Eduardo Almeida Reis

 

INCONFIDENTES

EDUARDO ALMEIDA REIS

Foi-se o dia 21 de abril e, com ele, a entrega das medalhas em Ouro Preto, espantoso espetáculo ânuo, sem trocadilho. Saudoso amigo presidia uma instituição que tinha o direito de indicar vários nomes. Um dia, me disse: "Eduardo, estou vendo que você não tem a medalha da Inconfidência". Expliquei: "Não tenho e lhe peço o favor de não me indicar, porque me obrigará a explicar por escrito, através dos veículos em que trabalho, o motivo de não dividir a praça ouro-pretana com a corja".

Corja, sim: grupo de indivíduos grosseiros, vis, de má índole; canalha, súcia, malta. Não conheço um canalha que não tenha sido agraciado. Claro que há gente boa na lista dos amedalhados; pouca, mais há. O grosso é subnitrato de pó de bosta.

Não vi a lista de 2013, solenidade que teve como orador oficial o brilhante e honrado ministro Joaquim Barbosa, que, alegando problemas de coluna, caiu fora antes do almoço de comida mineira. Comidas típicas são problemáticas.

Venho de aprender no livro Os Argentinos, do jornalista Ariel Palácios, que milhões dos nossos irmãos portenhos se amarram num prato chamado chinchulines, levemente amargo, intestino grelhado do boi sem lavar por dentro. Come-se a tripa grelhada e o conteúdo intacto, isto é, o verde que foi pastado pelo boi. Nesse ponto do processo digestório ainda não é esterco, que só aparece no intestino grosso. Portando, os deliciosos chinchulines na grelha, que horrorizam o resto da humanidade, fazem sucesso em Buenos Aires e adjacências, diz o correspondente na capital Argentina há dezenas de anos.

Presumo que a lista dos agraciados em Ouro Preto tenha reunido os bandidos de sempre, com outros nomes. Morando em cidade pequena, a gente passa a conhecer de vista ou de fama quase todo mundo. Bicheiros, traficantes, gatunos, contrabandistas, estelionatários & Cia. existem por aqui, como existem por aí. De espantar, apenas, que todos eles tenham sido agraciados com as medalhas da Inconfidência em seus diversos níveis.

Sem voltar muitos anos na pesquisa, é fácil constatar que o doutor José Dirceu e outros do mesmo nível foram agraciados pelo governador Itamar Franco, que, se estou lembrado, não se esqueceu de amedalhar uma senhora do MST, sem que a brasileira e o planeta soubessem explicar por que.

Ísis Valverde, belíssima atriz de 26 anos, nasceu em Airuoca, gélido município mineiro de 6 mil habitantes na Serra da Mantiqueira. Acabo de aprender no Google que Aiuruoca, em tupi, é a junção de aîuru (papagaio) com oka (casa), portanto "casa de papagaio". Desde o tempo de O Sheik da Agadir não vejo novelas. As aventuras em Agadir, que devem ter sido emocionantes. Tentei assistir na sede de uma fazendinha leiteira, televisor de 14 polegadas, preto e branco, ligado à bateria do automóvel, porque não havia luz elétrica. Raras vezes fiquei acordado mais que cinco minutos. Dormia na poltrona da sala antes de ir ao leito para acordar às 5 da madrugada seguinte. Frio siberiano, as vacas já estavam no estábulo e o fazendeiro achava muito importante assistir à mungidura, que, nos livros portugueses, "é a operação pela qual se extrai o leite às fêmeas".

Nunca tive a sabedoria do major Juca, grande fazendeiro na região de Poços de Caldas/MG, que vivia repetindo: "Só vou às fazendas na parte da tarde. Tenho por lá um compadre que entende muito mais daquilo do que eu". Levado pelo major, conheci suas imensas fazendas, onde tirava leite e produzia café de altíssima qualidade.

Não tenho a sorte de conhecer Ísis Valverde nem através da televisão, mas devo confessar que a jovem subiu muito no meu conceito pelo último 21 de abril. Informada sobre a inclusão de seu nome na relação dos agraciados com a Medalha da Inconfidência, teria feito uma série de exigências para comparecer a Ouro Preto: hospedagem para ela, acompanhante, cabeleireiro, tratamento cinco estrelas e transporte em helicóptero. Como li nos jornais, acabou não fazendo parte do grupo de agraciados, sem deixar de ser uma graça de moça.

Entre mim e ela, além da beleza e da idade, há outra dissonância: nem de helicóptero, hotel cinco estrelas e barbeiro pessoal compareço a Ouro Preto para receber medalhas, porque a maior que tenho, e não me esqueço de informar quando perguntado sobre medalhas e condecorações, é a seguinte: nihil. No latim do velho dicionário Torrinha: nada, de modo nenhum, por coisa nenhuma.