Na Hora H

 

A VEZ É DO SETOR AGRÍCOLA E NÃO PODEMOS PERDER ESTA CHANCE

Tenho lido e ouvido tanto de economias, crises, análises econômicas, previsões, inclusive as mais catastróficas, de países emergentes e não emergentes, de crises setoriais na indústria e na extração mineral, no comércio, que fico imaginando o que já ouvi tantas vezes: "Isto não será conversa de desocupados que estão procurando chifre em cabeça de cavalo? Para não perderem o emprego ou a notoriedade?". Pela primeira vez temos visto as coisas tão claras e cristalinas que quando vejo esta "basbaquice" na mídia nacional fico pensando que vivemos em mundos diferentes.

Quem não está vendo que os países populosos agora estão crescendo a níveis apreciáveis. Veja a China, a Índia, Coreias, Paquistão e até Afeganistão, Bangladesh e a própria África, com quase 1 bilhão de habitantes, cujos níveis de crescimento são maiores do que os dos países desenvolvidos. Sempre ouvimos dizer que, quando sobe a renda de uma família, a primeira coisa que acontece é a busca por mais e melhores alimentos. Volto a lembrar das teses do Dr. Elizeu Andrade Alves com o Prof. Eduard Shoo de que a cada aumento de 20% na renda familiar dobra o consumo de proteínas nobres. Nunca me esqueci deste enunciado, pois na década de 1970, quando estive no Governo, fui vítima dele. Consegui aprovar um plano na pecuária de corte e de leite que, ao final do nosso Governo, de importadores seríamos exportadores em larga escala. A produção cresceu o esperado, mas com o aumento de renda real, que aquela época chegou a 11,6% na família média, a nossa exportação "foi para o buraco" o consumo próprio a comeu.

Tenho visto muitas análises sensatas sobre possibilidade de crescimento no mundo de suas áreas de produção e vejo que o Brasil aí se destaca como soberano, em que pesem as maluquices dos "achismos" dos radicais do ecologismo.

Gostei do trabalho do Dr. Antônio Arantes Lucio, feito especialmente para a Abramilho, em sua econometria de consumo no mundo. Chamou-nos a atenção para o erro cometido pelas equipes da FAO e da USDA, quando tomam a expansão da demanda mundial medida pelo crescimento das economias ricas (hoje muito menores que os índices de crescimento dos países aqui citados). Ele prova que espantosamente dobra o consumo esperado, especialmente da soja e do milho, produtos que fazem as proteínas nobres. No entanto estou vendo os agoureiros dizendo que, se a safra americana for coroada, vamos ficar entupidos de soja e milho aqui no Brasil. Será que não observamos que os Estados Unidos estão tentando implantar um novo modelo energético e que autorizou o uso de até 150 milhões de toneladas de milho para a produção de etanol e que até hoje não conseguiu usar mais que 123 milhões de toneladas deste produto em suas destilarias e que, no ano passado, chegou inclusive a importar o próprio milho do Brasil para que um número maior delas não ficasse parado? E o Brasil também não vai crescer em seu consumo? Vamos parar em 52 milhões de toneladas de consumo ou vamos botar uma crista, duas cochas e um belo peito em nossas espigas de milho ou, então, duas orelhas, um focinho e quatro belos pernis, valorizando o nosso produto no mercado internacional, onde estamos nos tornando imbatíveis?

O que realmente precisamos e de uma estratégia para a nossa capacidade produtiva seja totalmente aproveitada e que não se perca em custos estratosféricos de deficiência logística que aniquila a nossa capacidade competitiva. Temos que, pelo menos, abastecer de forma conveniente o nosso próprio mercado e não correr de produções de outros países.

Chegou a vez do Brasil. É agora ou nunca. Vamos acreditar em nós mesmos, porque o mundo já acredita que somos a principal saída destas crises. Li um interessante artigo de um provavelmente não desocupado argumentando que se os outros países emergentes estão preocupados com suas crises e as crises no mundo, eles têm razão, pois não têm os espaços e as condições de produzir alimentos como um outro emergente que é o Brasil. Este sim está fora do mundo dos aflitos e desocupados.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura