Reportagem de Capa

A tecnologia extraordinária da SEMENTE

Considerada pelos especialistas como uma das principais responsáveis pelos sucessivos ganhos em produção e produtividade registrados pela agricultura brasileira ao longo dos últimos anos, a semente, aquela certificada e de alta qualidade, vem ampliando sua participação no mercado e já corresponde a mais de 80% da área cultivada com grãos no País

Gilson R. da Rosa

Em apenas 11 anos, a safra brasileira de grãos saltou de 96 milhões para 185 milhões de toneladas (+92%), enquanto a área cultivada, na mesma comparação, cresceu somente 32%, conforme dados levantados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Este desempenho se deve, em grande parte, à evolução das pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novas e modernas técnicas de manejo, insumos mais eficientes e claro, cultivares mais produtivas e adaptadas às diferentes regiões do Brasil.

Neste contexto, um dos fatores que seguramente tem contribuído para os sucessivos incrementos de produtividade da agricultura é a procura de sementes certificadas e de alta qualidade por parte dos produtores, que alcançou resultados recordes na safra (2012/ Ademir Henning 2013), principalmente no caso da soja e do milho – os dois principais cultivos agrícolas do País. Segundo dados da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), em 2012 as vendas de sementes certificadas atingiram 72% do plantio de soja, o que equivale a 20 milhões de hectares dos mais de 27 milhões semeados. Já no caso do milho, alcançaram 90% do plantio, enquanto no trigo somaram 70%.

O presidente da Abrasem, Narciso Barison Neto, estima que dos 53,5 milhões de hectares de área cultivada com grãos no Brasil em 2013, mais de 46 milhões sejam plantados com sementes certificadas. "A soja deverá ocupar 28 milhões de hectares, o milho 16 milhões e o trigo em mais de 2,3 milhões. Justamente as culturas que mais usam sementes certificadas no Brasil são as que estão com sinalização positiva de preços no mercado internacional, o que deve favorecer os investimentos por parte do produtor em tecnologias mais seguras", observa. Para 2013, um dos objetivos do setor é elevar o percentual de sementes certificadas de soja e de feijão. "A soja tem um expressivo potencial a ser explorado, o que não acontece, por exemplo, com o trigo, cuja produção é estável ou cai. Já o feijão, cuja área de sementes certificadas é de apenas 13% do total cultivado no País, pode crescer muito", avalia Barison.

O mercado mundial de sementes movimenta US$ 37 bilhões por ano. Só o Brasil é responsável por US$ 2,6 bilhões e as empresas filiadas à Abrasem representam 55% do mercado. A tendência, conforme estimativas da Abrasem, é que esse número cresça ainda mais com as novas tecnologias e variedades de sementes, que são lançadas no mercado e melhoram as produções mundiais. Barison explica que com a renda do agricultor em bons patamares, o setor de sementes no Brasil cresce tão rapidamente quanto o agronegócio e deve se manter aquecido nos próximos anos. "Semente não é apenas um insumo, é um ativo com importância crescente no agronegócio brasileiro. Assim, conforme aumenta a renda do produtor, cresce a procura por materiais certificados, que são mais seguros para a atividade agrícola", argumenta.

"A semente de qualidade influi diretamente no sucesso da lavoura e contribui significativamente para que esses níveis de alta produtividade sejam alcançados", explica França Neto, da Abrates

Dentre todas as tecnologias disponibilizadas pela pesquisa aos agricultores, a utilização de sementes certificadas e de alta qualidade tem destaque por influenciar diretamente a produtividade agrícola, haja vista que dela depende a maximização da ação dos demais insumos. "A semente de qualidade influi diretamente no sucesso da lavoura e contribui significativamente para que esses níveis de alta produtividade sejam alcançados", afirma o pesquisador da Embrapa Soja e presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), José de Barros França Neto.

Barison Neto, da Abrasem, explica que o setor de sementes no Brasil cresce tão rapidamente quanto o agronegócio e a renda do produtor se expandem

Produção sob normas — Morfologicamente, a semente é idêntica ao grão comercial, entretanto, semente é aquela produzida com a finalidade de semeadura, sob cuidados especiais. Porém, o processo de produção de sementes de qualidade exige, além de um amplo e rigoroso sistema de controle interno de qualidade por parte das empresas produtoras, o cumprimento de leis e normas estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e outros organismos reguladores, as quais determinam padrões mínimos de qualidade e controle do processo produtivo a fim de se garantir uma produção certificada de sementes.

A certificação de sementes ou mudas consiste no processo de produção executado mediante controle de qualidade em todas as etapas do seu ciclo, incluindo o conhecimento da origem genética e o controle de gerações. Segundo França Neto, dentre os atributos que influenciam na qualidade das sementes, estão, além das características genéticas como resistência a doenças e ciclo de maturação, as qualidades físicas (presença de material inerte e de sementes de outras culturas ou cultivares), fisiológicas (germinação e vigor) e sanitárias (patógenos).

Estas características afetam diretamente o desempenho da lavoura e os custos de produção, na medida em que podem determinar a população adequada de plantas, reduzir a necessidade de aplicação de herbicidas e fertilizantes, e a possibilidade de replantio. "O produtor precisa seguir as recomendações do pacote tecnológico em relação â época de semeadura, nutrição, controle de pragas e doenças, localização da lavoura e a densidade da população de plantas, entre outras práticas", ressalta.

No caso da soja, por exemplo, França Neto sublinha dois fatores que ajudam a estabelecer a população adequada de plantas: a qualidade da semente e um sistema de semeadura de ótima precisão. "Toda cultivar de soja requer uma população de plantas ideal para a obtenção de máximas produtividades. É importante que essa população seja atingida após a semeadura. A utilização de sementes de alto vigor facilita em muito para que isso seja alcançado. Sementes de alto vigor geram plantas de alto desempenho, com um incremento de produtividade de até 10%. Uma semente vigorosa assegura o estabelecimento de uma população adequada de plantas, mesmo sob condições estressantes", garante o pesquisador.

Na avaliação do presidente da Abrasem o Brasil é capaz de dobrar a produção nacional de alimentos em um curto espaço de tempo e se consolidar como o maior fornecedor para o mundo. Basta que os produtores saibam aproveitar o potencial tecnológico que têm à disposição. "Hoje, nossa produção é de aproximadamente 160 milhões de toneladas. Se soubermos aplicar todas as tecnologias disponíveis no campo, e de forma adequada, podemos dobrar esse número para 300 milhões de toneladas", pondera.

Ele observa que o Brasil é, atualmente, o segundo maior fornecedor de alimentos para o mercado internacional, atrás apenas dos EUA, mas a agricultura brasileira tem potencial para tornar o País o maior produtor. "O aumento da produção nacional passa, necessariamente, por sementes de qualidade e agricultores preparados. Não se pode ignorar o fato de que as sementes com biotecnologia, por exemplo, garantem resultados muito melhores para o campo", explica.

De acordo com o dirigente, as ações de fiscalização e o combate intensificado à pirataria na produção e na comercialização estão fazendo crescer a busca e a utilização de sementes certificadas. Os casos mais graves relacionados às culturas mais pirateadas sejam falsificadas ou salvas, identificadas pelo Ministério da Agricultura, Abrasem e Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto), são arroz (40%), feijão (82%), trigo (30%), soja (35%), algodão (44%) e forrageiras (35%). "O que muitos produtores ainda precisam entender é que a semente não é um insumo. O pessoal trata como insumo, mas não é. Insumo é custo enquanto semente é investimento. A semente é o único organismo vivo que compõe a estrutura agrícola. É o principal responsável pela produtividade", afirma.

Atualmente, pelas estimativas da Abrasem, 90% das sementes cultivadas com milho já são certificadas. Na soja, este índice é de 70%, exceto no Rio Grande do Sul, onde a média é de 50%. Na cultura do trigo, este percentual varia de 55% a 60%. Barison, no entanto, lamenta que nas lavouras de feijão, apenas 15% das sementes sejam certificadas. "Justamente na cultura mais brasileira, 85% da semente não é certificada, ou seja, é de qualidade inferior. É uma vergonha nacional. Se conseguirmos ampliar este percentual, poderemos aumentar a produtividade do feijão", compara. O dirigente também faz um alerta: "A semente, pela importância no agronegócio, é questão de segurança nacional. Se não cuidarmos das doenças, voltaremos a infestar os nossos campos com pragas e quem paga esse preço não é só o produtor, mas a toda a sociedade. O processo precisa funcionar em cadeia e, mais do que fiscalizar, passa pela educação e conscientização do produtor", recomenda.

Tratamento — A maioria das culturas destinadas à produção de alimentos está sujeita à incidência de pragas e doenças, e a má qualidade das sementes representa uma das principais causas da baixa produtividade das lavouras brasileiras. As sementes, repletas de nutrientes, são alvos frequentes de pragas e agentes causadores de doenças. Essas ameaças afetam o desenvolvimento inicial da lavoura, provocando danos extensos e que afetam negativamente a produtividade.

Um método muito preciso para a redução de ataques de pragas e doenças na planta em crescimento é a aplicação de produtos químicos na semente. Dentre estes, fungicidas, inseticidas, nematicidas, micronutrientes e reguladores de crescimento, que, conjuntamente, formam a bateria de agroquímicos disponíveis para proteção das culturas e manutenção de seu potencial de produção. Apesar de ser uma tecnologia relativamente antiga, somente de dez anos para cá é que o tratamento de sementes no Brasil tem evoluído em termos de tecnologia e aplicação. Essa evolução aconteceu graças aos investimentos da indústria de agroquímicos na busca do aperfeiçoamento tecnológico. Atualmente, segundo estimativas da Embrapa, cerca de 95% da semente de soja brasileira é tratada com fungicidas e 80% de inseticidas. Já em milho híbridos, 100% das sementes são tratadas com fungicidas e 85% de inseticidas.

Um método muito preciso para a redução de ataques de pragas e doenças no estágio inicial das plantas é o tratamento de sementes com defensivos

Inseticidas — Na cultura do milho, o tratamento de sementes proporciona menor incidência das chamadas pragas do solo (insetos de hábitos subterrâneos), que atacam no início da germinação e afetam de forma significativa a produtividade. "O controle de pragas, principalmente na fase inicial de germinação é fundamental para garantir que todas as sementes que foram colocadas no chão virem realmente plantas e produzam", diz o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Paulo Afonso Viana. Segundo ele, os dois principais grupos de inseticidas utilizados no tratamento de sementes de milho são os neonicotinóides e os carbamatos. Os primeiros controlam as pragas sugadoras como o percevejo barriga- verde e cigarrinhas; os carbamatos controlam, principalmente, as lagartas, como a lagarta-elasmo e lagarta- do-cartucho.

Viana explica que o tratamento de sementes com inseticidas químicos pode ser feito na propriedade, pelo próprio produtor, com a assistência de um técnico, quando necessário, já que os produtos para esta finalidade são permitidos pela legislação. "Esta prática é muito comum, mas algumas empresas também oferecem sementes já tratadas com inseticidas e fungicidas. Algumas revendas também fazem este tratamento, mas cabe ao produtor, primeiramente, identificar os insetos que existem na região, levantar o histórico da área e identificar qual o princípio ativo mais adequado", descreve.

utilização de híbridos de alto potencial produtivo, juntamente com a semeadura de sementes tratadas com inseticidas, conforme o pesquisador, também tem se mostrado uma excelente opção adotada pelos produtores como solução para o controle de insetos, além de reduzir a necessidade de pulverização nos estádios iniciais da cultura. As vantagens proporcionadas pelo uso do tratamento de sementes são a eficiência, o baixo custo do produto e da mão de obra para efetuar o tratamento, e a seletividade do processo, por ser uma aplicação localizada. Além disso, dispensa o trabalho de monitoramento e não utiliza água, essenciais e limitantes quando se faz pulverizações. O inseticida tanto atua diretamente sobre as pragas matando-as por ingestão e contato como também pode atuar por repelência.

Fungicidas — Na cultura da soja, o tratamento de sementes com fungicidas, inseticidas e nematicidas guarda algumas peculiaridades. O pesquisador da Embrapa Soja Ademir Henning lembra que até o início da década de1980 não havia recomendação oficial alguma sobre esta prática. "A primeira recomendação, a partir de 1981, foi o tratamento com fungicidas. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no entanto, só adotaram esta tecnologia em 1983, quando passou a ser nacional. Atualmente, 95% das sementes de soja são tratadas com fungicidas sistêmicos e de contato", relata. Henning acrescenta que o tratamento de sementes com inseticidas é uma tecnologia recente, sendo recomendado apenas para áreas com problemas com nematoides. "O tratamento com inseticidas e/ou nematicidas é realmente um apelo comercial que tem seu valor somente em áreas onde ocorrem essas pragas. Caso contrário é puro desperdício e agressão ao meio ambiente", ressalta.

Um dos grandes problemas verificados neste segmento, segundo o pesquisador, é que as grandes empresas comercializam pacotes fechados com sementes tratadas com fungicidas e inseticidas (e muitas vezes nematicidas, enraizadores, etc.) e tentam impor isso ao produtor, mesmo quando ele não tem necessidade ou problemas com insetos. "Se o produtor aceita, acaba comprando uma coisa que não precisa. Se ele não tem determinado problema em sua lavoura, como insetos ou nematoides, por exemplo, para que utilizar esses princípios ativos?" indaga Henning.

Nestes casos, a Embrapa recomenda a customização do tratamento da semente. "O produtor tem que ter autonomia e o responsável técnico tem que ter o poder de decidir o que é necessário e mais conveniente para o produtor. O tratamento deve atender à necessidade de cada produtor e sua lavoura. Não pode ser pacote fechado", argumenta.

Caixa forte da Embrapa — A Embrapa conta com o maior banco de sementes do país e da América Latina e um dos maiores do mundo, com mais de 120 mil amostras de cerca de 670 espécies vegetais, tanto do Brasil quanto de outras partes do mundo. As sementes são resultados de quase quatro décadas de coletas e intercâmbio com outras instituições nacionais e internacionais. A caixa forte brasileira é mantida na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, e conserva as sementes a 20ºC negativos. Atualmente, o banco genético vegetal da Embrapa tem capacidade para conservar 240 mil amostras de sementes, mas deverá inaugurara ainda este ano um novo prédio que vai praticamente quadruplicar essa capacidade de armazenamento, que passará a ser de 750 mil amostras de sementes. O novo espaço vai contar também com bancos de DNA para conservação de recursos genéticos animais.

"O tratamento com inseticidas e/ou nematicidas tem seu valor somente em áreas onde ocorrem essas pragas. Caso contrário é puro desperdício e agressão ao meio ambiente", adverte Henning, da Embrapa

De acordo com o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, o banco é uma espécie de backup das sementes existentes na natureza e além de ser uma garantia para a segurança alimentar das futuras gerações, funciona como um enorme manancial genético à disposição dos cientistas para o desenvolvimento de variedades melhoradas, com características de interesse da sociedade, como por exemplo, resistência a pragas e doenças, tolerância a estresses climáticos e maior teor nutricional, entre outras aplicações.

Viana, da Embrapa: "O controle de pragas, principalmente na fase inicial de germinação é fundamental para garantir que todas as sementes que foram colocadas no chão virem realmente plantas e produzam"

CBSementes — O segmento de sementes é estratégico para a economia nacional, que depende em grande medida do desempenho do agronegócio, sendo também um parâmetro significativo para avaliar o desenvolvimento do País. É neste contexto que o maior evento sobre tecnologia do segmento e referência na apresentação de resultados chega à sua 18ª edição em 2013. Promovido pela Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates), o XVIII Congresso Brasileiro de Sementes (CBSementes) vai reunir, de 16 e 19 de setembro, no Centro de Convenções Centro Sul, em Florianópolis as principais empresas do setor e mais de 1.500 participantes entre técnicos, produtores, empresários de vários setores, pesquisadores, docentes e estudantes de graduação e pósgraduação vinculados ao setor.

Este ano, o evento tem como tema "A semente na produtividade agrícola e na conservação de recursos genéticos" e contará com palestras, painéis, minicursos, sessões pôster com trabalhos científicos, além do show room tecnológico com exposição de estandes de empresas do segmento de sementes, insumos, máquinas e equipamentos, tecnologia e áreas afins. A programação abrange ainda o XII Simpósio Brasileiro de Patologia de Sementes, o VII Simpósio Brasileiro de Tecnologia de Sementes Florestais e o I Simpósio Brasileiro de Sementes de Espécies Forrageiras.

No ano passado o uso de sementes certificadas cobriu 72% da área de plantio de soja no Brasil, 90% no caso do milho e 70% em trigo

O pesquisador da Embrapa Soja, presidente da Abrates e coordenador do CB Sementes, José de Barros França Neto informa que nesta edição também será lançada a 1ª Feira de Sementes Florestais Brasileira, com o objetivo de informar, promover e incentivar parcerias no setor florestal para a oferta de sementes de qualidade. "A feira também contará com um espaço para a troca de sementes florestais nativas brasileiras e atenderá as áreas de silvicultura, sistemas agroflorestais, recuperação de áreas degradadas e produção não madeireira", explica o coordenador do Simpósio e do Centro de Sementes Nativas do Amazonas da Universidade Federal do Amazonas, Manuel de Jesus Vieira Lima Junior.


Inoculantes: que tal turbinar a semente?

A inoculação de sementes também tem se mostrado uma tecnologia estratégica para a cultura de leguminosas, como a soja. De acordo com o consultor da Associação Nacional dos Produtores e Importadores de Inoculantes (Anpii), Solon de Araújo (foto), consiste em colocar bactérias fixadoras de nitrogênio nas sementes, para transformar o nitrogênio atmosférico, extremamente abundante, em forma aproveitável pelas plantas. "O nitrogênio do ar encontra-se em uma estrutura química não utilizável e é necessária a adição de bactérias que, por meio do processo denominado Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) fazem a transformação para formas químicas que nutrem a planta", explica.

O produto que contém as bactérias, conforme explica Solon, é chamado inoculante e pode ser encontrado em líquido e em pó, sendo misturado com as sementes no dia da semeadura ou incorporado no sulco de plantio. "Esta técnica resulta em grande economia para o agricultor e para o País, mas é importante que seja usado corretamente, pois se trata de produto vivo, necessitando de cuidados para que funcione em toda sua plenitude. Calcula-se que o Brasil economize mais de US$ 6 bilhões anualmente com o uso desta tecnologia nas lavouras de soja, sendo um insumo estratégico para o sucesso da cultura no País", diz o consultor.

O inoculante, segundo ele, é usado há muitos anos em leguminosas, em especial na soja, na qual supre todo o nitrogênio necessário para elevadas produtividades. "Ensaios recentes mostram que se pode superar 100 sacas de grãos por hectare com o inoculante como única fonte de nitrogênio. O feijão também já se beneficia da FBN, bem com outras leguminosas, como caupi, alfafa, trevos, crotalária, etc.", exemplifica.

Solon relata que há quatro anos foi lançado no Brasil um inoculante para as gramíneas milho, trigo e arroz, com bactérias diferentes do inoculante para leguminosas, com grande sucesso. "Hoje o inoculante já é usado em cerca de 3 milhões de hectares destes cereais. Embora ainda não se pense em substituir totalmente o nitrogênio mineral nestas culturas, com mais pesquisas se chegará a substituir importantes quantidades do nutriente químico pelo produto biológico. Testes feitos em laboratórios e em lavouras mostram que a inoculação aumenta, em média, oito sacas de milho por hectare. Outras pesquisas em andamento já prenunciam em futuro próximo o uso de inoculantes em pastagens e em cana de açúcar", acrescenta. Fundada em 1980, a Anpii reúne oito empresas, que respondem por cerca de 70% dos inoculantes comercializados no País.


O longo caminho para uma cultivar nascer

• 1º — Plano de cruzamentos

Escolha de genótipos (carga genética de uma planta) entre as coleções disponíveis em Banco de Germoplasma nacional e internacional
Identificação das características desejadas
Demandas do mercado

• 2º — Desenvolvimento e seleção: 7 a 10 anos

1º a 5º ano, seleção e desenvolvimento de plantas
Parcelas com plantas ou espigas selecionadas
Eliminam-se populações inferiores e indivíduos não desejados
Desenvolvimento de plantas homogêneas em telado e/ou campos experimentais
Interação com a biotecnologia para otimizar a seleção de genes de interesse
Avanço de gerações com técnicas de haplodiplodização (recursos do melhoramento e biotecnologia para economizar tempo e espaço com maior eficiência na identificação de genótipos)

• 3º — Nova linhagem – ainda sem registro ou proteção

• 4º — Experimentação: 4 a 5 anos

Experimentação com parcelas em diferentes ambientes.
Ensaios preliminares: 1º ano (1 local de cultivo) e 2º ano (3 locais)
Valor de Cultivo e Uso – VCU (±10 locais): mais 3 anos
Multiplicação de semente genética
Avaliações de rendimento e qualidade
Registro e Proteção da Cultivar

5º — Transferência da tecnologia

Multiplicação de semente básica de primeira geração
Lançamento comercial da cultivar, destinado ao produtor de sementes
Cultivo em escala comercial pelo produtor de grãos
Tempo total estimado entre 7 a 15 anos

Fonte: Modelo de melhoramento de trigo desenvolvido na Embrapa Trigo