Comercialização

 

Venda da safra com PROFISSIONALISMO

Para garantir a melhor cotação, é bom fugir do auge da colheita. E a comercialização via Bolsa é uma alternativa para usufruir o momento do melhor preço

Engenheiro Agrônomo Emmanuel Zullo Godinho, analista técnico certificado pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec)

O crescimento do Brasil está diretamente relacionado ao mercado de agropecuário; Imagina-se uma perspectiva de um PIB geral na casa dos 2,3%, segundo o Boletim Focus do Banco Central, enquanto a perspectiva do PIB da pecuária em 3,92% e o da agricultura em 2,61%, uma média geral de 2,99%. São dados do Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo, e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Isto mostra que o agronegócio está em franca expansão, uma consequência da evolução dentro e fora da porteira. A biotecnologia, por exemplo, é técnica que mais se destacou neste âmbito de evolução, com sementes transgênicas resistentes a herbicidas e depois a insetos. E existem evidências de que em alguns anos as sementes terão resistência à seca prolongada. Por trás destas técnicas evolucionárias o que os produtores buscam são maiores rentabilidades nos fluxos de caixa.

O hedge pode ajudar a resolver a grande preocupação do produtor, que são os preços em época de safra, pois a tendência neste período é de preços menores

A grande preocupação final do produtor ainda são os preços em época de safra, pois a tendência neste período é de preços menores. As cotações melhores e com rentabilidades maiores estão na entressafra. E para usufruir estas oportunidades existem técnicas avançadas para que o empresário rural fuja da volatilidade. É o chamado hedge, uma operação de mercado futuro na BMF&Bovespa em que o investidor monta uma operação de venda no mercado futuro. O produtor faz uma operação de venda a futuro na Bolsa para garantir o preço no mês da colheita. Mas ele deve saber que esta operação só terá êxito se tiver um fluxo de caixa estruturado que mostre qual é o seu custo de produção por hectare. Assim ele consegue travar seus custos.

Mas não é só isto. Alguns itens deverão ser observados para uma operação de hedge. A começar com a abertura de uma conta corrente numa corretora que tenha expertise no mercado e que possua área de análise de investimentos focada na área agrícola. E, principalmente, pelo menos um analista técnico certificado pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). Também é preciso um grande conhecimento no mercado agropecuário em itens funcionais como base, ajuste diário, margem de garantia e vencimento da operação.

A base é a diferença entre a cotação do mercado futuro e o preço da mesma commodity no município onde está a lavoura. Um exemplo: no dia 16 de agosto de 2013, na BMF&Bovespa, o preço do milho com vencimento setembro/ 2013 teve como último negócio R$ 23,34/saca; em Toledo/PR, no mesmo dia, a saca estava cotada a R$ 16,70. Assim, a base é de R$ 6,63, mas sabese que a base geral com preços em média histórica é de R$ 5. O ajuste diário é a adequação das posições em aberto dos clientes em relação ao ajuste diário que a Bolsa emite no final do pregão. Se o mesmo produtor vendeu um contrato de milho (450 sacas ou 27 toneladas) a R$ 23,33/saca e no dia o ajuste da bolsa terminou R$ 23,30, assim o cliente, no próximo dia útil, teria em sua conta corrente na sua corretora um crédito de R$ 0,03 por saca, ou R$ 13,50 por contrato.

A margem de garantia é um valor que o investidor deposita no Banco BMF&Bovespa, montante que deverá ser alocado na conta corrente do banco da corretora. Assim, ele pode abrir uma posição no mercado futuro no mesmo dia. Para poder abrir uma operação de milho, o investidor deverá ter depositado em dinheiro ou em ativos aceitos pela clearing um valor aproximado de R$ 800, sabendo que se a garantia for uma ação de uma empresa, ela terá um deságio sobre o valor da ação. Por último e com a mesma importância que os itens anteriores, a data de abertura de uma operação na Bolsa e a do seu encerramento devem ser casadas com o contrato de entrega do grão para o comprador. Se o empresário tem que entregar um contrato de milho físico no dia 5 de setembro, o mesmo deverá zerar sua posição de venda recomprando a mesma posição no dia 5 de setembro, para não haver descasamento entre o mercado físico e o futuro.

Godinho: as cotações melhores estão na entressafra, e para usufruir destas oportunidades existem técnicas avançadas, como a do hedge, para que o empresário rural fuja da volatilidade

Formação e conhecimento — Para operar no mercado financeiro, o investidor tem que observar qual a corretora que presta o serviço em relação às taxas cobradas, se seus analistas são certificados pelo órgão regulador e supervisor, a Apimec, se eles possuam ainda conhecimentos específicos da área e formação - Engenharia Agronômica, Medicina Veterinária, Zootecnia, etc. Pois, além de observar os gráficos do mercado, o analista deve passar para o investidor uma análise fundamental da commodity que está operando, como o andamento das condições das lavouras norte-americanas, brasileiras e argentinas, a relação oferta e demanda no mundo, as exportações, etc. E, para o empresário rural (investidor) que deseja operar na Bolsa como hedger (proteção em inglês) ou como apenas investidor, é de suma importância participar de palestras, cursos, workshops para conhecer cada vez mais o mercado em que atua, pois só assim terá subsídios para saber o caminho a tomar.