Irrigação

 

Manejo da ÁGUA em lavouras de alta produtividade

Hoje se utiliza mil litros para se gerar um quilo de arroz, volume que representa um quarto da água para a mesma produção obtida na década de 1980, mas como é possível se racionalizar ainda mais a utilização deste insumo?

Engenheiro agrônomo Elio Marcolin, M. Sc. em Irrigação e Drenagem, pesquisador da Estação Experimental do Arroz do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga)

A lavoura de arroz é a mais estável em produtividade no Rio Grande do Sul em razão de ser 100% irrigada durante todo o ciclo. Essa vantagem faz com que se possa utilizar todos os insumos necessários para obter alta produtividade. No entanto, existem algumas regiões onde é preocupante o volume de água disponível para as áreas de lavoura, principalmente as que dependem da água dos mananciais públicos, pois em períodos de longas estiagens no verão há pouca oferta de água, que é dividida entre o abastecimento humano, as indústrias e a agricultura.

Devido a isto, é necessário buscar alternativas de como se utilizar a água de maneira mais eficiente, principalmente na lavoura de arroz, pois na safra 2010/11 a Fotos: Irga irrigação contribuiu com 9,6% do custo de produção da lavoura. Existem duas formas de se realizar a semeadura de arroz: em solo seco (sistemas de cultivo convencional, mínimo e direto) ou com sementes pré-germinadas, em solo previamente inundado. Estes métodos de plantio representaram na safra 2012/13 cerca de 88% e 12%, respectivamente, da área cultivada com arroz irrigado no estado.

Uma das formas de se reduzir o volume de água na cultura de arroz é mantendo a lâmina de água baixa (até 5 centímetros) durante o ciclo da cultura. Esta prática evita o escorrimento superficial e facilita o armazenamento da água das precipitações pluviais, que pode contribuir com volumes entre 30% e 50% do total de água usada, pois a planta de arroz desenvolve-se normalmente, mesmo na ausência de lâmina de água permanente, desde que o solo permaneça saturado para haver a absorção de nutrientes pela planta e evitar a reinfestação por plantas daninhas. Desta maneira é possível reduzir o volume de água utilizado, pois a lâmina de água alta favorece as perdas por evaporação, percolação profunda e infiltração lateral. O manejo da irrigação com apenas a manutenção do solo saturado (sem lâmina de água na superfície) requer preferencialmente que os quadros de lavoura sejam nivelados e que haja um eficiente sistema de irrigação para manutenção do solo saturado, evitando a redução da produtividade de arroz.

O volume de água usado na irrigação por inundação do arroz pode variar em função principalmente do manejo da água, da textura do solo, da umidade relativa do ar e da declividade do solo. Em áreas sistematizadas (áreas niveladas contendo canais de irrigação, canais de drenagem e estrutura viária), o volume de água usado pode ser até 50% menor que em áreas de relevo natural. Segundo as Recomendações Técnicas da Cultura do Arroz irrigado de 2012, para a lavoura de arroz em condições de bom manejo da água são necessárias vazões contínuas de 1 a 1,4 litro de água por segundo por hectare num período médio de irrigação de 80 a 100 dias.

Outros fatores que contribuem para a redução do volume de água usado na lavoura de arroz irrigado são os seguintes: semeadura na época recomendada, início da irrigação quando as plantas estiverem com 3 a 4 folhas e a supressão da água em torno de 15 dias após o florescimento pleno (quando as lavouras apresentarem em torno de 80% das plantas com flores). Desta forma, com a irrigação precoce há menor necessidade de água captada de mananciais para saturação do solo e formação da lâmina superficial, devido a maior quantidade de água armazenada no solo nos meses de primavera, o que aumenta as eficiências de uso de água e de controle de plantas daninhas, favorecendo para uma maior produtividade de arroz.

Semeadura pré-germinada — No sistema de cultivo pré-germinado o preparo do solo pode ser realizado no seco ou na presença de lâmina de água. Preferencialmente, o solo deve ser preparado no seco em razão das vantagens que traz, principalmente na eficiência de uso das máquinas. Mas, a maioria dos usuários ainda realiza o preparo com lâmina de água. Neste caso, as partículas sólidas permanecem por mais tempo em suspensão na água favorecendo as perdas de solo e de nutrientes que são diretamente proporcionais ao intervalo de tempo entre o preparo do solo e a drenagem.

As partículas de solo em suspensão na água e carreadas para fora das áreas de cultivo causam empobrecimento do solo e podem assorear os mananciais hídricos à jusante das áreas cultivadas, em razão da deposição dos materiais sólidos. As perdas podem ser evitadas com a manutenção da água de preparo do solo na lavoura. Mas, para esse manejo, a altura da lâmina de água não pode ser muito alta (até no máximo 10 centímetros) para não interferir no estabelecimento das plântulas. Desta maneira, há menor volume de água utilizado o que reduz o consumo de energia para captação.

O volume de água usado na irrigação por inundação do arroz tem sido reduzido, pois na década de 1980 estimava-se que para produzir um quilo de arroz eram necessários quatro metros cúbicos (4 mil litros) de água. Em função dos avanços tecnológicos na lavoura, incluindo o manejo da irrigação, é possível se produzir um quilo do cereal para cada metro cúbico (mil litros) de água. Isto mostra que, com o uso de tecnologias adequadas é possível se obter altas produtividades, o que contribui para o aumento na eficiência de uso de água na lavoura orizícola, em função de que o volume de água usado no cultivo de arroz irrigado é similar tanto para se obter altas ou baixas produtividades de grãos de arroz.