Clube da Fibra

 

ALGODÃO, seus (muitos) desafios e perspectivas

A 19ª edição do Clube da Fibra reuniu alguns dos principais produtores e lideranças da pluma para discutir o que esperar e, sobretudo, o que fazer pela temporada 2013/14 do segmento

Leandro Mariani Mittmann
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O algodão reuniu os maiores protagonistas brasileiros da pluma na 19ª edição do Clube da Fibra, evento realizado no mês passado no município do Guarujá, litoral de São Paulo, e promovido pela FMC Agricultural Products. Produtores e lideranças do segmento debateram temas como a infraestrutura logística e o enfrentamento da lagarta Helicoverpa armigera, assim como traçaram as perspectivas econômicas para a cultura na safra 2013/14. Principalmente os preços em nível global, visto as demandas internacionais – em especial a da China. O evento reuniu 150 produtores e empresários rurais que respondem por uma área de 756 mil hectares de algodão e 90% do PIB do segmento, além de executivos da FMC. "O cenário de incertezas, como baixo crescimento econômico mundial, câmbio volátil, manifestações populares e as eleições presidenciais, requer cautela do produtor", destacou na abertura do evento Antônio Carlos Zem, presidente da FMC Corporation América Latina.

O presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão, o produtor Sérgio de Marco, expôs as muitas demandas do grupo que é ligado ao Ministério da Agricultura e composto por 32 cadeiras de diferentes elos do setor. Uma das principais reivindicações é a agilização do registro de defensivos agrícolas, inclusive genéricos, revelou o dirigente. "Promover o acesso a novos produtos", justificou. Outra pauta pendente é o reajuste do preço mínimo da pluma, que se mantém o mesmo há dez anos. Segundo ele, a correção estava encaminhada, mas acabou suspensa. De Marco ainda acrescentou que a cadeia do algodão é a segunda que mais emprega no País, com 1,7 milhão de vagas "entre a lavoura e a loja", e que, portanto, merece mais atenção das autoridades.

A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), apoiadora do evento, foi representada pelo presidente, Gilson Pinesso, moderador de um dos debates, e pelo diretor executivo Márcio Portocarrero, que enfocou os projetos de sustentabilidade que a entidade está imbuída, o ABR – Algodão Brasileiro Responsável (da instituição) e o BCI - Better Cotton Initiative (internacional). Portocarrero lembrou a preocupação da Abrapa em "garantir ao mundo que o algodão brasileiro é produzido sob rígidas normas de respeito ambiental, social e trabalhista". Chegou a mencionar que o setor já foi acusado injustamente de invadir a Amazônia. O executivo ainda lembrou que o Brasil produziu na recente safra 684 mil toneladas de pluma dentro das normas do BCI, o maior volume do mundo. "Somando os outros países não dá 30% (do volume brasileiro)", esclareceu. Também revelou que o fardo de algodão ABR passará a receber automaticamente a certificação BCI.

O diretor-presidente da Vanguarda Agro, Arlindo Moura, delineou perspectivas da pluma. E deixou claro: a China, mais objetivamente o que o país fará com seus estoques, vai ditar os rumos das cotações na temporada 2013/14. Os chineses detêm hoje 11 milhões de toneladas em estoque, o que a torna "praticamente autossustentável", segundo definição dele. E traçou dois panoramas. 1º - o altista: "Se a China não vender parte dos seus estoques, o preço vai ficar acima de 85 centavos de dólar à libra peso"; 2º - o baixista: "Se entrar (com os estoques), vai cair para 70, 60 centavos". Conforme Moura, a relação estoque/consumo na atual safra está em 86%, ante 80% da safra anterior, 68% em 2011/12 e 43% de 2010/11. Também lembrou a importância do Brasil produzir algodão uniforme e de qualidade, um anseio que não estaria sendo atendido pelos clientes asiáticos, segundo o que ouviu deles numa recente viagem àquele continente.

Burocracia trava a infraestrutura — O tema logística teve um painel com especialistas como o consultor econômico Raul Velloso, que responsabilizou exclusivamente as esferas governamentais pelos problemas estruturais do País, a começar por aqueles enfrentados pelo setor rural para escoar a safra. "No meio do processo tem um bichinho chamado Governo, que atrapalha", abriu sua explanação. Conforme Velloso, o cerne do problema é o baixo nível de investimento do setor público. No ano passado a União destinou apenas 1,3% de seus gastos em transporte. "Por isso está complicado", resumiu. Da mesma forma, criticou, as barreiras burocráticas impedem de uma série de formas o investimento privado. "O público não faz, mas não facilita a entrada do setor privado", reclamou. Entre as causas das dificultações para as concessões, estaria até o componente ideológico do governo petista.

Na mesma linha, outro dos painelistas, Fabio Schettino, da empresa Hidrovias do Brasil, descreveu a dificuldade de sua empresa para investir em hidrovia na Região Norte do País em comparação a um projeto semelhante em rios do Uruguai e do Paraguai. Os dois projetos foram deflagrados ao mesmo tempo, só que o Corredor Sul (países vizinhos) está em funcionamento há três anos, enquanto o Corredor Norte tem previsão de início em 2016. A construção desta hidrovia só deverá iniciar neste ano e ser finalizada em 2015. Uma série de garantias institucionais brecou o projeto brasileiro. "Capital não é o problema, não é o gargalo. Os governos uruguaio e paraguaio garantiram a segurança das regras. No Brasil quase mendigamos para botar quase R$ 1,2 bilhão para 'desengargalar' um sistema", resumiu.

O jornalista Leandro Mariani Mittmann esteve no evento a convite da FMC