Milho

 

Por que o REFÚGIO é tão importante

Quem planta milho transgênico precisa reservar uma área próxima à lavoura para o cereal convencional, talhão onde se reproduzirão insetos susceptíveis à toxina Bt, que, acasalados aos já resistentes, reduzirão a velocidade da seleção de uma futura raça de insetos resistentes

Simone M. Mendes, pesquisadora em Entomologia da Embrapa Milho e Sorgo, [email protected], e José M. Waquil, pesquisador Entomologia – RIT DA, [email protected]

A utilização de milho transgênico no Brasil é um caso de rápida adoção de uma tecnologia. Partindo- se da primeira safra, 2008/2009, em que os produtores apenas "experimentavam" a novidade, para 2012/2013, em que as estatísticas apontam para 70% da área plantada de milho no País (Celeres, 2012), verifica-se um crescimento que se deve, é claro, aos benefícios usufruídos pelo produtor, seja na eficiência e na facilidade de controle de pragas, seja pela otimização das tarefas de tratos culturais. Além disso, essa tecnologia trouxe consigo outras características, como a redução da dependência de inseticidas químicos para o controle das principais pragas da cultura.

O milho Bt, atualmente comercializado no Brasil, pode expressar em seus tecidos uma, duas ou até três proteínas obtidas da bactéria Bacillus thuringiensis e tem como pragas-alvo as espécies de Lepidópteros que atacam o milho. No entanto, a expressão contínua das proteínas inseticidas durante todo o ciclo das plantas Bt, somada a esta rápida adoção, representa ameaças à sua durabilidade, pela forte pressão de seleção sobre os insetos-praga. O grande risco da utilização em massa dessa tecnologia, sem as prevenções adequadas, é o desenvolvimento da resistência de insetos.

Trabalhos recentes sobre esse risco têm mostrado a evolução da resistência, em campo, da lagarta-da-espiga-domilho (Helicoverpa zea) e de larva-dediabrótica (Diabrotica v. virgifera) nos EUA; da lagarta-rosada (Pectinophora gossipiela) na Índia; da broca-do-colmo (Busseola fusca) na África, e da largarta- do-cartucho (Spodoptera frugiperda) em Porto Rico. Por outro lado, desde 1997, com a primeira praga-alvo controlada pelo milho Bt nos EUA, a lagarta- europeia-do-milho (Ostrinia nubilalis), até hoje, não se tem registro da sua resistência às proteínas Bt. Portanto, os problemas devem ser tratados caso a caso, com foco nas estratégias para o manejo da resistência.

Como regido pelos princípios da genética de populações, os genes que produzem vantagem adaptativa às espécies no ambiente tendem a aumentar de frequência na população. A expansão da área cultivada com o milho Bt produz uma vantagem comparativa às lagartas que, por acaso, possuam o gene de resistência às proteínas do Bt, já que apenas estas são capazes de se desenvolver normalmente ao se alimentarem desse milho, tornando-se adultos aptos para reprodução, gerando descendentes semelhantes a eles. Assim, a frequência desses indivíduos aumenta a cada geração, dando origem a uma nova raça resistente.

Trabalhos recentes têm mostrado a evolução da resistência, em campo, da lagarta-da-espiga-do-milho e de larvasde- diabrótica nos EUA, da lagarta-rosada na Índia, da broca-do-colmo na África e da lagarta-do-cartucho (foto) em Porto Rico

MRI — Para evitar a evolução da resistência de insetos é necessário realizar o Manejo de Resistência de Insetos (MRI). As duas estratégias básicas para o manejo da resistência no uso do transgênico expressando Bt são as seguintes: expressão de alta dose da proteína (inseticida) na cultivar transgênica e utilização de área de refúgio. Novamente considerando os princípios da genética de populações, o mais provável é que os insetos resistentes estejam em baixa frequência antes da seleção, ou seja, antes do uso de lavouras Bt.

Com a utilização da tecnologia e a redução gradativa dos indivíduos suscetíveis, ocorrerá uma seleção dos indivíduos resistentes à toxina Bt, aumentando assim a frequência dos insetos resistentes e a probabilidade desses indivíduos se acasalarem. Para isso, é necessário plantar uma área da lavoura com híbridos não-Bt, para que os indivíduos suscetíveis à toxina Bt se reproduzam e possam se acasalar com os indivíduos oriundos das lavouras Bt, reduzindo a velocidade da seleção de uma raça de insetos resistentes.

A primeira parte dessa estratégia deve ser garantida pelas empresas detentoras da tecnologia (fornecedoras de sementes modificadas geneticamente), que têm feito um esforço cada vez maior de liberar para comercialização novas tecnologias e combinações daquelas já liberadas. Um híbrido de milho expressando mais de uma proteína inseticida apresenta maior eficácia no controle das pragas-alvo, bem como atividade maior sobre outras espécies, que poderiam não ser controladas por proteínas Bt isoladas. Assim, tem-se obtido efeitos de alta dose para algumas espécies não atingidas pelas proteínas individualmente. Esse é um fato importante para o manejo da resistência dos insetos aos eventos Bt.

A outra parte do MRI é o plantio da área de refúgio, que deve ser feito pelo produtor. Área de refúgio é a semeadura de um percentual da lavoura de milho transgênico Bt com o híbrido de milho não-Bt ou "convencional", de igual porte e ciclo, de preferência os isogênicos dos híbridos transgênicos. O percentual da área da lavoura que deve ser plantada com área não-Bt varia com o tipo de evento transgênico utilizado, podendo variar de 5% a 10% dela. Se o evento expressa mais de uma proteína inseticida para o mesmo inseto- alvo, por exemplo, a área de refúgio pode ser reduzida.

A área de lavoura não-Bt (refúgio) deve estar a menos de 800 metros de distância das plantas transgênicas. Essa distância foi estabelecida a partir de dados de pesquisa feita para as pragas-chave do milho e mostram que essa é a distância média de voo das principais pragas-alvo nessa cultura. Assim, seria ineficiente o produtor fazer o plantio da área de refúgio e deixá-la a mais de 800 metros de distância da área transgênica (Bt), pois os insetos que sobreviverem na área convencional precisam encontrar aqueles que sobreviveram em lavouras Bt para se acasalar. Essas recomendações são no sentido de sincronizar os cruzamentos dos possíveis adultos de lepidópteros-praga, sobreviventes na área de lavouras Bt, com susceptíveis emergidos na área de refúgio.

Simone e Waquil: o ideal é realizar o Manejo de Resistência de Insetos (MRI), que são a expressão de alta dose da proteína (inseticida) e a utilização de área de refúgio

O refúgio estruturado deve ser desenhado de acordo com a área cultivada com a lavoura Bt. Para glebas com dimensões acima de 800 metros, cultivadas com milho Bt, serão necessárias faixas de refúgio internas nas respectivas glebas. Além disso, é importante lembrar que, na área de refúgio, é permitida a utilização de outros métodos de controle, desde que não sejam utilizados bioinseticidas à base de Bt.

Mesmo sabendo que as principais pragas-alvo do milho são polífagas e possuem várias plantas como hospedeiras, onde podem se alimentar e completar seu ciclo, o plantio da área de refúgio com milho é fundamental, sobretudo para garantir a sincronia do ciclo de desenvolvimento e o acasalamento. Além disso, o milho garante refúgio para todas as espécies-alvo da tecnologia, como a lagarta-da-espigado- milho (LEM) (Helicoverpa zea) e a broca-dacana- de-acúcar (BCA) (Diatraea saccharalis), cuja gama de hospedeiros é diferente e reduzida.

O principal risco do não uso da área de refúgio está na rápida seleção de biótipos ou raças das pragas-alvo resistentes às toxinas do Bt. O produtor que está disposto a pagar mais pela tecnologia sabe dos benefícios que ela promove no seu sistema de produção. Portanto, ele deve estar motivado a usar essa tecnologia de maneira responsável (utilizando a área de refúgio), visando apropriar-se desse benefício por muito mais tempo.

Outro aspecto importante é que o produtor não confunda a área de refúgio com a área de coexistência; essa última existe para preservar a liberdade de escolha de produtores vizinhos e consumidores em relação a cultivar de milho. A norma de coexistência do milho Bt com cultivares não-Bt, estabelecida pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) no Brasil, exige para plantios comerciais isolamentos de 100 metros entre lavouras de milho Bt e não-Bt, ou de 20 metros de distância, desde que nessa sejam plantadas dez fileiras de milho não-Bt, com híbrido de igual porte e ciclo. Dessa forma, a área de refúgio pode ser feita com o aproveitamento da área de coexistência, desde que atenda a distância máxima entre o milho Bt e o refúgio, e é o que na prática tem ocorrido. O importante é que o produtor esteja ciente de que essas duas regras devem ser obedecidas e da importância delas tanto para a preservação da tecnologia Bt como para a liberdade do vizinho em produzir milho convencional.

Rotação de genes — O monitoramento da eficácia dos eventos Bt utilizados nas lavouras deve servir de balizamento para a escolha dos eventos transgênicos a serem plantados na safra seguinte. Assim, o produtor deve conhecer todas as proteínas inseticidas expressas em cada evento (tabela) e evitar plantar eventos contendo a mesma proteína inseticida em toda sua lavoura, bem como evitar o plantio daquelas proteínas que apresentaram menor eficácia no controle das lagartas na sua lavoura na safra anterior. É o que se pode chamar de "rotação de genes" ou de proteínas inseticidas. Nesse item, ressalta-se que estão disponíveis para plantio, no Brasil, soja e algodão expressando proteínas Bt (tabela). Os eventos para essas culturas podem conter proteínas inseticidas semelhantes àquelas disponíveis para o milho. Dessa forma, deve-se selecionar, quando possível, diferentes eventos para milho, soja e algodão, evitando sobreposição de proteínas inseticidas, com intuito de reduzir a pressão da seleção naquela área.

Na realidade, hoje o produtor começa a perceber que práticas como o Manejo Integrado de Pragas (MIP) e o monitoramento da eficácia dos eventos Bt no controle das pragas-alvo em suas lavouras devem ser vistas como aliadas no dia a dia das tomadas de decisão e têm papel decisivo no controle de insetos- praga na sua lavoura. Diante de tudo isso, a prática do manejo de resistência é fundamental para a manutenção da tecnologia no campo e deve ser uma via de "mão dupla", envolvendo o empenho das empresas detentoras dos eventos e dos produtores, trabalhando juntos para aumentar a durabilidade da tecnologia.