aí. Já é alguma coisa.