Eduardo Almeida Reis

 

FOGÃO DE LENHA

EDUARDO ALMEIDA REIS

A lenha, de lenha ou caipira – e há quem diga que não tem sinal de crase em fogão a lenha – é aparato doméstico muito da minha afeição. De alumínio, ferro ou alvenaria, com aberturas por onde saem chamas alimentadas por lenha, é usado para cozinhar e aquecer a água do banho da família. Já construí alguns, comprei outros prontos e conduzi de carro, durante horas, querida amiga que desejava comprar fogão imenso para sua linda fazenda além-paraibana. Comprou-o na fábrica e o instalou para aplauso e felicidade dos seus muitos hóspedes.

Na hipótese de o leitor de A Granja resolver construir fogão de lenha, aqui vai um conselho de graça: em vez de usar canos galvanizados, procure fazer a serpentina com molas de caminhão soldadas. Não importam as "curvas" em ângulos retos e o fato de a "alma" resultar quadrada e não em círculo, como nos canos. Se a solda for bem feita, você terá serpentina pelo resto dos seus dias. Sei disso porque comprei fazenda velhíssima com serpentina de mola e reconstruí o fogão aproveitando a peça que lá está até hoje.

Vivi séculos em diversas roças tomando banhos quentes e comendo acepipes preparados em fogões caipiras. Certa feita, pela inauguração da sede da fazenda de um amigo português, lugar muito frio, 1.600 metros de altitude, inverno, tudo esquematizado para aquecimento pelo imenso fogão feito por eles, encontrei a família inteira arrasada: o fogão "deitava fumo" pela casa inteira, inviabilizando seu funcionamento. E havia caixa de 200 litros para água fervente, revestida com lã de vidro, negócio caprichadíssimo. Manhã seguinte, usando meus estudos sobre lareiras, solucionei o problema. Ventava muito naquele alto de serra. Peguei uma lata vazia, daquelas de 20 litros, pedi a um pedreiro que a recortasse e enrolasse no diâmetro da chaminé de amianto, fiz furos em um dos lados do tubo de lata e o pedreiro instalou minha engenharia, no alto do telhado, com os furos voltados para o lado oposto ao dos ventos dominantes.

Assim, a primeira tiragem tinha força para sair pela ponta da chaminé até que o calor do fogo pudesse vencer a ventania. E a família viveu feliz até vender a fazenda, no ano seguinte, com lucro de um milhão de verdinhos no dólar daquele tempo.

Quando a gente pensa que tudo são flores nos fogões caipiras, surge o doutor Dráuzio Varella para botar água na fervura. Vejamos o que diz o conhecido médico: "Cerca de três bilhões das pessoas mais pobres do mundo ainda cozinham e se defendem do frio por meio da queima de biomassa: madeira, carvão e até esterco de gado. A mesma fumaça que encarde as paredes e escurece o teto de suas casas, infelizmente, invade o aparelho respiratório dos moradores causando 2 milhões de óbitos por ano".

Não contente com esse primeiro susto, prossegue o doutor: "A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o fogão a lenha o fator ambiental responsável pelo maior número de mortes no mundo inteiro. Morre mais gente como consequência desse tipo de poluição doméstica do que de malária (causadora de 800 mil mortes/ano)".

E tem mais: "Mulheres e crianças que vivem em pobreza extrema correm risco mais alto, porque ficam mais expostas – os homens tendem a passar menos tempo em casa. Nas crianças com menos de cinco anos de idade, a principal causa da morte é a pneumonia aguda, seguida pelas complicações da asma. Nas mulheres, a mortalidade está associada à doença pulmonar obstrutivo-crônica – das quais o enfisema é a mais frequente –, à doença cardiovascular e ao câncer das vias respiratórias. Sem nunca haver acendido um cigarro, padecem dos mesmos flagelos que afligem os fumantes".

Varella tinha que implicar com os meus charutos, agora que fiquei livre do fogão de queima de biomassa e devo ter escapado de 11 malárias, uma delas por falciparum. Bom mesmo deve ser não fumar e não passar perto de fogões crepitantes, considerando que o adjetivo crepitante e o verbo crepitar são indissociáveis da lenha que crepita nos fogões e nas lareiras.

Existem centenas de outras maneiras de morrer, a começar pela morte morrida, que disputa com a morte matada o pódio dos óbitos. Na cidade em que vivi, capital do segundo estado mais populoso do Piscinão de Ramos, houve incremento de 57% no número de feridos a tiros atendidos pelo SUS no primeiro trimestre, em comparação com o ano passado. Entre 1996 e 2009, foi de 664% o aumento no número de baleados que morreram antes de chegar aos hospitais.