Soja

 

Sentindo-se em CASA

O produtor gaúcho tem aumentado suas apostas da soja em áreas de arroz irrigado, uma opção de rotação de culturas. E a parceria Irga e CCGL Tec acaba de lançar a primeira cultivar da oleaginosa registrada para solos arrozeiros

Cláudia Erna Lange e Anderson Vedelago, pesquisadores da Fundação Irga - Instituto Rio Grandense do Arroz

A rotação de culturas é uma ferramenta de sustentabilidade técnica, econômica e de ambiente para a orizicultura gaúcha, e a soja é a espécie produtora de grãos mais indicada para iniciar um sistema integrado de produção por diversos motivos. Entre eles o de pertencer a uma família botânica distinta da família do arroz, garantindo, por meio do cultivo intercalado, a quebra de dominância de plantas daninhas, principalmente o arroz vermelho, pragas e moléstias. Também contribui para a melhoria da fertilidade do solo, o que beneficia o estabelecimento de espécies de cobertura e de pastagens de inverno, facilitan- Fotos: Irga do a adoção da integração lavoura-pecuária. Além de viabilizar o emprego do plantio direto no cultivo do arroz irrigado, que são dois sistemas de produção reconhecidamente conservacionistas de cultivo e que contribuem fortemente para a sustentabilidade econômica e ambiental da produção agrícola.

Arquitetura de planta da Tecirga 6070RR, em forma de cone que garante entrada de luz e produtos fitossanitários no dossel

Nos últimos anos está ocorrendo um aumento considerável de áreas cultivadas com soja em rotação ao arroz irrigado, sendo que esta passou de 66 mil hectares na safra 2011/12 para aproximadamente 300 mil hectares na safra 2012/ 13. Este aumento de área é impulsionado pela necessidade de alternativas eficientes de controle de plantas daninhas nas lavouras de arroz irrigado, especialmente o arroz vermelho, resistente aos herbicidas do Sistema Clearfield. Outro fator importante de impulso remete à sustentabilidade financeira das propriedades, que são beneficiadas pela diversificação de culturas e de renda, intensificando o uso das terras, das máquinas e da mão de obra, com diminuição de custos por unidade de grãos produzidos.

Também influencia neste aumento de área cultivada na chamada Metade Sul do estado o esgotamento da possibilidade de expansão para novas áreas na Metade Norte, sendo que a soja já ocupa praticamente seu potencial máximo de cultivo nesta região. O potencial de crescimento da soja nos solos arrozeiros ainda é enorme, visto o seguinte: 1 - a área atual cultivada representa menos de um terço da área disponível; 2 - devido à oportunidade de cultivo com suplementação hídrica de baixo custo em anos de estiagem, estabilizando sua produtividade ao longo dos anos; 3 - pelo fato de que não implica em diminuição da área cultivada de arroz.

Na imagem é visível que a cultivar Tecirga 6070RR reagiu bem melhor ao excesso hídrico que ocorreu em dezembro de 2012 no Rio Grande do Sul

O sucesso no cultivo de soja em rotação com o arroz irrigado é dependente de um adequado manejo do solo e da cultura e de cultivares adaptadas. A soja, tal como outras culturas de sequeiro, não tolera grandes períodos de excesso hídrico, sendo este o principal fator de estresse às plantas que gera instabilidade produtiva e/ou baixa produtividade. O desenvolvimento de espécies de sequeiro em solos arrozeiros depende principalmente de evitar o excesso hídrico, e o cultivo de soja nestes solos é possível, como provam inúmeros casos consolidados de rotação soja x arroz irrigado no Rio Grande do Sul, desde que sejam adotadas medidas que evitem e/ou reduzam este estresses, por meio de uma boa estratégia de drenagem e do uso de cultivares tolerantes ao excesso hídrico.

Semeadura em microcamalhões — Garantir boa drenagem superficial, de forma que as poças de água que eventualmente venham a se formar não perdurem mais que 24 horas, é condição primordial para assegurar o sucesso do empreendimento. A semeadura da soja em microcamalhões é uma alternativa para facilitar a drenagem da lavoura e evitar danos de excesso hídrico em áreas de cotas baixas e muito planas. Outra medida para mitigar os danos de excesso hídrico é utilizar cultivares mais tolerantes ao estresse. A função da tolerância ao excesso hídrico é reduzir as perdas causadas por este estresse em situações de precipitação de altos volumes, quando o solo, a despeito de todo o sistema de drenagem, permanece saturado por alguns dias.

A Tecirga 6070 RR é a primeira cultivar de soja registrada para o cultivo comercial no Rio Grande do Sul selecionada em solos arrozeiros, visando especificamente às demandas deste segmento produtivo. Fruto da parceria técnica entre CCGL Tec (Cooperativa Central Gaúcha) e o Irga, a cultivar Tecirga 6070 RR foi desenvolvida a partir da base genética da CCGL Tec e testada nas condições de solos de arroz irrigado pela equipe técnica do Irga.

Foram diversos experimentos conduzidos ao longo de três anos, que possibilitaram a identificação e a comprovação da tolerância ao excesso hídrico, a qual contribui para a estabilidade de rendimento sob situações deste estresse. Outras características, como sistema radicular com boa tolerância a podridão radicular de fitóftora (Phytophthora megasperma var. sojae) e podridão negra da raiz (Macrophomina phaseolina), garantem a manutenção do número de plantas por área mesmo em condições favoráveis às doenças, típicas em terras baixas. O tipo de crescimento indeterminado, por sua vez, possibilita crescimento adequado, mesmo em situações que limitam o crescimento de plantas, como excesso e deficiência hídrica. O grupo de maturação (GM) é 6,3, com uma ampla área de adaptação que vai do estado do Mato Grosso do Sul ao Rio Grande do Sul.

Na microrregião 101, que corresponde à zona arrozeira gaúcha, a cultivar apresenta ciclo semelhante ao da cultivar BMX Potência RR. Este ciclo é de grande interesse para o cultivo em solos arrozeiros, pois a maturação proporciona a vantagem de antecipar a colheita para meados a final de março, época em que os solos das terras baixas ainda não estão excessivamente úmidos. Esta antecipação facilita a colheita, ao mesmo tempo em que garante área pronta para a semeadura de arroz a partir de setembro, sem a necessidade de realização de operações de preparo do solo para corrigir rastros de colheita.

A arquitetura ereta e em cone, aliada às folhas lanceoladas, beneficia a entrada de luz, contribuindo para a fixação de legumes até nos nós mais baixos, condição necessária para a construção de um alto potencial de rendimento, e que também facilita a penetração dos produtos utilizados no combate a lagartas e doenças como ferrugem da soja. Outro aspecto relevante da arquitetura de planta é a sua capacidade de engalhamento, que confere à variedade capacidade de compensar o rendimento de falhas de estande. As condições bioclimáticas da microrregião 101 possibilita a expressão de grandes potenciais de rendimento de grãos de soja, desde que o manejo dispensado possibilite a construção de um alto potencial de rendimento e a manutenção deste através da defesa fitossanitária.

Neste contexto, a cultivar Tecirga 6070 RR é uma cultivar que apresenta alta produtividade e estabilidade de rendimento de grãos, como pode ser visto nos resultados de ensaios e de lavouras experimentais. A construção do potencial de rendimento deriva da adoção de um conjunto de ações de manejo, como densidade de semeadura, uniformidade de estande e de germinação, e época de semeadura, juntamente com a adequação da fertilidade do solo, garantindo que aspectos nutricionais não restringirão o crescimento e o desenvolvimento das plantas, além de interferir na habilidade de tolerar estresses, incluindo o causado por excesso hídrico.

De uma foram geral, os solos arrozeiros gaúchos são predominantemente ácidos e a correção do pH do solo exerce um papel central na adequação destes para o cultivo de soja, sendo essencial para garantir o bom desenvolvimento da planta e dos nódulos, estes últimos os responsáveis pelo suprimento da alta necessidade da cultura por nitrogênio. Em relação ao fósforo e ao potássio, a maioria dos solos arrozeiros apresenta, em geral, baixos estoques destes nutrientes para o cultivo de soja, tornando importante a fertilização na linha de semeadura, com o cuidado de não ultrapassar 60 kg/ha de deposição de K2O no sulco de plantio, para evitar a desidratação e a queima das plântulas em germinação.