Florestas

 

BAHIA: horizonte para florestas

Wilson Andrade, diretor da Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf)

O Oeste da Bahia, um dos mais importantes polos agrícolas do País, tem na base de sua sustentabilidade a matriz produtiva diversificada, na qual figuram como culturas principais soja, algodão e milho. Nos últimos anos, contudo, uma nova opção vem literalmente ganhando terreno no cerrado baiano: as florestas. Já são 60 mil hectares, segundo o Bahia Florestal – Anuário Abaf 2013, publicação lançada em julho em Salvador, pela Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf), com dados levantados pela empresa Poyry Silviconsult. Em termos absolutos, a área ocupada na região pelo eucalipto está ainda longe de ser significativa quando comparada a 1,25 milhão de hectares correspondentes às plantações de soja e a 256,5 mil hectares de algodão, ou, ainda, a 2,2 milhões da área plantada total do cerrado baiano. Mas, empreendedor de verdade jamais julga uma grande oportunidade por números absolutos.

Prova da evolução recente do eucalipto na região é que, entre 2009 e 2012, o mais importante anuário da safra do Oeste da Bahia, publicado pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), sequer citava as lavouras de eucalipto, colocando- as no tópico "Outras culturas", o que já não aconteceu no levantamento da safra 2012/13 daquela associação. A expansão do eucalipto no Oeste nos permite diversas leituras. A primeira é que ficaram para trás os tempos em que as florestas plantadas eram sinônimo apenas de papel e celulose. As florestas do Oeste são, sobretudo, energia: geram calor para o beneficiamento de grãos, para mover turbinas e ajudar a alimentar a verdadeira locomotiva do desenvolvimento que é o agronegócio do cerrado baiano. Contudo, esse não é o horizonte único para a atividade nestas plagas. Importantes empreendimentos agroflorestais têm se implantado no lugar, conduzindo novos experimentos e constatando a grande aptidão do cerrado para a silvicultura.

Integração — A introdução significativa do eucalipto na matriz produtiva do Oeste representa uma alternativa a mais de renda para o produtor nas propriedades, balanceando o mix de culturas e, consequentemente, ajudando a reduzir as perdas nas eventuais oscilações de preço de Divulgação uma ou outra commodity ou frustrações de safra. Além disso, e talvez mais estrategicamente falando, as florestas plantadas são elementos essenciais em um contexto de implantação do novo Código Florestal brasileiro, principalmente nas fases iniciais de recuperação de áreas degradadas e recomposição de Reserva Legal. E os benefícios ambientais foram sobremaneira potencializados desde o lançamento, em março, pela presidente Dilma Rousseff, da Lei de Integração Lavoura-Pecuária- Floresta, que concede crédito a preços muito mais competitivos para quem integra estas culturas, dentro do Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC).

A integração lavoura-pecuária-floresta ainda tem muito a se expandir no Oeste da Bahia, trazendo como resultado benefícios creditícios, produtivos, ambientais e sociais. Trata-se de um sistema que se baseia uma relação inteligente e simbiótica entre as culturas. O sistema integrado permite que os insumos aplicados na lavoura em uma safra sejam a base de um bom pasto na outra. Otimiza a gestão da mão de obra, deixando-a ocupada durante todo o ano, evitando as demissões e contratações sazonais, reduz custos operacionais em geral e, ainda, promove uma valiosa compensação entre emissões e sequestro de carbono. É a emissão da pecuária sendo compensada pelo sequestro acelerado de carbono promovido pelas florestas plantadas. Sem falar nos benefícios para o solo.

Todas essas técnicas fazem parte de um conceito maior, chamado agricultura de baixo carbono, que hoje vem sendo fomentado inclusive pelas instituições de crédito, como o Banco do Brasil. É um salto quântico se comparado ao que estas mesmas instituições faziam no passado: só liberavam crédito para atividades específicas em áreas específicas, gerando com isso a mais nociva das práticas da agricultura, que é a monocultura. O sistema ABC traz consigo o que o Brasil tem de melhor e no que o Oeste da Bahia dá show: a diversidade. É baseado em uma relação "ganha-ganha-ganha" para a agricultura, as florestas e a pecuária, mas, principalmente, para a natureza e o homem.

O Oeste da Bahia, dinâmico e pujante, tem tudo a ver com o setor florestal, a começar pelas suas condições edafo-climáticas que favorecem os recordes de produtividade em soja, milho e algodão e que, certamente, repetirão o sucesso com as árvores. Na Bahia, o setor agrícola cresceu 2,6% e participou com, aproximadamente, 16% do total de US$ 11,5 bilhões das exportações estaduais, ocupando o segundo lugar em importância na pauta de exportações e contribuindo com 49% (US$ 1,7 bilhão) para a formação do saldo da balança comercial do estado. Ele é responsável por uma forte apuração de tributos federais, estaduais e municipais, da ordem de R$ 1,1 bilhão. Gera aproximadamente 320 mil empregos, entre diretos e indiretos e de efeito-renda, sobretudo fora dos centros urbanos.

Os 60 mil hectares do Oeste fazem parte de um total de 617 mil hectares de florestas plantadas, equivalentes a cerca de 10% do total brasileiro, e a 1% do território baiano. Isso nos faz adiantar que, na "pizza" que representa a matriz produtiva do cerrado baiano, o eucalipto talvez nunca seja expressivo como a soja, o algodão e o milho, mas isso é o que menos importa, uma vez que nos orgulhamos de produzir muito e gerar valor em menos espaços. As florestas plantadas fazem parte da nossa vida, desde a nossa certidão de nascimento, até o nosso atestado de óbito, sendo ambos os documentos produzidos a partir de árvores plantadas pelo homem. Entretanto, elas ocupam um percentual mínimo e conservam em quase idênticos patamares as matas nativas, uma vez que a relação de proporção por hectare de floresta plantada por floresta nativa é de aproximadamente 0,7. Na Bahia, as empresas de base florestal são responsáveis pela manutenção e/ou recuperação de 430 mil hectares de florestas nativas.

As oportunidades não se restringem ao uso como insumo para o beneficiamento de grãos. Com o incremento na logística que representará a Ferrovia Oeste Leste há possibilidades a médio e longo prazo para papel, celulose e mineração – esta última se desenvolvendo a passos largos ultimamente. E, hoje mesmo, há muito o que avançar no setor de serrarias e movelarias, em uma perspectiva moderna e altamente eficiente. Dizem que o rio só corre para o mar e, na "terra das oportunidades" do Oeste da Bahia, o eucalipto é um grande afluente.