Capacitação

 

O esforço pela QUALIFICAÇÃO

Carência de profissionais para as demandas do campo torna investimento em capacitação cada vez mais necessário. E a demanda por mão de obra qualificada está em alta. Um operador de uma máquina moderna pode ter salário de R$ 6 mil

Denise Saueressig
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A disponibilidade de mão de obra qualificada não acompanhou o crescimento acelerado do agronegócio nos últimos anos. Assim como ocorre nos demais setores da economia e também em muitos outros países, a demanda por profissionais devidamente capacitados é maior do que a oferta. No campo e nos segmentos que cercam as atividades ligadas à agropecuária, o desafio é conquistar e manter trabalhadores capazes de conviver com a inovação gerada pela pesquisa e pela indústria. São novas técnicas e equipamentos que precisam de gente qualificada para um bom funcionamento.

Projeção do Senar para 2013 é alcançar mais de 700 mil alunos nos cursos realizados nas diferentes regiões do País

Em algumas regiões do País, o gargalo é ainda mais perceptível. No Oeste da Bahia, que é uma fronteira agrícola consolidada, a área cultivada cresce 10% ao ano e há carência de profissionais disponíveis para diversas funções. "Temos dificuldade de encontrar técnicos agrícolas, assim como é complicado contratar um torneiro mecânico, por exemplo. E ambas as profissões têm remuneração inicial de R$ 1,5 mil na região", conta o diretor executivo da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Thiago Pimenta de Albuquerque.

O problema tem origens diversas e passa, inclusive, por mudanças sociais importantes ocorridas nas últimas décadas. "É um cenário mundial. Saímos de um momento de maior estabilidade no crescimento econômico e social, durante o século 20, quando havia grande demanda por trabalhos mais rotineiros e simplificados, para um ambiente social mais instável, agora, e onde encontramos muita oferta de recursos e grande competitividade por empregos", analisa.

Do lado dos empresários empregadores, a exigência é por flexibilidade, velocidade e eficiência. Entre os trabalhadores, aumenta a procura por cursos de nível superior em áreas como Administração, Direito, Gestão e Finanças, enquanto ainda há carência no nível técnico. "As pessoas buscam doutorado, mas falta 'chão de fábrica'. Outra dificuldade diz respeito à qualificação muito abrangente, quando os trabalhadores investem em muitos cursos, em diferentes áreas, e acabam não se aprofundando em nenhum conhecimento específico", observa Albuquerque.

O alcance de iniciativas públicas no setor está aquém do que é preciso, na opinião do diretor executivo da Aiba. Alguns assuntos, como legislação e normas regulamentadoras, em que a fiscalização é intensa, deveriam ser abordados com mais ênfase em cursos gratuitos. "São leis específicas de trabalho no campo e que muitas vezes não são devidamente esclarecidas. Conheço um produtor que foi multado por causa da largura da porta do dormitório dos trabalhadores, que estava errada em 5 centímetros. Ou seja, falta bom senso na aplicação e na adequação das normas", considera.

Oeste da Bahia continua em expansão, e os produtores encontram dificuldades para contratar técnicos agrícolas

Parceria para treinar — Na Bahia, é comum os próprios produtores investirem na capacitação de seus colaboradores. A Aiba mantém convênios e parcerias com diversas instituições e indústrias para executar os treinamentos necessários. É o caso dos operadores de máquinas agrícolas, que precisam de qualificação para o uso de tecnologias modernas, como a agricultura de precisão. "Um funcionário dessa área pode receber salário de até R$ 6 mil, que condiz com a responsabilidade que ele tem e a valorização que é necessária para retê-lo no campo", destaca o dirigente.

Além do esforço no treinamento dos trabalhadores, tem sido frequente a contratação de pessoas de fora da região nos últimos anos. Medida justificada pelo nível de tecnificação dos agricultores locais e pelos números da produção. Cerca de 1,3 mil produtores integram a Aiba e, na última safra, foram cultivados 2,25 milhões de hectares. A área irrigada foi de 112 mil hectares e a colheita alcançou 6,167 milhões de toneladas, com faturamento de R$ 5,3 bilhões. Nos próximos anos, a região ainda pode incorporar 5 milhões de hectares ao cultivo, mantendo legalizadas as Áreas de Proteção Permanente (APPs) e as de Reserva Legal.

Thiago Pimenta de Albuquerque, da Aiba: parcerias com instituições e empresas ajudam a qualificar trabalhadores

Na SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do Brasil, a qualificação dos colaboradores faz parte da rotina. Como é uma empresa em expansão e tem 2,2 mil funcionários fixos, o investimento em mão de obra é essencial. O esforço está baseado em três frentes, detalha o diretor de Recursos Humanos e Sustentabilidade da SLC, Álvaro Dilli. "Precisamos atrair, capacitar e reter nossos trabalhadores num mercado em que as grandes empresas disputam mão de obra. Hoje podemos dizer que há concorrência por mão de obra, terra e mercado", enumera.

A estrutura da SLC é formada por 16 fazendas em seis estados e a matriz, que fica em Porto Alegre/RS. Na safra passada foram cultivados 280 mil hectares, e a expectativa, até 2015, é ampliar a área para 400 mil hectares. A maior parte das fazendas está na Bahia e em Mato Grosso, justamente dois estados onde a competição por funcionários é grande. Nessas regiões, a companhia firmou parcerias com sindicatos rurais para a instalação de centros de treinamento.

Incentivos — A SLC investe por ano aproximadamente R$ 1,5 milhão em capacitação de pessoas. São entre 55 e 60 horas de treinamento/ pessoa/ano. Para ajudar no processo, a empresa mantém convênios com quase 30 escolas técnicas agrícolas. Os programas de qualificação incluem aulas teóricas e práticas e são desenvolvidos interna e externamente, com parceiros como o Senar e a John Deere. Nas fazendas da companhia, três coordenadores atuam na preparação do pessoal em épocas como o plantio e a colheita.

Mas, além das etapas operacional e funcional, a SLC tem uma preocupação com a parte comportamental, que envolve atividades entre 10 e 12 horas sobre temas como trabalho em equipe e disciplina. "Também realizamos um treinamento de integração para todos os novos colaboradores, onde enfocamos assuntos como a política da empresa e as questões de segurança do trabalho", informa o diretor de RH.

Álvaro Dilli, da SLC: empresa investe cerca de R$ 1,5 milhão por ano em treinamento e capacitação dos colaboradores

jovens talentos, a empresa mantém projetos de estágios com universidades e escolas técnicas. Também existe um programa de trainee para recém-formados nos cursos de Engenharia Agrícola e Engenharia Agronômica. "Contabilizamos entre 80 e 90 estagiários das escolas técnicas por ano, e nosso objetivo é fazer com que eles queiram permanecer na empresa. Para isso, oferecemos a possibilidade de uma carreira. Há meninos que entraram como nossos estagiários, com 18 anos, e hoje estão na coordenação da lavoura, assim como há agrônomos que entraram na empresa aos 22 anos, quando se formaram, e hoje ocupam o cargo de gerente de fazenda", salienta Dilli, lembrando que ele mesmo iniciou na empresa como estagiário de Engenharia Agrícola, em 1986.

Um pacote de benefícios como participação nos resultados para todos os funcionários, plano médico e odontológico e auxílio educação são outros atrativos para manter os funcionários. "Se um colaborador é auxiliar administrativo e decide fazer um curso superior, ajudamos com até 80% dos custos", exemplifica.

Como um dos desafios do setor é conseguir manter as pessoas no meio rural, a empresa cria um ambiente de comunidade para quem reside nas fazendas. Assim, toda a família é inserida e tem estrutura para aproveitar os momentos de lazer. "Temos academia ao ar livre, campo de futebol, internet e, para as crianças, disponibilizamos transporte, caso não exista linha de ônibus municipal que faça o trajeto até a escola", acrescenta Dilli. A empresa ainda estimula o trabalho das esposas dos funcionários. Atualmente, cerca de 10% da mão de obra operacional é feminina na SLC.

A nova realidade do agronegócio também valorizou o salário dos profissionais do setor. Segundo o executivo, a remuneração na empresa aumentou mais do que a inflação, com um incremento de cerca de 10% nos últimos anos para as diferentes funções. "De dois em dois anos realizamos uma pesquisa no mercado para nos mantermos atualizados", menciona.

Desafios para os técnicos — Para os profissionais que trabalham no campo, a percepção é clara de que é necessária atualização para lidar com a dinâmica e a diversidade do setor. Entre a categoria mais demandada, os técnicos agrícolas, a opinião é de que o profissional precisa atuar de forma diferenciada, com respostas convincentes à produção.

Nos cursos, as escolas vêm sofrendo um "atropelo" da inovação e da tecnologia, define o técnico agrícola Carlos Dinarte Coelho, presidente do Sindicato dos Técnicos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Sintargs) e da Associação dos Técnicos Agrícolas do Brasil (ATABrasil). "Cito o exemplo da agricultura de precisão, que criou um novo patamar de informações técnicas e de interpretação. Hoje, quem dá a direção são as empresas que atuam no mercado e balizam a orientação técnica. As escolas procuram fazer o melhor para uma formação de qualidade, mas, como são escolas públicas, sofrem com o atraso na atualização", afirma.

A estimativa é de que o Brasil tenha mais de 400 mil técnicos agrícolas em atuação. Em torno de 10 mil profissionais são formados anualmente, e cerca de 70% trabalham na área privada. "Diante das perspectivas do agronegócio brasileiro e da importância de ampliar a oferta de alimentos, existe uma necessidade de dobrar o contingente de profissionais atuando no campo", calcula Coelho.

A demanda de trabalho é forte em praticamente todos os estados, segundo o presidente da associação. No Centro-Oeste e em outros locais de expansão da fronteira agrícola, como o Norte e o Nordeste, a absorção desses profissionais é mais alta. Entre os desafios da categoria está o reconhecimento como profissional, acrescenta o dirigente. "Mesmo que tenhamos um respeito grande por parte dos produtores, precisamos trabalhar essa questão nos poderes públicos, destacando a importância da atuação dos técnicos para o desenvolvimento local e regional. Lamentavelmente, temos ainda precárias condições de trabalho no setor público, com orçamentos insuficientes. No setor privado, essa condição é considerada boa", descreve. "Outro desafio é ser reconhecido como profissional técnico e não mão de obra para substituir trabalhadores no meio rural. Nesse momento, cabe ao profissional estar preparado para dizer não ao desvio de função", completa Coelho.

A criação da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), anunciada pelo Governo Federal, pode fortalecer o serviço de assistência no País, na opinião do dirigente. No entanto, é necessário que seja realizado um bom planejamento do foco de atuação dos profissionais. "A agricultura familiar precisa de orientação técnica e não que os profissionais sejam absorvidos pela burocracia e elaboração de projetos de financiamentos. É importante que a agência tenha uma boa gestão a exemplo do serviço de assistência que as cooperativas prestam a seus associados, com atuação de mais de 2 mil profissionais que trabalham por maior produtividade e melhoria da renda do setor", assinala.

Entre os objetivos do Governo com a criação da Anater está a difusão, de maneira mais ampla e especialmente entre os pequenos e médios produtores, das tecnologias geradas pela Embrapa. Entre as áreas prioritárias da agência devem estar a produção de leite, os cultivos do semiárido e a agricultura orgânica e de baixo carbono.


SENAR: FOCO TAMBÉM EM GESTÃO E EMPREENDEDORISMO

nos últimos anos motivaram inovações na forma de atuação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que é uma referência em qualificação no setor. Uma das novidades é o trabalho junto ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), do Ministério da Educação. "São jovens que estão entrando no ensino médio, com uma melhor formação em relação à média dos trabalhadores no campo e, portanto, mais facilidade para aprender a lidar com novos instrumentos tecnológicos", cita o secretárioexecutivo do Senar, Daniel Carrara (foto).

Outra iniciativa é a participação na Rede e-Tec Brasil, de cursos técnicos e de formação inicial e continuada ou de qualificação profissional, na modalidade à distância. A partir de 2014, serão 11 centros de excelência em 11 estados com aulas em diferentes áreas. Uma das propostas é que os jovens formados no Pronatec ingressem no e-TEC. "A nossa perspectiva é ter, em dois anos e meio, um exército de 20 mil novos jovens no mercado de trabalho", declara Carrara.

Um dos diferenciais enfatizados pelo Senar é o de formar técnicos preparados para lidar com as questões que envolvem a gestão dos negócios. Por isso, os cursos têm módulos de empreendedorismo, com noções de administração. "Estamos fazendo a nossa parte para dar uma resposta ao apagão de mão de obra no campo. Sabemos que muito já é feito pelos institutos federais de educação tecnológica, mas a demanda é crescente. O problema que percebemos hoje é consequência de fatos que ocorrem há muito tempo, como a falta de tempo dos trabalhadores para o aperfeiçoamento e a falta de uma formação básica consistente. Além disso, sabemos que a competição com a cidade é muito difícil de ser vencida e, por isso, precisamos captar a mão de obra antes da migração para os centros urbanos", sustenta o executivo do Senar.

Por meio de cursos gratuitos em todo o País, o Senar atua de acordo com as demandas que recebe dos 2,2 mil sindicatos rurais parceiros. Dessa forma, é possível identificar e atender as necessidades que surgem no campo. O curso campeão de procura é o de trabalhador na bovinocultura de leite, que capacitou 55.759 pessoas no ano passado. A projeção para 2013 é atingir 75.738 pessoas. "Dos 5,1 milhões de estabelecimentos rurais do País, a estimativa é de que 1,2 milhão tenham atividade leiteira nas suas estruturas", relata Carrara. No total, o Senar contabilizou 41.959 turmas em 2012, com 631.056 pessoas treinadas e uma carga horária média de 29 horas/aula. Para 2013, a projeção é de 45.078 turmas, 722.302 alunos e carga horária média de 30 horas/aula.

Logo depois da bovinocultura de leite, os cursos voltados à aplicação de defensivos e à utilização de máquinas agrícolas são os mais procurados entre os oferecidos pelo Senar. Em seguida, vêm os treinamentos que abordam questões relacionadas à gestão das propriedades e a cadeias produtivas emergentes, como silvicultura e piscicultura.

Para uma das áreas que mais cresceu nos últimos anos, a agricultura de precisão (AP), o Senar está dedicando uma atenção especial. Por meio de parcerias com indústrias de máquinas, os cursos enfocam não apenas a parte técnica, mas a importância de perceber a ferramenta como um instrumento de gestão da propriedade, desmitificando a AP e explicando conceitos. Para colocar em prática esse curso, o Senar Administração Central capacitou instrutores de administrações regionais com a ajuda de universidades e empresas fabricantes de equipamentos. Em 2012, técnicos de 10 estados participaram das atividades.