Pulverização

 

Tamanho das GOTAS e a qualidade da aplicação

O sucesso ou o fracasso de uma pulverização de defensivos depende da escolha do padrão de gotas

Prof. Dr. Marco Antonio Gandolfo e Prof. Dr. Rone Batista de Oliveira, Núcleo de Investigação em Tecnologia de Aplicação de Agroquímicos e Máquinas Agrícolas (Nitec) da Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Luiz Meneghel, Bandeirantes/PR

A pulverização agrícola convencional ocorre pela projeção de uma lâmina ou jato de líquido pressurizado por um orifício, promovendo a micronização do líquido em gotas pelo choque com o ar da atmosfera ou com um anteparo físico. Esta micronização pode sofrer variações segundo o diâmetro do orifício, seu formato, a existência ou não de um pré-orifício e ainda pela indução de ar na massa de líquido. A velocidade de saída do líquido pelo orifício da ponta depende principalmente de algumas características do líquido e da pressão deste líquido no circuito hidráulico. Os valores de pressão definem, também, a vazão do líquido para cada ponta. Na medida em que a pressão no circuito aumenta, consequentemente, aumenta a velocidade de passagem de líquido pelo orifício da ponta, aumentando tanto a micronização quanto a vazão.

Vale salientar que, para um aumento da ordem do dobro nos valores de vazão, é necessário um aumento de quatro vezes na pressão, devendo o usuário, portanto, estar atento aos limites de pressão propostos pelos fabricantes para as diferentes pontas antes de promover mudanças extremas de vazão unicamente corrigindo a pressão. Com o objetivo de ajudar os fabricantes de agroquímicos e as agências reguladoras, principalmente as agências de proteção ambiental, a Sociedade Americana de Engenharia Agrícola (ASAE) desenvolveu a norma ASAE S-572 para classificação de pontas de pulverização em função do espectro de gotas gerado pelas pontas de pulverização.

A S-572 define a categoria de espectro de gotas da ponta de pulverização para a classificação em condições de ar estático. O propósito da norma é fornecer informações para o uso de pontas quanto ao potencial risco de deriva e à eficiência da aplicação. A norma S-572 classifica a ponta para comparação com base apenas no tamanho de gotas gerado pela ponta, outros fatores da deriva e eficiência, como, por exemplo, trajetória da gota, altura, velocidade, indução de ar, evaporação e impacto no alvo, não são considerados na corrente norma.

A norma S-572 identifica seis categorias de tamanho de gotas: muito fina, fina, média, grossa, muito grossa e extremamente grossa. Também, uma única cor é atribuída para cada classe (estas cores não devem ser confundidas com a ISO de cores para codificação da taxa de vazão). A tabela 1 fornece as categorias de classificação, os símbolos e correspondentes códigos das cores, bem como apresenta o diâmetro médio volumétrico (DMV) do tamanho de gotas associado com cada classe.

A taxa de aplicação da ponta, a pressão de pulverização, as diferentes formas geométricas e operação podem afetar a classificação da ponta, assim, uma determinada ponta pode ser classificada em uma ou mais categorias de tamanho de gotas, dependendo da escolha da taxa de aplicação, pressão de operação e outras condições operacionais. Várias técnicas utilizando instrumentação a laser têm sido desenvolvidas para analisar o espectro de gotas de uma ponta de pulverização, entre as mais comuns e estabelecidas estão as técnicas de difração de raios laser (Malvern) e o método Phase Doppler Analyses (PDA). Ambos os métodos avaliam as gotas no ar, no trajeto entre a ponta de pulverização e o alvo, com sensibilidade para diâmetros sub-micrométricos. Na prática, para saber a classificação de tamanho de gotas de uma ponta comercial sob uma determinada condição de operação, uma das principais maneiras é consultar os dados fornecidos nos catálogos dos fabricantes.

A determinação da classe de gotas resultantes da pulverização é feita comparativamente com classes admitidas como padrões, sendo que o tamanho destas gotas é representado, normalmente, pelo seu diâmetro mediano volumétrico (DMV), que é o tamanho da gota que divide a pulverização de uma determinada ponta em duas partes por volume. Metade do volume pulverizado contém gotas menores que o DMV e a outra metade do volume contém gotas maiores que o DMV, que demonstra um volume de líquido fragmentado em várias gotas por uma ponta de pulverização.

Implicações práticas das classes de gotas — Todos os tipos de pontas geram gotas de diferentes tamanhos, denominado de espectro de gotas, que tem sido reconhecido como a mais importante variável a ser controlada como medida de redução da deriva e deposição do ingrediente ativo nos alvos. Na aplicação de agroquímicos é desejável que se tenha a melhor cobertura possível, o que implica dizer uma menor gota. Porém, gotas pequenas são mais sujeitas a serem carregadas pelo vento e têm vida útil menor (tempo entre o emissor e a chegada ao alvo). Alcançar esse equilíbrio é a chave para minimizar a ocorrência de deriva.

identificação da classe de gotas que melhor atenda à demanda da pulverização deve seguir as seguintes considerações:

• As gotas finas e muito finas devem ser usadas para as aplicações de pós-emergentes que requeiram elevada penetração na massa foliar e maior cobertura do alvo. Estas gotas são altamente sensíveis a perdas por deriva e evaporação, devendo, portanto, ser evitadas nas aplicações em condições ambientais adversas (alta temperatura, baixa umidade e ocorrência de ventos intensos);

• As gotas médias são as mais versáteis para uso agrícola, sendo menos sujeitas às perdas e permitindo seu uso por períodos mais longos que as gotas finas e muito finas. Podem oferecer, inclusive, coberturas semelhantes às gotas finas com o incremento da taxa de aplicação. Servem às aplicações, preferencialmente, de pós-emergentes, podendo ser utilizadas para pré-emergentes com restrições àquelas condições ambientais mais agressivas;

• As gotas grossas devem ser utilizadas, preferencialmente, para aplicações de pré-emergentes, podendo também ser aplicadas aos pós-emergentes, desde que não exijam elevada cobertura das folhas nem alta penetração na massa foliar, já que apresentam algumas limitações quanto a estes parâmetros. Quanto às limitações ambientais, estas gotas oferecem maior resistência às perdas que os padrões de gotas descritos anteriormente;

• As gotas muito grossas e extremamente grossas são as mais indicadas para as aplicações de pré-emergentes e são as que melhor se comportam quanto aos fatores ambientais adversos. Embora também possam ser usadas em pós-emergentes, deve-se levar em conta que a densidade foliar da cultura deve ser baixa para permitir que as gotas grossas sejam distribuídas com maior homogeneidade e com elevados volumes de aplicação para que seja proporcionada uma cobertura satisfatória.

Considerando um mesmo volume de líquido a ser aplicado, na medida em que o tamanho das gotas é reduzido, resulta em um maior número delas por área, o que aumenta a cobertura sobre o alvo. Esta técnica permite utilizar uma determinada cobertura que satisfaça as necessidades de cada uma das aplicações, buscando a maior eficiência possível do produto aplicado, com o menor volume de líquido pulverizado. A evaporação será diretamente proporcional à temperatura do ar, sendo acelerada em ambientes com baixos valores de umidade relativa. Esta evaporação, quando ocorre em níveis elevados, pode impedir a chegada destas gotas ao alvo e, ainda, reduzir o tempo de contato do líquido com o alvo, implicando em menor efeito sobre o mesmo, reduzindo a eficiência da aplicação.

Deriva — Já a deriva pode ocorrer pela ação dos movimentos horizontais do ar (ventos), depositando estas gotas, normalmente, em locais próximos. Pode também ocorrer pelo movimento vertical ascendente do ar aquecido pelo solo durante a incidência dos raios solares na superfície, podendo mover estas gotas na forma líquida para cima ou na forma gasosa, após a evaporação, pela ação convectiva, com posterior condensação em altitude e precipitação em locais distantes. O potencial risco de deriva em nível de laboratório tem sido avaliado em túneis de vento. Entretanto, valores sob condições reais de deriva somente podem ser obtidos por experimentos em campo.

Já a evaporação da gota pode ser medida de duas formas: condição dinâmica e condição de superfície. A condição dinâmica é realizada por meio do acompanhamento da redução do diâmetro e a condição de superfície, por espalhamento e tempo de evaporação, ambos em nível de laboratório. Dependendo do produto químico a ser aplicado, o requerimento de cobertura sobre o alvo pode ser diferente para garantir sua eficácia, não havendo, portanto, uma cobertura mínima única que satisfaça todas as aplicações.

Na tabela 2, podem ser vistos os valores mínimos de cobertura (densidade de gotas) necessários para algumas classes de agroquímicos utilizados frequentemente.

Pontas — Os diferentes tipos de pontas oferecem padrões de qualidade de pulverização que visam atender os objetivos de cada aplicação, sendo a escolha da ponta correta fator fundamental para a eficácia do tratamento e a redução do potencial risco da aplicação. Uma das orientações para esta escolha é o uso de um catálogo de pontas oferecido pelos fabricantes, que auxilia na escolha da ponta e que pode indicar as alternativas de seleção destas pontas para cada situação.

O sucesso ou o fracasso de uma pulverização agrícola depende da escolha de um padrão de gotas que permita minimizar as perdas e que maximize o depósito de produto químico no alvo pelo tempo suficiente para proporcionar o efeito desejado, devendo estar associado aos critérios operacionais mais econômicos e mais seguros (Gandolfo, 2010). A escolha das pontas de pulverização pelas características de espectro de gotas é um importante critério na aplicação de agroquímicos por ter relação direta com o potencial risco de deriva, evaporação, deposição, cobertura, eficiência biológica, bem como o risco ambiental dos produtos aplicados (Oliveira, 2011).