Reportagem de Capa

 

O desafio de PROTEGER a safra

Todo produtor sabe que manter a plantação sadia e as doenças e pragas bem longe da lavoura são condições essenciais para obter uma boa produtividade na hora da colheita. Mas os desafios no campo mudam, novos problemas aparecem, e exigem esforço e atualização. Em tempos de Helicoverpa armigera, a pesquisa vem analisando de forma incansável o que pode ser eficiente no combate a essa lagarta tão agressiva. E diante dessa praga e de tantos outros problemas fitossanitários, uma opinião é unânime: trabalhar com o monitoramento e a prevenção dos problemas é sempre o melhor a ser feito

Denise Saueressig
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Combater os problemas fitossanitários que atacam as lavouras faz parte da rotina de todo o produtor. Mas blindar a plantação contra doenças e pragas requer conhecimento e atualização. Assim como a pesquisa busca informações sobre os novos desafios que surgem a cada safra, cabe ao agricultor prestar atenção às formas eficazes de controle e, principalmente, à prevenção dos problemas. Por suas condições intrínsecas, a agricultura brasileira é suscetível à ocorrência de uma série de organismos que podem determinar perdas significativas no resultado final da colheita. O mais recente alvo do setor é a lagarta Helicoverpa armigera. Desde o início deste ano, quando foi confirmada a presença da praga até então nunca registrada no Brasil, a cadeia produtiva está concentrada na busca por soluções capazes de controlar a presença da invasora nas plantações.

Identificada primeiramente em localidades do Oeste da Bahia, Distrito Federal, Mato Grosso e Paraná, a praga foi diferenciada pela alta agressividade. Na Bahia, o cálculo é de prejuízos de R$ 1,4 bilhão em áreas de soja, milho e algodão na última safra. E considerando lavouras de algodão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e Minas Gerais, as perdas representaram R$ 10,7 bilhões, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

O combate à helicoverpa requer muito mais do que o controle químico feito de forma isolada, defende o engenheiro agrônomo, produtor rural e consultor Celito Breda, diretor da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) e vice-presidente da Fundação Bahia. "Precisamos de ações coletivas, além do manejo integrado de pragas. É necessário pensarmos num programa fitossanitário regional, onde todos os produtores locais trabalhem com o mesmo objetivo", define. O agrônomo integrou um grupo de produtores e técnicos que viajaram em fevereiro para a Austrália, país que convive com a ameaça da helicoverpa há muitos anos. "Aqui no Brasil ninguém estava preparado para uma praga como essa, que pode atacar 200 diferentes plantas. Na Bahia, ficamos dois anos com chuvas abaixo da média, e já sabemos que essa é uma condição benéfica à lagarta", salienta.

Terreno fértil — A Helicoverpa armigera tem ocorrência na Europa, Ásia, África e Oceania, nunca havia sido identificada no continente americano e é considerada praga exótica e quarentenária A1 no País. Ainda não se sabe a origem da lagarta e nem como ela chegou ao Brasil, mas aqui a helicoverpa encontrou clima favorável e alimento em abundância para procriar. Polífaga, ataca diferentes espécies de plantas, com registros em diversas culturas. "As condições tropicais do Brasil, com vegetação sempre presente e a ausência de invernos rigorosos como em outros países, que ficam um período com os campos cobertos de neve, são facilitadores para a reprodução da praga por aqui", lembra a engenheira agrônoma Silvana Paula-Moraes, pesquisadora da Embrapa Cerrados.

Celito Breda, diretor da Abapa: é preciso pensar num programa fitossanitário regional, onde os produtores trabalhem com o mesmo objetivo

O gênero Helicoverpa, no entanto, já existia no Brasil, completa a professora Cecília Czepak, da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG). "Tínhamos duas espécies em nossas lavouras: a H.zea, de ocorrência generalizada, e a H.gelotopoeon, com citações no Sul do País. Precisamos pensar que a maneira como temos conduzido nossa agricultura tem ajudado e muito na dispersão e no aumento populacional das pragas, pois não seguimos regras básicas do manejo integrado e normalmente as aplicações de inseticidas são baseadas em calendários e na fase da cultura. Fazendo assim, as pragas se beneficiam", observa.

Recomendações — Nas diferentes regiões do País, pesquisadores estudam e geram informações sobre a helicoverpa. Tanto a Embrapa quanto o Ministério da Agricultura disponibilizam endereços na internet para auxiliar técnicos e produtores. Os sites www.embrapa.br/ alerta-helicoverpa e www.agricultura.gov.br/ combatehelicoverpa fornecem orientações e esclarecimentos sobre o assunto. Um documento desenvolvido pela Embrapa – disponível no endereço www.embrapa. br/alerta-helicoverpa/Manejo- Helicoverpa.pdf – também aponta as ações emergenciais, que destacam especialmente o Manejo Integrado de Pragas (MIP). "De um modo geral, é a observância dos princípios que guiam o controle de outras pragas, prevendo menos intervenções com pulverizações", descreve Silvana.

O uso de armadilhas luminosas para identificação de lepidópteros é uma das ferramentas que podem ser usadas para o monitoramento da lagarta. Com a amostragem e a densidade populacional, o produtor poderá ter uma noção da necessidade de medidas de controle. Ainda na etapa de prevenção, em lavouras onde são cultivadas plantas com a tecnologia Bt, é fundamental que os produtores observem a adoção de áreas de refúgio. O recomendável é que o refúgio não ultrapasse 800 metros de distância da área cultivada com plantas Bt para facilitar o acasalamento de insetos expostos e não expostos à toxina. A Embrapa alerta para os cuidados que o produtor deve ter na administração de produtos químicos, que devem ser utilizados com base nas recomendações e no monitoramento das pragas, evitando usos abusivos e o desequilíbrio ecológico.

Métodos de controle — Na avaliação da professora Cecília, da UFG, o produtor brasileiro tem opções e condições suficientes para combater a praga. Ela explica que a lagarta coloca ovos expostos na superfície superior das folhas, nas inflorescências e nas brotações. "Além disso, suas lagartas iniciam raspando as folhas e não se escondem enquanto pequenas. Na fase vegetativa, elas têm preferência pelo terço médio/superior das plantas. Entretanto, na fase reprodutiva e quando está em estágios mais avançados, entre o 4º e 6º ínstar, são mais vorazes e aí fica muito difícil controlá-las. Logo, o melhor a fazer é monitorar este inseto desde o ovo", acentua.

Na opinião dela, é o momento de o produtor utilizar uma ferramenta simples. "É preciso usar 'os olhos treinados' e iniciar os devidos controles a partir de então. Este controle pode ser o biológico, com a liberação do Trichogramma e a utilização de inseticidas seletivos ou biológicos. Também temos ótimas ferramentas que podem ser utilizadas na detecção da entrada dos adultos no campo, que são os feromônios, já em comercialização no Brasil", destaca Cecília.

Outras táticas são interessantes, como a destruição dos restos culturais, culturas armadilhas, eliminação de plantas espontâneas ou plantas hospedeiras e evitar a chamada "ponte verde" (sequência ininterrupta de lavouras). "O produtor deve ter em mente que esta praga, como qualquer outra praga, deve ser vista dentro do sistema produtivo e, portanto, não basta somente controlá-la no cultivo estabelecido, mas em todo o sistema e com os conhecimentos técnicos já estabelecidos. Talvez essa seja a nossa grande chance de colocarmos em prática todos os princípios do Manejo Integrado de Pragas, já tão difundido pelo País, mas tão pouco utilizado", ensina.

O risco da disseminação — Os pesquisadores brasileiros continuam recebendo relatos de produtores e avaliando amostras para verificar se existe a presença da Helicoverpa armigera em outros estados, além daqueles onde a praga já foi identificada. Uma das características da lagarta que mais preocupa os especialistas é a sua grande capacidade de dispersão. Na literatura científica, há relatos de que os insetos adultos podem percorrer distâncias de até mil quilômetros. "Ainda não sabemos com exatidão qual é o comportamento da praga aqui no Brasil, mas, pelo que vimos em outros países, achamos difícil que ela não alcance diferentes regiões", avalia Silvana, da Embrapa.

A professora Cecília Czepak revela que a praga já se alastrou. Segundo ela, há evidências ou confirmações nos seguintes estados: Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina, Tocantins, Rondônia, Roraima, Pará, Piauí, Sergipe e Maranhão. "Passados tantos meses, muitos estados ainda não se moveram e isso é muito ruim, pois cada estado precisa tomar suas próprias providências para conter ou mesmo conviver com esta praga. Com relação às culturas, a lagarta já foi identificada em soja, feijão, feijão de corda, pastagem, milho, algodão, citros, girassol, crotalária, trigo, sorgo, milheto, tomate, alface, abóbora, melancia, pimentão e café", enumera.

Pesquisadora Silvana, da Embrapa Cerrados: grande capacidade de dispersão da helicoverpa é uma das preocupações dos especialistas

Emergência — A mobilização dos produtores tem sido grande desde que a praga foi identificada. Reuniões e seminários vêm sendo realizados periodicamente e exemplos de manejo em outros países são analisados. "A lei determina que o Governo deve barrar o problema para não contaminar todo o País, mas isso não aconteceu. Alertamos as autoridades ainda em 2012, quando percebemos que havia algo diferente atacando as lavouras na Bahia. Como o Governo não tem estrutura, pelo menos deveria permitir que os produtores usassem os produtos necessários para combater o problema", argumenta o engenheiro agrônomo Celito Breda.

O consultor refere-se ao uso de substâncias como o benzoato de emamectina. O produto, que é utilizado no controle da helicoverpa em outros países, chegou a ter o uso emergencial autorizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) nas lavouras brasileiras. No entanto, ações do Ministério Público em estados produtores impediram a aplicação nas lavouras. "Em torno de 30 países utilizam o benzoato, mas a substância não tem registro no Brasil", acrescenta o engenheiro agrônomo Luís Carlos Ribeiro, gerente de Regulamentação Estadual da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).

Para o dirigente, a questão do benzoato de emamectina é um exemplo de como o Ministério da Agricultura deveria ter mais força diante do Governo. Ele enxerga problemas sérios nas fiscalizações nas fronteiras e acredita que o sistema de defesa vegetal do País é carente de recursos e estrutura. "O Governo precisa pensar que está colocando em risco um setor que ajuda a sustentar a economia do País, já que estamos lidando com uma praga extremamente agressiva. É necessário pensar quem vai pagar a conta dos prejuízos dos produtores", frisa.

O agrônomo Celito Breda tem o pensamento semelhante e critica o excesso de burocracia do País e a fragilidade do Mapa. "O ministério deveria ter soberania e autonomia para determinar o uso emergencial de um produto sem que houvesse interferências. A legislação que regulamenta o uso emergencial de defensivos agrícolas é de 1934 e precisa ser atualizada", assinala. Mesmo defendendo a necessidade de produtos químicos eficientes contra a helicoverpa, Breda diz que de cada dez ações realizadas contra a lagarta, sete são voltadas ao controle biológico, que tem demonstrado eficiência. "A questão é que esse setor não avançou o suficiente no País e, por isso, não há como expandir o uso tanto quanto necessário", relata.

Plano de combate — Ao confirmar a presença da lagarta, o Mapa declarou estado de emergência fitossanitária no País. Um plano nacional está sendo elaborado com a participação dos estados produtores, da Embrapa e de outras instituições de pesquisa. "Nossa intenção é gerar o máximo de informações para o produtor, além de trabalhar com um sistema de alerta nos municípios. Recomendamos que, em caso de detecção da praga, os agricultores acionem o Mapa ou o órgão local de defesa agropecuária", declara o fiscal federal agropecuário Érico Tadashi, do Departamento de Sanidade Vegetal do Mapa.

Até o mês passado, por meio das demandas recebidas, o ministério autorizou o registro emergencial de seis ingredientes ativos contra a helicoverpa. Entre os produtos, estão três químicos, um biológico, um vírus e um feromônio. "Nos próximos meses, continuam as análises de outros ingredientes ativos que passarão por avaliação prioritária. Entre estes, está o benzoato de emamectina, que será reavaliado", explica o coordenador geral de agrotóxicos e afins do Mapa, Luís Rangel.

Embora tenha uma legislação de defensivos alinhada ao padrão de países como Estados Unidos e Inglaterra, o Brasil tem carências estruturais que dificultam os processos de aprovação e registro de novas substâncias e provocam críticas entre produtores e indústrias. "A pressão do agricultor é legítima. Sabemos que precisamos de mais eficiência, e essa melhoria passa pelo aumento da equipe de profissionais que atuam na área. Ao mesmo tempo, precisamos cumprir as exigências da lei e não podemos correr o risco de liberar substâncias que depois possam significar barreiras na importação de nossos produtos", afirma Rangel.

Segundo ele, o Governo estuda como será possível resolver rapidamente essa deficiência no setor, que precisa de técnicos altamente capacitados para o trabalho. Os processos envolvendo agrotóxicos passam pelo crivo do Mapa, da Anvisa (Agência Nacional de Defesa Sanitária) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A estimativa é de que o Ibama precise de 35 profissionais a mais na área. Na Anvisa, a necessidade é de aproximadamente 30 técnicos e, no Mapa, são 15 trabalhadores que teriam que ser designados para a função. "Os gestores dos três órgãos falam a mesma língua e, por isso, sabem que é preciso melhorar a estrutura e reduzir a burocracia do processo. Isso, no entanto, precisa ser feito sem perda de qualidade, trabalhando por produtos mais modernos e menos tóxicos. O Governo cumpre a missão institucional de que um produto seja utilizado com estrita segurança", complementa o dirigente do Mapa.

Uma das ideias analisadas é estipular parcerias e articulações com universidades e fundações de pesquisa para agilizar as avaliações. Segundo Rangel, são recebidos em torno de mil pedidos por ano para novos registros e alterações de registros. O número de aprovações fica entre 160 e 180 registros por ano. O gerente da Andef, Luís Carlos Ribeiro, reclama que o Governo dá prioridade para os genéricos, deixando em segundo plano a aprovação de novas moléculas. "São tecnologias que custam US$ 250 milhões ou US$ 300 milhões e que, pela lentidão do nosso sistema regulatório, levam 48 meses para ter um registro no Brasil", menciona.

Polífaga, a Helicoverpa armigera já foi identificada em diferentes culturas, como soja, feijão, milho, algodão, citros, girassol, trigo, sorgo e tomate

Mais rigor nas fronteiras — Além da preocupação com as espécies exóticas ou quarentenárias A1, existe o alerta em relação às pragas classificadas como A2, que já foram registradas, mas ainda têm ocorrência restrita no País. É o caso da mosca da carambola, que ataca frutíferas e está no Amapá, e do ácaro hindu, que ataca citros e foi identificado em Boa Vista/RS. "Segundo a Embrapa, a cada oito meses é registrada a entrada de um novo alvo biológico no País. Em torno de 10% desse total se instala e se dissemina", informa Ribeiro.

A Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária (SBDA) estima que existem em torno de 150 pragas exóticas com potencial para chegar às lavouras brasileiras. No acompanhamento que faz na América Latina, a entidade identifica riscos nos países vizinhos. "A Argentina tem 18 alvos biológicos que podem chegar ao Brasil. No Peru, são 23; na Colômbia, 19; nas Guianas, 24; na Venezuela, 17; e no Equador, 12. Esses números são preocupantes e mostram que o Brasil precisa ampliar suas estruturas de defesa sanitária vegetal e vigilância nas fronteiras secas, em portos e aeroportos", ressalta o dirigente da Andef.

Uso de feromônios sexuais é uma alternativa eficiente para monitoramento das lagartas que atacam as lavouras de milho

Ataque às lagartas do milho — Além das ameaças que vêm de fora, a agricultura brasileira lida todos os anos com problemas frequentes, mas que desafiam produtores e especialistas. As lavouras de milho, que agora têm na Helicoverpa armigera seu grande vilão, são ameaçadas por outros tipos de lagartas que, se não forem controladas, podem destruir as espigas e o pendão das plantas.

O engenheiro agrônomo Crébio José Ávila, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, esclarece que as primeiras lagartas que podem causar danos na cultura são aquelas que estão presentes na cobertura que irá ser dessecada para o plantio do milho. "As pragas que ocorrem nesta fase são a lagarta do cartucho (Spodoptera frugiperda), a lagarta- rosca, (Agrotis sp.) e a lagarta-dotrigo (Pseudaletia sequax). Em seguida, a cultura pode sofrer com a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), que ataca o colo da planta. Já a lagarta do cartucho pode também atacar as folhas do cartucho e a espiga. Por último, a helicoverpa pode atacar tanto as espigas, como o pendão das plantas", detalha.

Como forma de prevenção, o emprego de feromônios sexuais para monitoramento de adultos representa uma alternativa eficiente. "A presença de adultos capturados nas armadilhas dá uma indicação do potencial de danos na cultura, e isso é bastante válido para o manejo da lagarta- do-cartucho e da helicoverpa. O uso de inseticidas nas sementes é também uma prevenção para o controle de elasmo e de lagartas que ocorrem na fase inicial de desenvolvimento da cultura", pontua Ávila.

Pesquisadora Margarida Fumiko Ito, do IAC: cultura da soja pode ser afetada por mais de 40 doenças relatadas no Brasil

Em julho deste ano, a Emater/RS e a Embrapa assinaram um Termo de Cooperação Técnica para viabilizar a Campanha para o Controle Biológico de Lagartas do Milho. A campanha tem como meta disponibilizar armadilhas com a vespa Trichogramma para o monitoramento em 15 mil hectares de milho no Rio Grande do Sul. Um dos objetivos é diminuir o uso de inseticidas nas lavouras e oferecer uma tecnologia de baixo custo para o produtor. A intenção é estender a campanha para outros estados do País.

Entre as formas de controle, a grande novidade nas últimas safras é, sem dúvida, o emprego de plantas transgênicas Bt. "A biotecnologia mudou drasticamente o cenário de pragas nos cultivos, pois ela proporciona o controle de algumas pragas, mas não de outras. Como consequência, poderá haver redução na aplicação de inseticidas para alguns grupos de pragas, como as lagartas, mas poderá ser intensificado para outros, como os insetos sugadores. O grande desafio dessas tecnologias será manter a sua eficiência ao longo do tempo, pois há necessidade de implementação de táticas de manejo da resistência de insetos, especialmente através do emprego de áreas de refúgios. Todavia, os produtores não têm adotado essas práticas como deveriam, o que poderá comprometer a eficiência do manejo", acrescenta Ávila. Levantamento da Consultoria Céleres indica que a biotecnologia deverá ocupar 81,4% da área total a ser cultivada com milho no País na safra 2013/2014, ou 12,9 milhões de hectares.

Fungo perigoso — Segundo maior produtor mundial de soja, o Brasil poderá superar os Estados Unidos na safra 2013/2014, alcançando uma colheita de 88 milhões de toneladas. Ao longo dos últimos anos, o cultivo da oleaginosa, muitas vezes com falhas no manejo integrado, favoreceu a disseminação de patógenos e o aumento da severidade de muitas doenças. A pesquisadora Margarida Fumiko Ito, do Instituto Agronômico (IAC), órgão da Secretaria de Agricultura de São Paulo com sede em Campinas, lembra que a soja pode ser afetada por mais de 40 doenças relatadas no Brasil e que podem ser causadas por bactérias, fungos, nematoides e vírus, sendo que a maioria é causada por fungos.

Desde o ciclo 2000/2001, os prejuízos são altos com a ferrugem, a doença mais conhecida pelos produtores. No entanto, a partir de 2004, o mofo branco também vem incrementando os custos em todas as regiões. A doença é conhecida também como podridão branca, podridão aquosa, podridão de esclerotinia e murcha de esclerotinia. As condições ideais para o desenvolvimento da doença são baixa temperatura, alta umidade relativa e do solo, compactação do solo e excesso de nitrogênio. O fungo Sclerotinia sclerotiorum, causador do mofo branco, é polífago e pode causar doença em mais de 400 espécies de plantas. Em condições muito severas, a doença progride até a morte da planta.

A pesquisadora Margarida recomenda o manejo integrado para o combate ao mofo branco, já que medidas isoladas não alcançam o controle do problema. "O solo deve ser descompactado, ter calagem e adubação corretas. No plantio, em épocas favoráveis à doença, usar cultivares de porte ereto, aumentar o espaçamento entre linhas e reduzir a população de plantas, visando proporcionar maior ventilação para reduzir a umidade na cultura. É importante o uso de sementes certificadas, como também o tratamento de sementes se o histórico da área demonstrar a presença do fungo", aconselha.

Compactação do solo, baixa temperatura e alta umidade são fatores que favorecem o surgimento do fungo causador do mofo branco

A rotação de culturas com gramíneas como aveia, braquiária, milheto, milho-doce, sorgo e trigo também ajuda na redução do Arquivo IAC patógeno no solo. "O plantio direto na palha tem apresentado bons resultados, pois, além de aumentar a população de microrganismos biocontroladores de S.Sclerotiorum, dificulta a entrada de luz, necessária para a formação dos apotécios. A palha também é barreira física que dificulta a disseminação do fungo", orienta a especialista.

É essencial limpar e lavar máquinas e implementos agrícolas utilizados em áreas contaminadas com o fungo, assim como botas e vestimentas, para evitar a introdução ou disseminação. A época do florescimento, quando normalmente coincide com o fechamento da cultura, é a fase mais propícia ao desenvolvimento do mofo branco. Portanto, nessa fase a atenção deve ser redobrada, para não perder o momento certo de se iniciar a aplicação do fungicida. "O fungicida deve atingir o alvo: escleródios e apotécios no solo e toda parte aérea das plantas, com cobertura adequada. A pesquisa científica tem demonstrado a alta taxa de redução de escleródios, no campo, em culturas de soja com controle químico e controle biológico da doença, acima de 80%. Esse índice é muito importante, pois diminui a quantidade de escleródios no solo e a fonte de inóculo inicial para cultura suscetível ao fungo na próxima safra", afirma.

Bicudo, que ataca o algodoeiro, pode provocar perdas de até 80% em condições de altas infestações e sem as medidas de controle adequadas

O grande problema da pluma — O bicudo (Anthonomus grandis) é considerado por muitos produtores a principal praga do algodoeiro. "O problema provoca perdas significativas, chegando a até 80% em condições de altas infestações e quando as medidas de controle não forem corretamente adotadas na entressafra e durante a safra", observa a pesquisadora Lucia Vivan, da área de Entomologia da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT). Os adultos do besouro geralmente chegam às lavouras pelas suas bordaduras, oriundos de áreas de refúgio, onde permaneceram durante o período de entressafra. Áreas de vegetação do Cerrado, matas nativas, pomares, canaviais, entre outros, servem de abrigo e fonte de alimento – pólen – para os adultos.

Um dos pontos importantes para o monitoramento e o controle do bicudo é a utilização de técnicas com atração. "Entre as estratégias estão a armadilha de feromônio e produtos como o Tubo Mata Bicudo (TMB). A armadilha é para coleta do inseto na época da safra e para conhecer áreas de refúgio na entressafra, e o TMB, para reduzir populações", prossegue Lucia. A instalação do TMB Fundação MT deve ser iniciada no período de colheita e permanecer por mais 60 dias, totalizando 90 dias, a fim de atrair a população que irá migrar para as áreas de refúgio. As armadilhas de feromônio devem ser instaladas pelo menos 60 dias antes do início do plantio.

A pesquisadora enumera diversas formas de combate ao inseto, que iniciam com o controle legislativo: destruição da soqueira do algodão até 30 dias após a colheita, com limite máximo estabelecido até 15 de setembro; destruição de rebrotas; e semeadura concentrada em 30 a 40 dias. No momento do controle químico é preciso considerar que o uso de piretroides ocasiona desequilíbrios nas populações de ácaros-pragas. "A utilização desses produtos pode desencadear a necessidade de realização de controle adicional eficiente para estas pragas. Assim, recomenda-se a utilização de piretroides após 80 dias da emergência das plantas", conclui.

Entre as práticas de controle cultural, o indicado é uniformizar a época do plantio em uma mesma região, já que o grande intervalo entre plantios e colheitas favorece a migração da praga entre cultivos, aumentando o número de gerações do inseto por ano agrícola e as populações migrantes na entressafra. A utilização de plantas-iscas também é recomendada. A pesquisadora da Fundação MT indica que essas plantas são semeadas em pequenas faixas em torno de 20 a 30 dias antes do plantio definitivo e geralmente são realizadas próximas às matas, visando atrair e agregar os bicudos sobreviventes na entressafra. "Essas plantas devem ser controladas com inseticidas, sendo que, aos 50 dias após a emergência, devem ser arrancadas e queimadas", diz.

Entre as alternativas de controle biológico, Lucia cita alguns inimigos naturais do bicudo. "Há predadores, como a formigas lava-pés, pertencentes ao gênero Solenopsis, que atacam as larvas de bicudo no interior dos botões florais. Também há os parasitoides, como o Catolaccus grandis, que ataca a fase larval da praga, e o Bracon vulgaris, que controla a fase larval e pupal do bicudo. Entre os patógenos, estão as bactérias Bacillus thuringiensis, que são tóxicas para as larvas do inseto, e os fungos entomopatogênicos", aponta.


Estratégia para controlar a ferrugem

Ricardo Balardin, Ph.D. em Fitopatologia, professor da Universidade Federal de Santa Maria/RS e consultor do Instituto Phytus

Controlar doenças na lavoura brasileira é, sobretudo, um exercício de estratégia operacional e técnica. No âmbito da estratégia operacional, fatores climáticos são tão impactantes quanto a escolha de uma cultivar, da data de semeadura, da semeadora ou dos programas de controle sanitário. Num cenário cuja diversidade de alvos é crescente e precocemente estabelecida, programas de controle devem considerar diferenciais fitotécnicos e fisiológicos nas cultivares de soja para estabelecer programas de manejo sustentáveis.

A dimensão das áreas de cultivo, principalmente no Cerrado brasileiro, obriga os produtores a priorizarem aspectos gerenciais e operacionais, muitas vezes em detrimento de programas tecnicamente eficientes de controle das doenças. O grande desafio, neste caso, é o desenho de estratégias tecnicamente embasadas, mas não conflitantes com decisões operacionais ou administratiadministrativas. Neste sentido, o controle específico da ferrugem asiática tem se tornado uma tarefa complexa e dispendiosa. O que inicialmente parecia ser resolvido através da adoção de programas de controle químico preventivo, converteu-se em uma difícil integração entre logística, escala de cultivo e ações de manejo.

Devido a dispersão aérea de Phakopsora pachyrhizi, as táticas de manejo integrado devem ser aplicadas à planta hospedeira, tanto para incrementar sua performance produtiva como através de melhoramento genético e obtenção de resistência genética. Os programas de controle químico, fundamentados na escolha e no posicionamento de fungicidas, devem ser norteados de acordo com fatores ligados a momento e quantidade de infecção estabelecida, estádio fenológico e nutrição da planta, arranjo de plantas, local e época de semeadura, entre outros. Importante considerar as fortalezas e limitações dos fungicidas.

Na medida em que os programas de controle químico destinam-se a proteger a planta, o correto é ter claro em que momento da patogênese o mesmo está sendo empregado, independentemente do estádio fenológico da cultura. Aplicar no estádio R1 da soja pode não indicar absolutamente nada em termos de evolução da ferrugem da soja. Por outro lado, se as aplicações necessitam ser protetoras, têm que ser realizadas nos estádios iniciais da patogênese, o que pode ocorrer em quaisquer estádios de desenvolvimento da planta.

O residual de controle de um fungicida depende de suas características intrínsecas associadas aos fatores de manejo que afetam a capacidade da planta em otimizar a ação fungicida de quaisquer produtos. Evidentemente que a qualidade com que os fungicidas são aplicados nas plantas definirá seu nível de eficácia.

A aplicação de fungicidas mostrase dependente de uma combinação de processos fisiológicos e genéticos das plantas e que influenciam na rota de movimentação dos fungicidas, desde sua deposição nas superfícies dos tecidos vegetais até sua concentração nas células da planta, para, então, atuarem nos diversos sítios de ação das células dos fungos. A grande dificuldade está em distribuir o fungicida adequadamente em todos os tecidos da planta. O crescimento da planta, acompanhado de seu próprio envelhecimento, torna esta tarefa muito difícil e capaz de comprometer a eficácia de controle.

As perspectivas de controle da ferrugem da soja apontam para um cenário com dificuldade crescente. Havendo condições ambientes favoráveis, quaisquer erros são decisivos. O manejo integrado, na sua plena concepção, consiste na agregação de todas as práticas de manejo suficientes e necessárias para que as plantas possam expressar seu potencial genético ligado ao rendimento. Se o sistema produtivo não compreender que o controle da ferrugem passa pela proteção da performance produtiva da planta, o sucesso do controle será comprometido e quaisquer ferramentas contribuirão apenas parcialmente com aquilo que se propõem.