Nematoides

 

O perigo da MONOCULTURA

O 31º Congresso Brasileiro de Nematologia debateu em Cuiabá o que tem causado o aumento das populações de nematoides e as maneiras de enfrentar o verme

O aumento das populações de nematoides nas lavouras tem provocado grandes perdas a muitos produtores. As causas do crescimento populacional de algumas espécies e as alternativas para a redução dos prejuízos foram discutidas na 31ª edição do Congresso Brasileiro de Nematologia, em Cuiabá, evento que reuniu especialistas no assunto. De acordo com os pesquisadores, sistemas de produção baseados em monocultura ou na sucessão contínua de culturas hospedeiras contribuíram para o aumento considerável das populações de espécies de fitonematoides que causam queda de rendimento da planta e perdas de produção. No Brasil, quatro grupos de fitonematoides se destacam devido aos danos causados: nematoides de galha (Meloidogyne sp.), de cisto (Heterodera sp.), reniformes (Rotylenchulus sp.) e das lesões radiculares (Pratylenchus sp.).

"Os nematoides são preocupações constantes na agricultura. Por eles serem parasitas de raiz, normalmente são negligenciados", avalia Asmus, da Embrapa Agropecuária Oeste

"Os nematoides são preocupações constantes na agricultura. Por eles serem parasitas de raiz, normalmente são negligenciados. É provável que você já tenha ele na sua propriedade. A população vai aumentando e você não percebe. De repente, a planta começa a diminuir um pouquinho o porte e a produção, até que o problema se intensifica. Só aí se busca ajuda", explicou o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste Guilherme Asmus. De acordo com ele, que apresentou um histórico da evolução das populações de fitonematoides no Cerrado, muitas vezes os sintomas dos danos causados por estes vermes é confundido com o de outras causas, como a compactação do solo e a deficiência mineral, o que dificulta ainda mais o controle.

Pratylenchus brachyurus — Pesquisas mostram que em Mato Grosso foi identificada a ocorrência de nematoide de galhas em 23% das lavouras de soja, de cisto em 35%, reniforme em 4% e das lesões radiculares em 96%. E é justamente este grupo com maior incidência que tem gerado mais preocupação aos pesquisadores e agricultores. Segundo o professor da Esalq Mário Inomoto, houve certo descaso por parte de pesquisadores e agricultores em relação ao Pratylenchus brachyurus, o que permitiu o aumento populacional e a maior distribuição geográfica. Sem cultivares com resistência a este verme, hospedeiro de plantas como soja, milho, algodão e braquiárias, medidas mais drásticas são necessárias para controlá-lo.

"A técnica mais efetiva é a sucessão ou rotação com Crotalaria spectabilis ou Crotalaria ochroleuca. Isto exige um sacrifício do agricultor. Quando ele faz sucessão, fica um ano sem plantar milho. Ao invés do milho, ele planta a crotalaria spectabilis, que não dá renda. Ela diminui a população de nematoides, o que é positivo, e, sendo um adubo verde, aumenta a quantidade de nitrogênio no solo. É um benefício, mas ele deixa de ter a renda que é proporcionada pelo milho", descreveu Inomoto. De acordo com o professor, um desafio para a pesquisa é o de encontrar técnicas mais amigáveis para o produtor, que reduzam o impacto econômico.

O consórcio de milho com crotalária pode ser uma solução em casos com memas nor infestação de nematoides. "O consórcio não é tão bom quanto a crotalária sozinha, mas é uma técnica bem mais interessante do ponto de vista econômico. E pode ser utilizada em determinadas situações. É importante que o produtor esteja consciente para, mesmo quando a população for baixa, ele já entrar com algum método de controle para impedir que esta população cresça muito", afirma o professor da Esalq.

Anti-helicoverpa — Mas os nematoides podem ser uma solução complementar para o combate a algumas pragas, entre elas a lagarta Helicoverpa armigera. Pesquisas em desenvolvimento buscam viabilizar a utilização de vermes que parasitam insetos como forma de controle biológico. Algumas espécies dos chamados nematoides entomopatogênicos possuem uma associação mutualística com bactérias que resulta na morte rápida dos insetos que parasitam. Assim, podem ser utilizadas como controle biológico, que, associado a outras ferramentas de controle e manejo, farão o combate das pragas de solo e de insetos pragas da parte aérea que atravessam parte do seu ciclo biológico no solo.

Inomoto, da Esalq: houve certo descaso por parte de pesquisadores e agricultores em relação ao nematoide Pratylenchus brachyurus, o que fez aumentar a sua população

De acordo com o pesmeológico Luís Leite, este tipo de controle utilizando nematoides traz como vantagens a possibilidade de criação massal in vitro, o que reduz os custos de produção, a compatibilidade com muitos defensivos químicos e biológicos, o fato de serem específicos para insetos, persistirem por longos períodos no solo e de não apresentarem toxidade ao homem ou aos animais domésticos e de interesse zootécnico. Entre as inúmeras outras pragas que podem ser combatidas por este grupo de nematoides, estão bicudo da cana-de-açúcar, cigarrinha, gorgulho-da-goiaba, broca do cupuaçu e do cacau, broca-da-coroa- foliar do dendezeiro e, até mesmo, a helicoverpa, uma vez que a lagarta tem uma fase de vida no solo.

Entretanto, para Leite é preciso maior associação entre instituições de pesquisa, empresas e produtores para que esta tecnologia possa ser disponibilizada em larga escala. "Existe demanda, mas a pesquisa precisa trabalhar em parceria com empresas e produtores. É difícil criar patógenos do solo. É difícil criar nematoides em áreas de pesquisa. Precisa de áreas maiores para produzir", afirmou. Segundo o pesquisador Fábio Schmidt, da Bio Controle, o cultivo destes nematoides em meio sólido é difícil e tem custos elevados. Desta forma, estão sendo feitos experimentos para a produção destes em meio líquido, o que permitirá maior escala de produção e melhor viabilidade econômica.

Segundo o pesquisador da Alemanha Ralf-Udo Ehlers, para viabilizar os nematoides entomopatogênicos, que combatem pragas, será necessário desenvolver um sistema diferenciado

Outro desafio para a utilização desta forma de controle biológico é a logística. Segundo o pesquisador da Universidade de Keil, da Alemanha, Ralf-Udo Ehlers, para a viabilização do uso destes nematoides entomopatogênico nas extensas lavouras brasileiras, será necessário desenvolver um sistema diferenciado para produção e comercialização, uma vez que o tempo de prateleira do produto atualmente inviabiliza sua utilização.