Agricultura Familiar

  

Erva-mate DIFERENCIADA e que vai além da cuia

Leandro Mariani Mittmann
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Eduardo Guadagnin, em Putinga/RS, produz erva-mate em meio à mata e assim recebe quase três vezes mais ao entregar a produção à Natura, para fazer cosméticos

Muitas são as manhas para se fazer um bom chimarrão. Quem não aprecia esta bebida pode até imaginar que é só colocar a erva-mate no subproduto do porongo e despejar a água fervente. Não é bem mita a plantar a muda, esperá-la crescer e formar a galhada para então colher as folhas.

Guadagnin, que trabalha com ervamate desde que "era piá de 8 anos", produz a planta em meio à mata, de uma forma mais que sustentável, por meio do manejo extrativista. Por conta disso, é o primeiro agricultor do mundo a obter a certificação internacional para produtos florestais não-maderáveis da Mata Atlântica. Há 11 anos ele tem o selo FSC – Forest Stewardship Council, ou o Conselho Nacional de Manejo Florestal. A erva gerada pela Ervateira Putinguense é comercializada como tal, mas também é adquirida pela Natura, que a transforma em produtos de beleza. A empresa preza pela matéria-prima cuja origem seja sustentável.

O cultivo na propriedade de Guadagnin é o mais natural possível. As plantas em meio à floresta se desenvolvem a partir da adubação das folhas das árvores que caem e apodrecem. E como se dá o plantio? "Tem as plantadas, mas tem as que os passarinhos plantam", descreve. Ou seja, os pássaros engolem as sementes, promovem assim a quebra da dormência, e depois as disseminam pela área. Um duplo trabalho – e de graça. Em meio à "plantação", mais do que erva-mate, circulam tranquilos tatus, cotias, tamanduás. A área tem 69 hectares, mas o agricultor nunca se dispôs a contar quantas plantas abriga. Mais do que cultivar de forma sustentável, Guadagnin comemora o fato de ter deixado de produzir com agroquímicos. Ele, inclusive, muito tempo atrás, cultivou tabaco, e não via futuro na atividade, visto o volume de defensivos utilizado.

A ervateira de Guadagnin, que ainda recebe produção de 50 outros agricultores familiares, gera de 30 mil a 35 mil quilos de produto seco ao ano. Destes, cerca de 3 mil são repassados à Natura. Ele ganha da empresa um valor quase três vezes maior que o recebido pela erva-mate. E a Natura, que processa apenas a folha, faz uma série de exigências ambientais, inclusive Reserva Legal e Área de Proteção Permanente. "Tem que fazer as coisas certinhas", resume o agricultor, que mantém a parceria há mais de uma década. Mais do que os ganhos financeiros, o casamento com a empresa lhe confere créditos na imagem para conseguir outros negócios. O agricultor trabalha junto com o cunhado, o genro e funcionários, um total de 14 pessoas. A ervateira processa de 2.800 a 3 mil quilos por mês da erva-mate própria e de 25 mil a 28 mil dos agricultores familiares parceiros. Estes estão sendo orientados a produzir da mesma forma que ele.

Milhares de famílias beneficiadas — "A Ervateria Putinguense é a única da região cujos produtos têm o selo verde, ou seja, a certificação florestal do FSC Brasil. A principal função da certificação é garantir ao consumidor que o processo de manejo dos recursos florestais está sendo cumprido e a floresta conservada", justifica Daniel Levy, diretor da Regional Sul da Natura. "Tudo isso traz vários diferenciais para os produtos Natura, que utilizam o ativo, já que cada vez mais as pessoas estão conscientes e valorizando produtos que trazem em seu DNA a preocupação com sustentabilidade de toda a cadeia." Ao todo, a Natura mantém parceria com 36 comunidades de diferentes regiões, envolvendo 3,5 mil famílias. A maioria das comunidades fornecedoras está localizada na região amazônica.

Conforme Levy, a Natura trabalha com insumos da sociobiodiversidade brasileira como ingredientes na formulação dos seus produtos. "A empresa incentiva que esses insumos sejam extraídos por meio do manejo sustentável por cooperativas de agricultores familiares com os quais estabelece mais que uma relação comercial", destaca o executivo. A empresa busca manter um relacionamento com preço justo, pela divisão dos benefícios adquiridos com o uso do patrimônio genético e do conhecimento tradicional associado. "E ajudamos assim a criar condições para que essas comunidades se estruturem, diversifiquem seu negócio e promovam o desenvolvimento sustentável na sua região", complementa. Os produtos adquiridos pelo País são diversos e para as mais variadas finalidades: a exemplo, além da erva-mate, maracujá, pitanga, capim-limão, carqueja, camomila, hortelã, funcho, melissa.