Florestas

 

Doenças que ameaçam os SERINGAIS

Edson Luiz Furtado, Faculdade de Ciências Agronômicas/Unesp

A diversidade de solos, clima e biomas brasileiros faz com que tenhamos uma diversidade de habitats e de espécies de animais, vegetais e de microrganismos. A seringueira tem sua origem no bioma amazônico e passou a ser cultivada no Cerrado e na Mata Atlântica, além de outros biomas pelo mundo, ocupando áreas desde o Trópico de Câncer até o de Capricórnio. Isto fez com que a espécie tomasse contato com diferentes microrganismos benéficos e maléficos. Dentre os maléficos está o fungo Microcyclus ulei na Amazônia, que evoluiu com esta hospedeira, e foi levado com ela para outros Juliano Ribeiro locais, se manifestando de forma epidêmica ao longo da costa Atlântica, no Brasil. Os fungos Colletotrichum gloeosporioides e, ultimamente, C. acutatum se adaptaram à seringueira a partir de outras espécies cultivadas ou não, e Oidium hevea pode ter sido introduzido no País junto com material para dar suporte aos programas de melhoramento e de plantio de seringueira, em São Paulo, na década de 1950.

Tanto Colletotricum como o oídio são problemas em parte do Cerrado e Mata Atlântica e nos demais biomas fora do Brasil (África, Índia, Malásia, Tailândia, Indonésia e China). Estes fungos são responsáveis pela queda secundária das folhas em plantios adultos de H. brasiliensis. Os centros de pesquisa dos países citados trabalham há anos para obter materiais resistentes. Outros patógenos podem ter ocorrência local e em determinada idade da planta, como os casos do fungo Tanatephorus cucumeris, que ataca plantas em viveiros e plantios novos na Amazônia, e da alga stramenopila Phytophthora spp., que ataca diferentes partes da planta (folha, pecíolo, painel) em diferentes idades, no litoral da Bahia.

Para um melhor entendimento dos técnicos e heveicultores, vamos tratar as doenças da seringueira no Brasil de forma regionalizada, conforme o zoneamento climático para o mal das folhas, proposto por Ortolani et al. (1983), pois isto pode facilitar tanto na escolha da região, modalidade de plantio, clones e medidas de manejo a serem adotadas em cada região.

Zoneamento climático para o mal-das-folhas — Este zoneamento dividiu a região amazônica em 4 zonas ecológicas distintas (Am1, Am2, Am3 e Am4) e as demais regiões em outras 9, com a seringueira cultivada em 4 delas (tabela 1), correspondente aos biomas Mata Atlântica e Cerrado.

Doenças por região climática de plantio — As principais doenças foliares estão distribuídas conforme demonstrado na tabela 2. E na tabela 3 estão relacionadas as principais doenças que afetam o tronco e o painel de sangria.

A tabela 1 mostra uma vasta área com potencial de cultivo no Brasil (A e Am4), com estação seca bem definida, coincidentes com o período de troca de folhas, sem riscos de epidemias de mal das folhas. Plantios efetuados pela Pirelli no estado do Pará (Zona Am3) chegaram a despender 40% do ganho bruto anual com o tratamento fitossanitário. Por outro lado, São Paulo, que conta hoje com uma área aproximada de 50 mil, não tem a preocupação com este tratamento ou resistência ao fungo M. ulei, cujos seringais foram formados em sua maioria com clones orientais de alta produtividade, e hoje responde por mais de 50% da borracha natural do País. Outros exemplos podem ser vistos no Mato Grosso (A1), que, apesar da alta incidência de nematoides, ainda possui o maior seringal contínuo do País, com 8.500 hectares, e no Maranhão (Am4). Com base neste zoneamento é possível verificar as principais doenças em cada região e traçar as medidas de manejo adequadas (tabelas 2 e 3).

Tabela 1 - Zoneamento climático para a seringueira e o controle do mal-das-folhas. Ortolani et al. (1983)

I - Região Amazônica
Am1 - Área marginal, com superumidade constante e surtos epidêmicos da doença. Déficit hídrico anual (Da) = 0mm; umidade relativa média do mês mais seco (URs) > 85% e evapotranspiração real (ER) > 900mm. oeste do estado do Amazonas.

Am2 - Área marginal, umidade elevada e surtos epidêmicos. Da entre 0 e 100mm, URs entre 75%-85% e ER > 900mm. Faixa da região central da Amazônia.

Am3 - Área marginal a preferencial com restrições. Incidência moderada a alta da doença. Controle fitossanitário obrigatório apesar de existir uma estação seca variável. Da entre 100-200mm, URs entre 65%-80% e ER > 900mm. Faixa leste da Amazônia.

Am4 - Área preferencial com restrições. Incidência baixa de M. ulei. Exige cuidados na implantação do seringal, devido à alta deficiência hídrica estacional. Da entre 200 e 300mm, URs entre 65% e 80%. Abrange área de transição entre o Brasil Central e a Bacia do rio Paraguai.

II - Regiões não-Amaz

A - Área preferencial com condições térmicas e hídricas satisfatórias e um mínimo de risco de incidência da doença. Da entre 0-200mm; URs entre 55- 70% e ER > 900mm. NO de São Paulo, NE do MS, NO de MG.

A1 - Área preferencial com restrições. Baixa incidência da doença. Exige cuidados na implantação do seringal devido à deficiência hídrica estacional (Da entre 200-300mm). SE do MT.

B - Área marginal de condições superúmidas. Incidência moderada a alta da doença. Controle fitossanitário obrigatório. Da=0mm, URs > 80%, temperatura média do mês mais frio (Tf) > 20°C (Litoral da Bahia).

B1 - Área marginal com condições úmidas. Incidência moderada a alta da doença em jardins clonais, viveiros e plantios novos, ou plantio adulto com cultivares que não troquem adequadamente suas folhas (híbridos de H. benthamiana). Diferencia-se da região anterior por apresentar Tf < 20°C, ou pela existência de período seco mais prolongado na troca das folhas (Região do Vale do Ribeira e litoral de São Paulo).