Na Hora H

 

NÃO TENHAM DÚVIDAS, O GARGALO MAIOR VAI SER O SEGURO RURAL

ALYSSON PAOLINELLI

O Governo Federal em 2012 prometeu aumentar os recursos para o seguro rural e creio mesmo que chegou a aumentar para próximo de R$ 130 milhões. Esses recursos foram jogados num sistema de administração de risco muito estranho, pois só os bancos e as seguradoras tomaram conta do "pedaço". O resultado disto foi que apenas 2,4% da área plantada no País foi assegurada. Isto significa que, para poder se assegurar toda a safra que plantamos e que tem um precioso valor para nós, agricultores, para os nossos consumidores internos e para os lá de fora, que já dependem de nós e para a própria economia brasileira, necessitamos de no mínimo 40 vezes este volume de dinheiro concedido. Isto é, o Governo Federal terá de dispor de pelo menos R$ 5,2 bilhões. Não seria dinheiro demais se considerássemos o seguinte:

1- O que tem valido a produção agrícola no País nestes últimos anos quanto à regularização do abastecimento, à redução dos custos dos alimentos em relação a outras épocas, inclusive quando importávamos e não tínhamos dólares para pagar, e ao atual saldo da balança comercial brasileira, que o setor agrícola injeta mais de US$ 100 bilhões por ano, e um saldo líquido de US$ 84,5 bilhões para o tesouro nacional. Este saldo é de dólares e não de reais.

2- A montanha da dívida acumulada pelo crédito rural nas famosas "negociações" com autoridades monetárias todas as vezes que há uma intempérie ou um desastre no mercado. Isto vem ocorrendo nos últimos 25 anos e, irresponsavelmente, vão sendo jogados os saldos negativos como esqueleto para o fundo do armário, pensando-se que ninguém é responsável por esta brincadeira. Há indicações que este montante de recursos já passou dos R$ 130 bilhões nos bancos oficiais e de cerca de R$ 30 bilhões no setor privado. Este é o tamanho do cadáver. A parte da negociação que sobra para o produtor pagar, por mais favorável que seja a negociação, o que se tem visto é que ele não consegue acertar com os bancos. E os produtores vão ficando inadimplentes e alijados do crédito rural, passando a serem párias do processo produtivo brasileiro. Será por que continuamos a insistir nesta modalidade de "acerto"? Será que para se ter o "cocho" onde os produtores e seus representantes que têm direito a voto no Congresso, eles serão obrigados a negociar "mansinhos" os favores ou migalhas que um sistema não muito saudável lhes oferece?

3- Devemos analisar que só para amortizar esta dívida nos "juros atuais", poderíamos dizer que não será menor do que R$ 21 bilhões por ano. Pelo que vemos, valor muito menor do que se tivéssemos cuidado disto seriamente há mais tempo.

Se neste ano o Governo cumprir o que prometeu, R$ 700 milhões, na mesma forma com que foram aplicados os recursos de 2012, só darão para atender menos de 15% de toda a área plantada. Isto resolve? Por incrível que pareça, todos os segmentos do nosso agronegócio estão convencidos que o nosso grande inimigo agora é a falta do seguro rural e, pelo que deles ouvimos, estão dispostos a colaborar com o Governo e participar objetivamente de um esforço de uma administração moderna dos riscos, tanto meteorológicos como de mercado, e com este dinheiro do Governo montar, num sistema de pluriparticipação, o mais moderno que se possa conceber e dar ao agronegócio brasileiro o melhor seguro rural que o mundo venha conhecer.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura