Soja

 

Redução de custos: o principal insumo é o BOM SENSO

Entre as muitas dicas para se produzir a soja de maneira mais barata na safra que vem aí, a mais importante é não pensar apenas nesta safra, já que a sustentabilidade da agricultura é decorrência de várias safras

José David P. Valendorff, engenheiro agrônomo da Fundação MT

Introduzida no Brasil em 1882 pelo professor Gustavo Dutra, da Escola de Agronomia da Bahia, a soja foi cultivada comercialmente 19 anos depois, em 1901, no Rio Grande do Sul. Inicialmente plantada para fins forrageiros, somente no início dos anos 1940 é que houve a mudança para produção de grãos e farelo. Gradualmente, a cultura foi avançando, impulsionada pela aptidão natural dos solos brasileiros e pela demanda mundial. Teve aumento expressivo no início dos anos 1970 e, já na década de 1980, teve o seu boom.

No início, as produtividades eram baixas e os custos de implantação se limitavam a preparo de solo, aplicação de trifluralina e, no máximo, uma aplicação de inseticida, em que todas as anticarsias (lagarta da soja) eram controladas. Nesta época, "o dinheiro para pagar a peonada saía no cisco", como dizia um falecido tio, referindo- se que o valor para pagar os funcionários era tão irrisório que vinha dos resíduos deixados pelo beneficiamento dos grãos. De lá pra cá, muita coisa mudou, e nem os mais visionários poderiam prever tamanha expansão e a tecnificação necessária, hoje, para cultivar um hectare de soja e manter-se na atividade de maneira sustentável. A produção de soja tornou- se gradualmente mais profissionalizada e com margens mais apertadas, o que forçou o agricultor a investir em tecnologia e gestão. E, como a tolerância aos erros é cada dia menor, o antigo agricultor tornou-se um empresário rural.

Mas, afinal, o que é redução de custos, otimização de recursos e/ou minimização dos riscos? Estes termos por vezes soam como abstratos e tornaram-se tão corriqueiros no dia a dia do agricultor que são buscados a qualquer custo, literalmente, muitas vezes passando por cima das recomendações técnicas e colocando em risco a produtividade, pessoas e o próprio ambiente. Inicialmente, para se falar em maneiras mais eficientes de controlar os custos, é necessário um diagnóstico profundo da propriedade como um todo, e aí sim identificar se é possível reduzir custos de fato. Ou somente é necessária uma realocação dos recursos e técnicas disponíveis. Ou ainda se são necessários investimentos em algum setor.

Não existe um modelo predeterminado de como reduzir os custos de produção, pois a variabilidade de situações encontradas no campo é infinita. Existem sim técnicas mais apropriadas a cada situação, e não é só de uma fazenda para outra, pois existem diferenças dentro da mesma fazenda, de talhão para talhão. E hoje, com as novas tecnologias, é possível identificar e localizar diferenças significativas dentro de cada talhão. Cortar custos é muito fácil, porém fazer isso de maneira racional e ainda incrementar produtividade é o grande desafio da agricultura. Portanto, a diagnose deve ser feita talhão a talhão, considerando sua variabilidade.

Adubação, o maior custo — O conhecimento prévio das características físicas, químicas e biológicas de cada área é imprescindível para determinar as estratégias de adubação, que, hoje, representa o maior percentual na composição do custo. Para obter estas informações é necessária uma análise de solo bem feita - entenda-se "bem feita" como uma análise capaz de expressar a realidade do que está no solo -, pois não é incomum encontrar sintomas de deficiência de nutrientes nas plantas e que não são acusadas pelas análises de solo. Em casos mais específicos, a análise foliar pode auxiliar na tomada de decisão.

De todas as tecnologias disponíveis para a otimização dos recursos, a agricultura de precisão talvez seja a mais promissora, ferramenta que inclui sensores para geração de mapas de colheita, GPS, piloto automático, controladores de vazão e muito mais

De posse destas informações é possível definir quantos quilos de nutrientes – fósforo, potássio, enxofre, etc. – serão necessários para suprir a demanda da cultura. Mas não é só isso. A análise de solo permite identificar quais regiões necessitam ou não de correções químicas com calcário, se o solo é arenoso ou argiloso e em que nível de fertilidade está. Outro ponto fundamental para a definição da estratégia de adubação é identificar a estratificação entre camadas, por isso, a amostragem em camadas de 10 em 10 centímetros traz uma informação valiosíssima quanto a forma da aplicação de calcário e fertilizantes, principalmente os fosfatados.

Talvez a técnica mais adotada hoje em dia para reduzir custos seja a aplicação de fertilizantes a lanço em superfície, que se expandiu rapidamente por aumentar a agilidade da semeadura, reduzir custos e pela facilidade operacional. Esta técnica vem sendo utilizada por alguns agricultores do Mato Grosso há mais de 12 anos, com estabilidade e altas produtividades -, porém há casos mal sucedidos da implantação desta tecnologia. Aí vem a importância de uma avaliação bem feita, e a necessidade de algumas perguntas que todo agricultor deveria fazer antes de optar pela mudança: meu ambiente produtivo permite que eu utilize estas técnicas? Posso reduzir minha adubação pelos níveis de fertilidade que tenho? Que tipo de fertilizante devo utilizar? Mais ou menos concentrado? Formulado ou não? São necessárias correções com calcário? Faço calagem superficial ou incorporada? Estas decisões são muito importantes, pois têm impacto direto nos custos e na produtividade.

Pulverização em baixo volume — Outra técnica amplamente utilizada é a pulverização com baixos volumes de calda, o que permite maior número de hectares aplicados por dia com o mesmo equipamento. Esta ciência, definida como tecnologia de aplicação, vem sendo amplamente estudada e aperfeiçoada para otimizar o uso dos defensivos e aumentar o rendimento operacional. No entanto, como toda tecnologia, deve ser utilizada seguindo alguns critérios fundamentais. Vazões de baixo volume, como 5, 8 e 10 litros/ hectare, já vêm sendo utilizadas há algum tempo pela pulverização aérea, e volumes de até 25 ou 30 litros/hectare vêm sendo aplicados pela via terrestre. Fantástico? Sim, porém estas técnicas devem ser utilizadas em situações específicas sobre um rígido monitoramento das condições ambientais e operacionais. Do contrário, o que deveria ser uma otimização de recursos transforma-se num controle ineficiente da praga ou doença alvo, causando redução do período residual, maior número de aplicações e, em alguns casos, os danos podem ser irreversíveis – como é o caso de aplicações para controle de ferrugem e manejo de algumas lagartas.

Operacional — Com o preço crescente de combustíveis, frete e mão de obra, o custo operacional vem se tomando mais importante na composição do custo final. Por isso, máquinas cada vez maiores são comuns no horizonte, principalmente onde a topografia permite sua utilização, como é o caso do Centro-Oeste. Tratores mais potentes, semeadoras com maior número de linhas, pulverizadores com tanques e barras maiores, colhedoras com plataformas maiores, distribuidores a lanço que fazem faixas mais largas, todos estes equipamentos são objetos de desejo dos agricultores, e é fato que equipamentos maiores demandam menos mão de obra e reduzem o custo operacional. Entretanto, é necessário o correto dimensionamento do parque de máquinas para que o custo operacional seja compatível com o tamanho do empreendimento e da intensificação entre primeira e segunda safra.

Um equívoco recorrente em muitas propriedades é intensificar a segunda safra com o mesmo parque de máquinas, ou ainda adquirir conjuntos de trator/semeadora incompatíveis com a necessidade da área. Um exemplo é a utilização de tratores com menor potência para tracionar semeadoras sem caixa de adubo. Funciona bem em determinadas situações, mas não é pra todo mundo, pois em algumas fazendas a utilização de adubo na linha é fundamental, assim como o plantio com haste sulcadora. Nestes casos não tem jeito, pois a economia momentânea não se sustenta ao longo dos anos.

Agricultura de precisão — De todas as tecnologias disponíveis para a otimização dos recursos produtivos, a agricultura de precisão talvez seja a mais promissora. Muitas vezes confundida com a simples aplicação de corretivos e fertilizantes em taxa variada, este tipo de agricultura vai muito além desta técnica e engloba sensores para geração de mapas de colheita, GPS, piloto automático, sensores de linha, controladores de vazão, taxa variada de sementes e muitos outros sensores que facilitam a vida dos técnicos. Porém, a banalização destas técnicas tem se mostrado catastrófica, quando utilizadas de forma inadequada.

O mais importante depois de todo o diagnóstico da propriedade é analisar a saúde financeira do empreendimento e calcular cada centavo para definir se a adoção de determinada tecnologia é viável e, mais do que isso, se esta é sustentável a médio e longo prazo, pois nenhuma decisão deve ser tomada pensando somente na próxima safra, já que a sustentabilidade da agricultura é medida pela média ao longo das safras.

A produção de soja tornou-se gradualmente mais profissionalizada e com margens de lucros mais apertadas, o que forçou o agricultor a investir em tecnologia e gestão e, ainda, a se tornar um empresário rural

Enfim, depois de revolução industrial, revolução verde e revolução tecnológica, a principal revolução necessária talvez seja a da gestão. É fundamental atingir altas produtividades a baixo custo, porém, se compra dos insumos, comercialização dos produtos, gestão de pessoas e controle de custos não forem bem feitas, o agricultor estará condenado à falência. É só uma questão de tempo até que uma atividade cada vez mais competitiva os exclua do mercado. Os conceitos agronômicos não mudaram, então, o "insumo" mais importante para definir uma tecnologia que reduza custos continua sendo o bom senso.