Sucessão

Pela ETERNIDADE do negócio

A sucessão familiar é uma etapa muito importante e que todos os líderes precisam se preocupar com antecedência. E recomenda-se que a troca de bastão seja planejada o mais cedo possível e quando as coisas estão andando bem

Marcelo Prado, fundador da MPrado Consultoria

Muito se fala sobre fatores que afetam a competitividade do agronegócio brasileiro. Geralmente são abordadas as questões econômicas, tributárias, logística, infraestrutura, tecnologia, dentre outros. A sucessão nas propriedades agrícolas e nas empresas familiares é um tema que tem ficado esquecido, e, não raro, quantas vezes ele tem sido vital para a perpetuidade de várias empresas. Os jovens, quando chegam aos Leandro Mariani Mittmann A GRANJA | 45 INVASORAS 16, 17 anos, precisam tomar a decisão da escolha da profissão, escolher o futuro. Nesse momento vem à mente uma certeza: eles não querem continuar o negócio dos pais. Cresceram ouvindo, na família, reclamarem que o agronegócio é difícil por causa da dependência de fatores climáticos, das políticas governamentais, entre outros. Dentro deste contexto, optam por ser engenheiros ou médicos; advogados ou psicólogos.

Uma coisa muito simples que o segmento do agronegócio deveria praticar em todos os sentidos é fazer marketing positivo do setor. Por exemplo, o agronegócio representa 22,3% do PIB brasileiro, 40% de todas as exportações e 50% dos empregos gerados no primeiro semestre de 2013. Esses números por si só são suficientes para mostrar a força deste segmento da economia.

Se nossos filhos crescessem ouvindo os números e conversas positivas do negócio familiar, quando fossem decidir a carreira profissional, iriam optar por agronomia, veterinária, zootecnia, engenharia de alimentos ou, quem sabe, administração de agronegócio e, nisto, continuariam os empreendimentos agro da família.

A sucessão é uma etapa muito importante com que todos os líderes precisam se preocupar com antecedência. Sabendo que é necessária, deve ser planejada quando as coisas estão bem. A escolha do sucessor deve respeitar critérios totalmente ligados à competência. É claro que todo pai gostaria de ver o seu filho dando sequência ao negócio criado por ele. Muitas vezes, falta vocação, espírito de liderança e empreendedorismo. Nestes casos eles podem trabalhar na empresa em posições em que não sejam exigidos em habilidades e competências que não possuam.

Um conceito que tem brotado no coração e na mente dos pais de hoje é que, acima de qualquer coisa, eles esperam que seus filhos sejam felizes, que pratiquem o bem e que estejam longe das drogas. A parte profissional precisará vir depois desses valores. Um pai não tem o direito de definir o futuro de um filho. Ele pode sugerir e até influenciar, mas a decisão final tem que ser sempre do filho, porque, no futuro, se ele não se sentir realizado profissionalmente, não poderá responsabilizar o seu pai pela escolha.

Quando a sucessão não se dá por herdeiros, ela deve seguir critérios primordialmente profissionais, elegendo o integrante da equipe que mais esteja preparado para assumir o cargo de líder do negócio. Os familiares precisarão ser capacitados para escolher o melhor profissional para a sucessão. Outra competência que precisará ser desenvolvida é a capacidade de se estabelecer metas, desafios, cobrar resultados e lidar com as recompensas. É preciso identificar o sucessor dotado de bom senso que lhe permita saber o momento de deixar a organização, cedendo espaço para as novas lideranças que estão sendo formadas na empresa. A sabedoria do gestor precisa fazê-lo entender que estar em uma posição de liderança não é tomar posse de um bem como se fora uma coisa eterna.

Preparação — No momento em que o sucessor é escolhido, ele precisará passar por uma fase de preparação, formação e desenvolvimento. Este programa poderá ter a duração de dois anos. Nesse período, deverá acompanhar o líder nas negociações, tomada de decisão, construção de estratégias e ações comerciais. São momentos e circunstâncias importantes para que ele possa ir se familiarizando com o futuro cargo. Importante lembrar que esses cenários são momentos em que o líder precisará transferir todo o conhecimento e práticas, antes desenvolvidas, para o sucessor. É muito importante que a organização estabeleça os requisitos mínimos de formação acadêmica, conhecimentos, habilidades e atitudes para se ocupar o principal cargo da empresa. Isso dá chance aos integrantes da família que se interessam pelo negócio e pela função de se prepararem para estar aptos ao processo sucessório. Esta fase possibilita oportunidade para que o líder sinta o amadurecimento e a evolução do sucessor. Outra hipótese seria a escolha de até três potenciais sucessores e, durante o processo de formação desses potenciais talentos, o líder poderá optar por aquele que mais demonstrar conhecimento e maturidade para exercer o cargo.

Marcelo Prado: "Os empresários rurais que começam a planejar sua sucessão desde cedo são aqueles que conseguem fazê-la com maior êxito"

Quanto mais evolui a tecnologia, a internet, os veículos de comunicação e o sistema educacional, mais fica evidenciado que o líder precisa ter uma grande habilidade para lidar e aglutinar pessoas para objetivos comuns. O colaborador quer ser ouvido, poder sugerir, analisar, criticar e, com isso, o líder que possuir essas habilidades será aquele que terá a maior possibilidade de alcançar bons resultados à frente do negócio.

Depois da posse — Quando o sucessor assume o cargo, é de vital importância que ele defina as linhas estratégicas de atuação do negócio para os próximos anos. Não poderá esquecer de compartilhá-las com os integrantes da equipe, para que todos possam remar o barco no mesmo sentido. O novo líder da organização precisará demonstrar real interesse sobre o desenvolvimento e a evolução de cada integrante da equipe. Nisto estará promovendo alegria em realizar o trabalho em que todos demonstram comprometimento e isto potencializa os resultados.

O segmento agro deveria fazer marketing positivo do setor, pois representa 22,3% do PIB e 40% de todas as exportações, índices que poderiam conquistar o interesse dos filhos que estão por decidir a carreira profissional

Outro ponto importante a ser levado em conta no processo de sucessão é a cultura praticada pelo líder e como esta será absorvida pelo sucessor. Quando o líder possui uma cultura muito forte, arraigada e os colaboradores já incorporaram esse modelo, o sucessor enfrentará desafios. Quando o novo gestor chega munido de uma cultura diferente, os colaboradores se sentirão desmotivados. Serão inevitáveis as comparações entre o que sai e o que chega. Eles, sucessor e sucedido, por mais competentes, não são iguais e terão estilos, habilidades e competências expressas de modo diferentes. Em alguns momentos os liderados sentirão falta dos valores, do tratamento do velho líder, dificultando o comprometimento, o cumprimento de metas e a geração de resultados.

E, para evitar que este problema ocorra, o novo gestor precisará definir, com clareza, o seu plano de trabalho e demonstrar o seu estilo de liderança para que a transição seja a menos traumática possível. A aquisição de habilidades na comunicação é imprescindível para o processo de sucessão e para a qualidade do trabalho dos colaboradores. Os líderes estão cada vez mais conscientes da necessidade da comunicação em todas as suas formas, utilizando-a como diferencial competitivo. Importante que o sucessor tenha uma excelente comunicação e que incentive toda a equipe a praticar uma comunicação com clareza, objetividade e qualidade. Sendo assim, no processo de sucessão a comunicação é, sobretudo, um exercício da mútua influência do sucessor e seus liderados a partir da transmissão de informações, ideias ou emoções.

Mais cedo, mais êxito — Os empresários rurais que começam a planejar sua sucessão desde cedo são aqueles que conseguem fazê-la com maior êxito. É muito importante também que o líder atual planeje quando pretende deixar o cargo e o que fazer depois que estiver livre. Como a longevidade nas pessoas tem aumentado e o trabalho é um fator de realização, é altamente relevante que cada um de nós se sinta produtivo até o fim da vida. À medida que vamos amadurecendo e alcançando a senioridade, vamos desenvolvendo novas habilidades e vocações.

Para isso, precisamos estar atentos para percebê-las e isto se torna um fator facilitador do processo. Os sonhos de um empreendedor vão se modificando ao longo da vida e também as coisas que lhe dão prazer. Hoje, se fala muito em sustentabilidade. No conceito tradicional é vista apoiada em três pilares: econômico, ambiental e social. No meu ponto de vista este conceito precisa ser ampliado. E, para isso, acrescento um quarto pilar, que é o da realização profissional e empresarial com o negócio, porque, se isso não ocorrer, o processo sustentável não se torna pleno. Enfim, a sucessão é um processo que precisa ter começo, meio e fim. E ele só termina quando o sucedido se afasta do negócio e o sucessor consegue incrementar a produtividade e o crescimento do negócio de forma sustentável, sem que haja necessidade do retorno do sucedido para dar suporte ao processo de gestão.