O Segredo de Quem Faz

 

O TERMÔMETRO político do campo em tempos lights

O agronegócio brasileiro vivencia uma época de commodities com cotações remuneradoras, crédito farto e generalizado do mini ao mega produtor e, claro, alguns problemas econômicos – como o desastre da infraestrutura que tira um naco da rentabilidade de todos os elos da cadeia. Mas e como andam as coisas nos campos políticos da agropecuária brasileira? Para aferir a temperatura desta esfera, é só ouvir uma das lideranças mais ruidosas do setor, Carlos Rivaci Sperotto, presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e um dos vice-presidentes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em anos recentes, foi um dos líderes de verdadeiros levantes do setor, como os movimentos tratoraço e caminhonaço que aportaram em Brasília, a resolução do imbróglio do endividamento dos produtores, o enfrentamento ao MST e a briga pela legalização dos transgênicos no País.

Leandro Mariani Mittmann
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A Granja — Todos conhecem o líder ruralista Carlos Sperotto, mas quem é o produtor rural Carlos Sperotto?

Carlos Sperotto — É uma pergunta que quase nos traz a uma retrospectiva de vida. Sou originário de uma região agrícola, meus pais morando no campo, vim para a universidade. Fiz meus estudos iniciais, o primeiro ano primário interno em Santa Maria/RS, e, juntamente com os meus irmãos, vim para Porto Alegre para me preparar para o vestibular. E escolhi o curso de Veterinária. Neste ínterim, é importante dizer que um período também significativo na vida da gente foi o de CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), onde formei amizades perenes, pois até hoje são grandes companheiros e amigos os que àquele momento prestavam serviço à Pátria, nos investindo de valores cívicos de formação de uma pessoa importantíssimos. No período de faculdade desenvolvi também muitas amizades, conhecimentos recíprocos, e se formou um lastro muito significativo da agropecuária como um todo. Como eu optei por Veterinária, e meus pais tendo campos em Santo Augusto, então município de Palmeiras das Missões/RS, havia lá uma característica: campos de baixa qualidade de oferta de alimentação para animais e caracterizados pela presença da barba de bode tradicional. Hoje, acredito que se alguém procurar pé de barba-de-bode para fazer um chá vai ter que recorrer aquela região toda. A região mudou o perfil no que diz respeito a encarar com seriedade as oportunidades que surgiram. Cheguei pós-formado na fazenda, a gente constatou que os nossos animais não precisavam de medicamentos, de veterinário, precisavam era de comida. E, quanto à comida, enxergávamos uma saída rápida naquele momento, pois se estava no período do boom da agricultura mecanizada no Rio Grande do Sul, estado que passava pela mecanização do campo. Assim, tratamos de dar outra configuração ao solo. E, por meio da agricultura que iniciamos, convivemos com um momento altamente significativo que foi justamente quando o perfil da região sofreu alteração substancial, e passou a ser, em curto espaço de tempo, uma das mais produtivas da agricultura, que iniciava com trigo e, de imediato, a soja se somando e criando a dupla cultura, uma no inverno e outro no verão. Tivemos lá um crescimento muito grande e de imediato aquela região inverteu valores, tanto valor de terras como em valor nas regiões, onde se formaram cidades em todas as esquinas, poderia se dizer, das estradas que existiam, núcleos se concentrando... e olha que estamos falando de 1962 para cá, portanto 51 anos. E passamos, então, a conviver com as oportunidades e também com as dificuldades.

A Granja — E o sindicalismo na sua vida?

Sperotto — Logicamente o associativismo se fez presente no momento em que as questões começaram a surgir de procedimento de tecnologias, onde discutíamos com os parceiros, os companheiros, os vizinhos as tecnologias, as práticas a serem desenvolvidas e, paralelo a isso, se gerou a oportunidade do associativismo. Formei num primeiro momento um rol muito grande de amigos pelo estado como um todo, pois quando Santa Maria sediava todos os filhos de produtores rurais, fazendeiros, todos estudavam no colégio Santa Maria. Então, depois, quando comecei a participar deste processo, tinha a facilidade que, em cada lugar que chegava, sempre tinha um companheiro, ou do colégio Santa Maria, ou da faculdade, ou do CPOR. Os três estágios foram os que me deram a oportunidade a participar inicialmente dos quadros diretivos do sindicato que eu representava. E, paralelo a isso, também convidado que fui a participar de diretorias da Farsul, aqui iniciei uma trajetória de trabalho e busca de tomada de conhecimento nos momentos de dificuldades. E com isso a gente tem aquela vivência de poder dizer que efetivamente o Rio Grande do Sul era o celeiro, enquanto o Brasil inteiro importava alimentos. Enquanto isso o litoral brasileiro olhava para o oceano e não olhava para o seu interior. E foi quando justamente se deu a transferência da capital para o planalto e se encontrou o gaúcho peregrinando por este Brasil na busca por mais terras para poder desenvolver, desbravar, iniciando por Santa Catarina e depois Paraná, Mato Grosso do Sul. Foi o gaúcho crescendo e consolidando a nova fisionomia agrícola do País que hoje muito nos orgulha. São coisas que nós gaúchos levamos conosco... este orgulho altamente representado por uma história curta, breve, que traduz como o Brasil se tornou uma grande potência agropastoril, onde a tecnologia se fez e se faz presente.

A Granja — Quanto a bandeiras, as reivindicações da Farsul, do agronegócio brasileiro como um todo, o que mudou, entrou e saiu da pauta do seu primeiro mandato, em 1997, até agora?

Sperotto — Vivíamos naquele momento um quadro de desconforto no setor, onde um endividamento brutal existia por parte do setor. E este fato foi chamado a atenção no Congresso, quando o Victor Faccioni, então deputado (pelo RS), propôs uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) para justamente verificar os grandes volumes transferidos de capital do campo para as instituições financeiras. E também as importações indevidas. Então se constituiu um grupo de trabalho no Congresso e eu tive a oportunidade, representando a CNA, quando o presidente Antônio Ernesto de Salvo me convidou a assumir a Comissão de Crédito Rural. Passei então a ter um convívio com parlamentares, que me levou inclusive a ser partícipe do relatório final desta CPMI, onde constava como colaborador, mesmo não sendo parlamentar. Era um período curioso, que ninguém gostava de exteriorizar a sua dificuldade, pois seria mal visto perante a comunidade local e as próprias instituições financeiras. Foi um período difícil, em que os produtores, por meio de uma autoconfiança, criaram a coragem de vir à tona e trazer a sua dificuldade. E mais uma vez iniciou no Rio Grande do Sul. E ele, então, encorajado pela posição de grupo que se formou, começou a trazer as dificuldades, e nós começamos a copilar estes quadros, a analisarmos estes processos e trabalharmos o endividamento com todos. Isso foi crescente porque contagiou a posição no sentido de que outros tomassem coragem também de começar a trazer, para nós termos dados para trabalhar. Eu acredito que aí é que se iniciou um trabalho. A nossa dedicação ao tema nos trouxe a oportunidade de uma visualização maior. E este trabalho se concluiu com o relatório final da CPMI, onde as conclusões vieram a resultar numa securitização, depois uma negociação de Pesa (Programa Especial de Saneamento de Ativos Agropecuários), e depois outras tantas negociações que vieram gradativamente se desenvolvendo. E, inclusive, uma negociação que concluímos neste ano que passou, a de negociarmos a dívida do setor arrozeiro, que tinha ficado para trás na negociação do Pesa. E também outras negociações que neste período ocorreram. Então, a característica de negociar os assuntos da agricultura na via do diálogo e da pressão acho que me trouxe aí a uma posição no setor. E, de repente, virei candidato à Presidência da federação, na qual tive em todas as eleições resultados altamente positivos e alentadores. E até hoje tenho um senso que utilizo em todo este período de gestão, a busca da união do segmento e do setor. O diálogo amplo, o diálogo aberto com todos os produtores a qualquer momento. É o que eu digo: o telefone meu é o mesmo que eu comecei, assim como as posições de disponibilidade dele.

A Granja — E neste período houve muitas outras bandeiras, como conflitos com o MST, com o Incra, o tratoraço...

Sperotto — ... o caminhonaço, a cavalgada que saiu daqui de Passo Fundo e foi a Brasília... nós tivemos tantas mobilizações que foram engrossando, encorpando no caminho e chegando robustas na capital e sempre levando consigo a ordem, o respeito... eram movimentações que participei de todas. E, queira ou não, caía na mão da gente para conduzir. Nos assuntos conflitos de terra que ocorreram, a federação sempre teve uma posição muito clara de defesa do direito de propriedade, do respeito à sociedade, e isso nos trouxe agora o quadro que a sociedade entendendo este assunto hoje, o nosso setor chegou a ocupar o espaço a que ela pertencia. Tivemos ainda a transgenia, também um movimento que não pode ser esquecido. Os nossos produtores rurais foram inclusive em excursão à Argentina para ver o que o produtor argentino tinha de diferente, e lá descobriram um horizonte que não poderia deixar de ser implantado no Brasil, e cuja regulamentação do uso da transgenia no Brasil estava trancada nos tribunais, sem as coisas acontecerem. E por meio de um ato de defesa própria, da sua economia, a transgenia entrou no Rio Grande, e nós demos o apoio aos produtores e aqui chegamos a uma posição inicial até de difícil administração e gestão perante o entendimento da prática das leis e tudo, mas acreditamos que hoje a resposta foi dada e da forma como está. Hoje, no Rio Grande, 99% das lavouras são transgênicas. A qualidade que estas lavouras hoje têm está atrelada, vinculada a esta tecnologia que estava disponibilizada. O Brasil inteiro adotou também.

A Granja — Nestes anos todos os conflitos, as diferenças eram muito mais radicais. Hoje as reivindicações são mais lights: infraestrutura, armazenagem... a impressão é que está mais fácil se trabalhar as causas do agronegócio. Seria isso?

Sperotto — Mas, também, trabalharmos tanto tempo e ainda estarmos com as mesmas (risos)... Hoje, sem dúvida, o sucesso do campo cria problemas para os governos. Nesta safra está o exemplo típico. Em 2012 tivemos uma perda brutal (no Rio Grande do Sul, em razão da estiagem): de 28,7 milhões de toneladas caímos para 16,7 milhões. Em menos de um ano nós já recuperamos tudo e já contabilizamos resultados que vieram a se somar também à agricultura brasileira como um todo. O Brasil identificou a deficiência que temos, que são os novos pontos de estrangulamento, de despreparo dos governos para administrarem os resultados que o campo trouxe. O tempo mudou, a época mudou, e a leitura, inclusive, são leituras que a sociedade passou a fazer, não só nós do campo, trazendo estes assuntos. E os resultados altamente positivos na balança comercial, na qual a rubrica agronegócio e agropecuária, a agricultura como um todo, identificava o que estava acontecendo, esta revolução maravilhosa no campo. Chegamos ao ponto que hoje um entre os problemas que estamos identificando é justamente a falta de condições da utilização de toda a tecnologia disponibilizada no maquinário que levamos ao campo. Temos também o braço operacional, o Senar, que está a preparar intensivamente técnicos para serem multiplicadores da tecnologia a ser implementada, para usarmos no mínimo 80% da tecnologia disponível numa máquina. Já que se paga, tem que se ter. E estamos aí absorvendo novas tecnologias, adequação de uso da irrigação como ferramenta de aumento de produtividade e não apenas para combater seca. Ela sendo uma ferramenta de avanço, utilizada em toda a safra que se realiza, e não exclusivamente naquela de seca. Lógico que na de seca ela dá resposta com mais vigor em relação a resultados. E absorvendo tecnologias como a agricultura de precisão e outras. Então, houve uma transformação geral do campo. O campo hoje, independente da dívida de 2012 estar equacionada no tempo, teve um apoio e um auxílio porque ao recuperarmos a safra em 2013, agregou-se a tudo isso o preço das commodities com valorização. Então, os resultados financeiros nos oportunizam a termos daqui para frente resultados favoráveis, uma vez que os cenários que hoje se desenham são de falta de alimentos no mundo, de falta de acolhida ao que se diz respeito a novas tecnologias, em que estamos preparadíssimos. Paralelo a isso, na preservação do meio ambiente o setor buscou uma definição, teve uma coragem muito grande de, embora tendo áreas disponíveis, não trazer este assunto à discussão e sim colocarmos que as práticas que são exigidas para a conservação estão sendo respeitadas. Então, eu vejo um momento muito salutar para este setor.