Glauber em Campo

 

O QUE ESPERAR DA CHINA COMO IMPORTADORA DE ALIMENTOS?

GLAUBER SILVEIRA

Entre julho e setembro, uma missão da Aprosoja esteve na China em um encontro com a embaixada brasileira, empresas privadas e públicas do agro chinesas e pôde também visitar alguns portos no país. E, depois de tudo o que foi visto e ouvido durante a missão, não resta dúvida: apesar da redução recente do crescimento do PIB chinês, o país seguirá comprando cada vez mais alimentos do Brasil e do mundo, especialmente soja e derivados. A China tem apresentado um quadro de redução da mão de obra no campo e na cidade, elevação dos salários urbanos e consequente inflação de alimentos. Por isso, apesar de ser autossuficiente em arroz e trigo, tem elevado seu consumo de carnes, o que significa cada vez mais milho e soja para ração. A consequência inevitável é que o país terá que, em um curto espaço de tempo, importar dezenas de milhões de toneladas de milho e farelo de soja.

E não é de se admirar, afinal, apesar de o país ter reduzido o número de desnutridos para cerca de 100 milhões de pessoas desde 1990, sua população cresceu 200 milhões, alcançando a marca de 1,3 bilhão de pessoas. Por isso, como nos tempos da guerra civil da década de 30, reduzir o número de pessoas com desnutrição ainda permanece um desafio para o governo, além de ter de garantir a alimentação de outro bilhão de pessoas. Todos esses números foram apontados por FAO e OCDE em seu último relatório de perspectivas para o mercado mundial de alimentos, o que confirma as perspectivas de que a China não tem opção se não seguir importando.

Além disso, segue com um consumo superando a produção interna de alimentos, como no caso de soja e de outras oleaginosas. Segundo o relatório, a China deve aumentar em 40% suas importações de oleaginosas na próxima década. Isso significa que até 2022 estará importando 82 milhões de toneladas de soja, uma safra brasileira. E os chineses, apesar de grandes consumidores de carne de porco, ainda perdem no ranking mundial para a União Europeia. Mas isso deve mudar nas expectativas de FAO e OCDE até 2022, quando o país deverá assumir a liderança.

A expansão no consumo de outros produtos da pecuária também seguirá durante a década, como é o caso de leite e derivados, que deverá crescer 38%, enquanto o ritmo de crescimento da produção nacional tende a cair lentamente. E isso também levará a cada vez mais importações, chegando a um crescimento de 20% nas compras do país deste tipo de produto.

Agora, olhando para o ponto de vista do Brasil. Mesmo sendo nosso principal parceiro comercial e com perspectivas de crescimento, o Brasil ainda tem importantes desafios nos acordos bilaterais com a China. Exportar farelo de soja para os chineses com uma tarifa de 7% ainda é inviável. E no caso do milho, que está sobrando por aqui, ainda estamos na fase de firmar um protocolo de comércio. O protocolo inclui uma negociação no estilo chinês, na qual muitas exigências sanitárias devem ser feitas, mesmo não fazendo nenhum sentido. Os argentinos já conseguiram passar dessa etapa, mas tiveram que ceder a todas as exigências chinesas. De certa forma, é um alerta para nós, pelo fato de estarem na nossa frente.

Mas, mesmo assim, pelas conversas com nossa adida agrícola e com o governo chinês e tomando como base o ponto de vista das esmagadoras de soja e empresas de ração animal locais, isso deve mudar no curto espaço de tempo. E, independente disso, a China segue como principal destino da soja grão e do óleo brasileiro. Isso mesmo, do óleo também. Em 2012 exportamos 800 mil toneladas de óleo de soja para a China, mais de 40% de 1,8 milhão de toneladas exportadas. Atualmente, 40% dos produtos do complexo soja importado pela China são do Brasil, especialmente o grão, o que representa 80% das exportações do agronegócio brasileiro para aquele país. De forma global, em 2012 o complexo exportou US$ 12 bilhões para o país asiático ou 22 milhões de toneladas.

E, este ano, apesar de uma redução nas compras de soja no primeiro semestre, não há perspectivas de redução para o ano. Pelo contrário, na verdade só houve certo atraso nas entregas devido aos problemas logísticos nos portos brasileiros e um pouco devido à gripe aviária que afetou o país. Entretanto, as perspectivas são de um crescimento de mais de 10% nas compras chinesas de soja, nesse ano e no próximo, segundo nos adiantaram empresas esmagadoras locais. A China pode já este ano importar cerca de 67 milhões de toneladas, contra 59 milhões de 2012. Até julho, só do Brasil a China já importou 10% a mais que no ano anterior, mostrando que não há tendência de arrefecer. Foram 24 milhões de toneladas, ou 77% de toda a soja grão exportada pelo Brasil.

Apesar dos grandes números e perspectivas e um PIB de quase US$ 8 trilhões, a China ainda tem problemas graves com recursos, como é o caso da desertificação. Tem uma área de 2,6 milhões de quilômetros quadrados de terras ameaçadas pela desertificação. Isso representa 27% do território chinês. Somada ao gravíssimo problema de falta de água, com alto nível de poluição e de erosão, a carência de recursos água e terra levou o governo a lançar vários planos emergenciais. Em 2012, o país investiu US$ 65 bilhões em energia limpa e alocou outros US$ 300 milhões para combater a desertificação. Mas problemas desta natureza lá se apresentam como uma oportunidade aqui.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil