Plantio Direto

 

CORREÇÃO de acidez em solos de plantio direto

Eduardo Fávero Caires, professor associado do Departamento de Ciência do Solo e Engenharia Agrícola, Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, [email protected]

O sistema plantio direto (SPD) temse destacado como uma das es tratégias mais eficazes para melhorar a sustentabilidade da agricultura em regiões tropicais e subtropicais, contribuindo para minimizar perdas de solo e de nutrientes por erosão. No Brasil, esse sistema tem apresentado rápido crescimento em área cultivada, ocupando atualmente cerca de 30 milhões de hectares. A acidez do solo limita a produção agrícola em consideráveis áreas do mundo. A deficiência de cálcio (Ca) e a toxidez causada por alumínio (Al) e manganês (Mn) são os fatores que mais têm limitado a produtividade de solos ácidos em regiões tropicais e subtropicais. Os problemas da acidez do solo são normalmente corrigidos por meio da aplicação de calcário.

No SPD, a correção da acidez do solo é feita por meio da aplicação de calcário na superfície sem incorporação. A calagem superficial normalmente não tem um efeito rápido na redução da acidez do subsolo. Porém, dependendo dos critérios empregados na recomendação de calagem, a aplicação superficial de calcário também pode, ao longo dos anos, amenizar os efeitos nocivos da acidez em camadas mais profundas do solo. Isso é particularmente importante porque a acidez nas camadas subsuperficiais, em caso de níveis tóxicos de Al e/ou deficiência de Ca, pode comprometer a penetração de raízes e a nutrição das plantas, deixando as culturas susceptíveis ao estresse hídrico. No Brasil, esse assunto adquire importância muito grande pela ocorrência generalizada de Al3+ trocável na maioria dos solos.

Calagem na superfície — A aplicação de calcário na superfície sem incorporação cria uma frente de correção da acidez do solo em profundidade, proporcional à dose e ao tempo (figura 1). A amenização da acidez abaixo da camada de deposição do calcário somente ocorre quando o pH, na zona de dissolução do calcário, atinge valores da ordem de 5,0 a 5,6.

Figura 1 - Efeito do tempo após a aplicação de calcário na superfície em sistema plantio direto, nas doses 0, (=) 2, (²%) 4 e (<) 6 t/ha, sobre o pHCa- Cl2, considerando as profundidades de (a) 0–5 cm, (b) 5– 10 cm e (c) 10–20 cm. Adaptado de Caires et al. (2005)

Em outros estudos nos quais foram avaliadas camadas mais profundas de solo, abaixo dos primeiros 20 centímetros, verificou-se que o calcário aplicado na superfície, em SPD, proporcionou melhoria nas condições de acidez não só em camadas superficiais como também nas do subsolo (Caires et al., 2000; 2008). As alterações no pH e nos teores de Al3+, Ca2+ e Mg2+ trocáveis do solo ocorridas com a aplicação superficial de calcário dolomítico em SPD, na região centro-sul do Paraná, são mostradas na Figura 2. Nota-se que a calagem aumentou o pH e os teores de Ca2+ e Mg2+ trocáveis, e reduziu o teor de Al3+ trocável, em todo o perfil do solo. Os aumentos no pH e nos teores de Ca2+ e Mg2+ trocáveis, e a redução do Al3+ trocável, nas camadas de 20 a 80 centímetros mostram claramente que o calcário aplicado na superfície exerceu efeito positivo na correção da acidez do subsolo.

A deficiência de cálcio e a toxidez causada por alumínio e manganês são os fatores que mais têm limitado a produtividade de solos ácidos em regiões tropicais e subtropicais, e os danos da acidez são facilmente visíveis

Ao longo do tempo, após a aplicação superficial de calcário em plantio direto vai ocorrendo melhoria no gradiente de acidez da superfície em direção ao subsolo. A reaplicação superficial de calcário em solo já corrigido com calagem na superfície pode facilitar a movimentação do calcário em direção ao subsolo e proporcionar melhoria ainda mais acentuada na acidez do perfil do solo. Pouca influência da calagem superficial abaixo de cinco centímetros foi observada até três anos após a aplicação de 3 t/ha de calcário em parcelas anteriormente sem calagem (figura 3). Na camada de 0–5 cm, o efeito da aplicação de 3 t/ha de calcário, após três anos, ou da aplicação de 6 t/ha de calcário, após dez anos, foi semelhante.

Figura 2 - Alterações no pHCaCl2 e nos teores de Al3+, Ca2+ e Mg2+ trocáveis, em diferentes profundidades de um Latossolo Vermelho textura média, considerando a calagem na superfície em sistema plantio direto. Calcário dolomítico aplicado em 1993. Pontos são médias de cinco amostragens de solo realizadas no período de 1993 a 1998. Adaptado de Caires et al. (2000).

No entanto, após dez anos da aplicação de 6 t/ha de calcário, o pH foi maior e os níveis de Al3+ trocável e de saturação por Al3+ foram mais baixos que o tratamento sem calagem, até a profundidade de 40 ou 60 centímetros, o que não aconteceu após três anos da aplicação de 3 t/ ha de calcário. Quando se realizou a calagem (3 t/ha) sobre as parcelas que já haviam recebido calcário (6 t/ha), a reaplicação do corretivo ocasionou aumento mais acentuado no pH, até a profundidade de 60 cm, do que o tratamento que havia recebido apenas 6 t/ha de calcário, indicando que houve movimentação do calcário reaplicado na superfície para maiores profundidades do solo quando a acidez na camada mais superficial era mais baixa. A reaplicação do calcário (3 t/ha) sobre as parcelas anteriormente com calagem (6 t/ha) resultou nos mais baixos níveis de Al3+ trocável (d" 2 mmolc dm-3) e de saturação por Al3+ (d" 5%) em todo o perfil do solo (0-60 cm).

A toxicidade de Al para as plantas cultivadas no SPD tem sido considerada mais baixa do que no sistema convencional de preparo do solo. Tais efeitos têm sido relacionados com a presença de menor concentração de espécies tóxicas de Al (Al3+ e AlOH2+) e maior concentração de Al complexado com ligantes orgânicos. A menor atividade do Al na solução do solo em plantio direto tem resultado em implicações importantes na definição de critérios ou índices para tomada de decisão de recomendação de calagem nesse sistema. Porém, é preciso certo cuidado com essas informações porque, em situações desfavoráveis de chuvas, a fitotoxicidade de Al3+ ocasionada pela acidez do solo no SPD é intensificada e compromete seriamente o crescimento radicular de plantas com pouca tolerância ao Al (Caires et al., 2008).

Necessidade de calagem— O cálculo da necessidade de calagem, com base na análise química do solo, e a frequência de aplicação de calcário na superfície, em SPD, são assuntos polêmicos. A decomposição de resíduos de plantas de cobertura e a reação de adubos nitrogenados na superfície em SPD favorecem a acidificação do solo. Por outro lado, os resíduos vegetais mantidos na superfície também podem exercer efeitos positivos sobre a acidez do solo.

Devido à complexidade do assunto, existem informações discordantes a respeito de critérios de recomendação de calagem na superfície para o SPD. Estudos recentes e de longo prazo realizados no Paraná (Caires et al., 2000, 2005, 2006) têm mostrado que o método da elevação da saturação por bases para 70%, em amostra de solo coletada na profundidade de 0–20 cm, apresenta estimativa adequada para a recomendação de calcário na superfície em SPD. A dose de calcário, calculada por esse método, pode ser distribuída sobre a superfície do solo em uma única aplicação ou de forma parcelada durante até três anos. Entretanto, a calagem na superfície em plantio direto é recomendada somente para solo com pH (CaCl2) < 5,6 ou saturação por bases < 65%, na camada de 0–5 cm. O monitoramento da acidez na camada superficial do solo (0–5 cm) auxilia a avaliação da frequência da aplicação de calcário, uma vez que o tempo de duração da calagem é muito variável em diferentes solos e sistemas de produção.

Figura 3 - Valores de pHCaCl2, Ca2+ trocável, Al3+ trocável e saturação por Al3+ no perfil do solo para os tratamentos sem calcário, com 3 t/ha de calcário na superfície em 2000 (™), com 6 t/ha de calcário na superfície em 1993 (¢) e com 6 t/ha em 1993 + 3 t/ha em 2000 (£), em sistema plantio direto. As amostras de solo foram coletadas em 2003. Adaptado de Caires et al. (2008)