Algodão

 

NEMATOIDES sob implacável manejo

O enfrentamento dos parasitas que atacam o algodoeiro é composto de diversas técnicas e ações, desde a prática sempre recomendada da rotação de culturas ao tratamento químico da semente

A produção de algodão no Cerrado brasileiro tem enfrentado crescente disseminação e intensificação de problemas relacionados a nematoides. No estado de Mato Grosso, por exemplo, nos últimos anos, diversas propriedades que antes estavam isentas desses parasitas passaram a conviver com o problema que, em várias situações, é considerado entre os principais dentro da escala de produção.

De fato o algodão é hospedeiro de diferentes espécies de fitonematoides e há diferentes níveis de prejuízos por eles causados no Brasil e no mundo. As principais espécies de importância no País são as seguintes: Meloidogyne incognita (nematoide das "galhas"), Rotylenchulus reniformis (nematoide "reniformes") e Pratylenchus brachyurus (nematoide das "lesões radiculares"). Dentre estas, a primeira é a mais destrutiva com alta agressividade para a cultura, merecendo grande atenção quando presente na área; a segunda é a mais persistente, com eficientes mecanismos de sobrevivência no campo; e a terceira, a mais frequente no MT, distribuída por todas as regiões de cultivo, com difíceis opções de manejo.

Na foto, o contraste bem visível entre o genótipo tolerante (direita) e o intolerante (esquerda) em área infestada por M. incognita

Atualmente, não se sabe ao certo o quanto está sendo perdido em produtividade em função dos nematoides. Há localidades onde ocorrem expressivas perdas e outras onde o problema ainda não existe. Há relatos de perdas de 50% a 60% em casos extremos, com média de até 5% a 10% em determinadas regiões. Existem vários exemplos de áreas de produção de algodão que se tornaram inviáveis devido à infestação de nematoides, como ocorrido no passado nos estados de São Paulo e Paraná. No Cerrado, criaram-se condições ideais para seu aumento populacional, como as seguintes: reduzida diversificação de culturas, sequência de culturas hospedeiras no mesmo ano agrícola (safrinha), intensa mecanização e utilização de genótipos suscetíveis.

Os sintomas provocados pelo nematoide das galhas ocorrem em reboleiras e se caracterizam pela formação de galhas no sistema radicular, diminuição da área foliar, deficiências minerais e murchamento temporário da planta durante o período mais quente do dia. Sintoma bastante típico é o mosqueamento amarelo, distribuído pelo limbo foliar, em contraste com o verde normal levemente claro. Esse sintoma é conhecido pelos cotonicultores como "carijó" do algodoeiro. O ideal é diagnosticar a doença no início do aparecimento dos sintomas, quando o nematoide ainda não está causando danos expressivos, o que normalmente não é tarefa tão fácil, pois os sintomas são menos intensificados. Por exemplo, as galhas são menores, formadas em radicelas muito jovens.

Já os sintomas provocados pelo R. renifomis são menos intensos, porém, em altas populações, podem ser observados sintomas nas folhas de "carijó" também no campo e reboleias de maior tamanho com variações no porte das plantas. Para P. brachyurus é difícil a visualização de sintomas no campo, que são visíveis apenas em condições de alta população do nematoide em solo arenosos em condições extremas, sendo possível verificar variação do porte das plantas e escurecimento das raízes.

Para um eficiente programa de manejo de nematoides é fundamental ter o conhecimento atual da frequência de ocorrência de espécies na cultura bem como sua quantificação, pois para cada espécie há medidas direcionadas de controle. Também saber as condições físicas e químicas de solo e suas relações com os parasitas são importantes características para o sucesso do manejo da cultura em áreas infestadas.

Amplo projeto de enfrentamento — Nesse sentido vem sendo desenvolvido um projeto demandado pela Associação Mato-grossense do Algodão (Ampa), elaborado e executado, em caráter multinstitucional, entre diferentes centros da Embrapa (Agrossilvipastoril, Agropecuária Oeste e Instrumentação Agropecuária), Instituto Mato-grossense do Algodão (IMA) e Aprosmat, e financiado pelo Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), com o objetivo de avaliar a ocorrência de espécies de fitonamentoides associados à cultura do algodoeiro no estado e correlacionar essa ocorrência com produtividade da cultura. Assim como determinadas características físicas e químicas do solo, possibilitando analisar essas relações para indicar medidas de manejo desses parasitas.

Os resultados preliminares indicam aumento dos problemas relacionados com nematoides, sobretudo com M. incognita, mostrando grande influência na produtividade do algodoeiro. Esses problemas estão mais intensificados no sul do estado, porém no norte matogrossense também se verifica áreas com alta infestação do parasita. No projeto também chama a atenção a crescente disseminação da murcha de fusarium que vem se alastrando pelo estado associada a áreas infestadas com M. incognita. Ainda vem sendo verificado que características físicas do solo, em especial a compactação, aumentam os danos na produtividade, principalmente, quando associado a áreas infestadas por M. incognita ou R. reniformis.

Enfim, o problema mostra-se crescente, e as diferentes medidas de manejo de nematoides têm que ser observadas para conviver com eles e reduzir os danos. Dentre as opções de controle, a utilização de cultivares tolerantes/ resistentes deve ser associada ao manejo do solo e à rotação de culturas em áreas infestadas. Há disponível no mercado, cultivares com tolerância a M. incognita que podem e devem ser utilizadas em áreas infestadas com objetivo de ganho de produtividade. Nenhuma técnica de manejo será bem empregada caso não use cultivares tolerantes a nematoides.

Ultimamente os programas nacionais de melhoramento do algodoeiro vêm trabalhando para incorporações de genes de resistência a M. incognita em seus genótipos, buscando a obtenção de cultivares com essa característica para disponibilizá- los no mercado brasileiro. Outra técnica de manejo é a utilização de rotação/sucessão de culturas com plantas não hospedeiras a espécie fitoparasita presente em uma determinada área infestada. Isso proporcionará a redução das populações dos nematoides para a safra de algodoeiro plantada em seguida.

Também há a possibilidade da utilização do tratamento químico via sementes com nematicida, promovendo a proteção das raízes do algodoeiro na fase inicial da cultura, até 30-40 dias, e que, em algumas situações, podem proporcionar ganhos em produção. Lembrar que essa técnica não reduz a populações do nematoide no final do ciclo da cultura, mas pode ser economicamente viável, dependendo do valor do produto e das condições edafoclimáticas e da população do nematoide presente na área. Também a utilização de agentes de controle biológico vem sendo uma opção utilizada por parte dos produtores, mostrando ser uma outra ferramenta para o manejo de nematoides. Porém, neste caso, com utilizações frequentes com melhores ganhos a médio e longo prazo.

Por fim, não há uma única medida de controle, são diferentes técnicas que têm que ser utilizadas de forma conjunta sempre com acompanhamento das populações das principias espécies com problemas para a cultura do algodoeiro. Há vários laboratórios de nematologia distribuídos pelo País que prestam esses serviços e que podem ser contatados para eventuais dúvidas por parte dos produtores na diagnose desses parasitas em áreas de algodoeiro