Plantio Direto

 

Os múltiplos usos da AVEIA no inverno

Luiz Antonio Odenath Penha, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

O cultivo da aveia é boa opção de inverno para rotação de culturas, uma prática que propicia maior produtividade e ganho econômico ao longo dos anos, já que melhora a condição geral dos solos – diminuição da erosão e compactação superficial, incremento da reciclagem de nutrientes e, ainda, aumento na capacidade de reter água, reduzindo e até suprimindo o impacto de veranicos – e reduz a infestação da maioria das pragas e doenças nas culturas subsequentes. A aveia é uma espécie originada na Ásia, no Oriente Médio. Seu primeiro relato de uso é de tribos germânicas no século I, tendo sido introduzida nas Américas pelos espanhóis. As primeiras tentativas de introduções da espécie no Brasil se deram no século XV, mas fracassaram.

Atualmente, é a sétima gramínea mais cultivada no mundo, sendo consumida até 9,3 quilos/habitante/ano na Bielorrússia, enquanto no Brasil consome-se cerca de 2 quilos/habitante/ano. O Brasil produziu 522 mil toneladas em 368 mil hectares, segundo o IBGE. As áreas de cultivo concentram- se no Rio Grande do Sul (64%), Paraná (31,4%) e, mais recentemente, no Mato Grosso do Sul (4,6%). A aveia foi o primeiro alimento a ser reconhecido como funcional ou nutracêutico, ou seja, além dos benefícios nutricionais como alimento, a aveia consumida normalmente resulta em benefícios comprovados para a saúde humana. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reconheceu e autoriza essa divulgação nos rótulos dos alimentos desde 2005. A redução da absorção do colesterol é seu principal benefício.

São três as opções para o cultivo de aveia: produção de grãos para alimentação humana e animal, forragem de inverno e cobertura do solo para plantio direto

São três as opções para o cultivo de aveia: produção de grãos para alimentação humana e animal, forragem de inverno e cobertura do solo para plantio direto. Na impossibilidade de utilizar a área total, podese trabalhar com aveia em metade ou um terço do terreno, variando a cada ano de talhão para que, mesmo alternadamente, seja utilizada sobre 100% da propriedade.

A aveia é amplamente utilizada no plantio direto como cobertura, pois, além de proteger contra o impacto da chuva e evitar a formação de erosão, aumenta a matéria orgânica e recicla nutrientes do solo

Cobertura do solo — A aveia é amplamente utilizada no plantio direto como cobertura. Além de proteger contra o impacto da chuva e evitar a formação de erosão, esta espécie aumenta a matéria orgânica e recicla nutrientes do solo, principalmente o potássio, trazendo-o para a superfície. Para essa finalidade uma excelente opção é a cultivar de aveia preta Iapar 61. Seu longo ciclo, superior a 120 dias na região de Londrina/PR, auxilia a manutenção de cobertura do solo por mais tempo, o que tem grande efeito na redução da infestação de plantas daninhas na cultura subsequente.

Em ensaios conduzidos em 2011 em quatro estados (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo), a cultivar produziu em média 8,5 toneladas de matéria seca por hectare, chegando a 15 toneladas na estação experimental em Londrina. A rusticidade da Iapar 61 é comprovada pelos seus 20 anos no campo, sendo seu potencial preservado pela constante renovação da qualidade genética da semente no próprio Iapar. Isso tudo resulta em uma produção de matéria seca acima de 20% em relação às aveias pretas comuns disponíveis no mercado, as quais têm comercialização de sementes proibida pelo Ministério da Agricultura.

Torna-se necessário cuidado na compra dessa cultivar, pois já foram encontrados vários plantios de outras aveias como se fossem a Iapar 61, resultando em piores resultados para o produtor. O Iapar também lançou este ano a cultivar IPR Cabocla, aveia preta de ciclo curto. Trata-se de uma opção para substituir a aveia preta comum, tendo um ciclo semelhante, e que estará disponível aos agricultores brevemente. Além de uma boa produção, ela possui uma uniformidade de florescimento, o que facilita a colheita de sementes.

Para possibilitar bom desempenho na alimentação do gado durante o inverno, a cultivar de aveia forrageira deve combinar elevada produção de biomassa com qualidade nutricional e ciclo longo

O uso de aveia com duplo propósito: forragem e cobertura de solo também é utilizado. Recomenda-se nesse caso cultivares de ciclo mais longo, para facilitar a capacidade de recuperação da planta. Contudo, como é esperado, a cobertura final de uma aveia pastejada é inferior ao uso unicamente como cobertura. Estudos estão em desenvolvimento no Iapar para avaliar o efeito de diferentes intensidades de cortes na aveia sobre sua cobertura final. Essa redução da cobertura da aveia pastejada deve ser considerada pelo agricultor, pois diminuindo a cobertura, reduz igualmente os benefícios do acréscimo de matéria orgânica no solo e a capacidade de controle de plantas daninhas na cultura subsequente.

Grãos — A produção de aveia para alimentação humana tem mercado definido e exige cultivares específicas para este fim, todas de grãos brancos, cujo plantio, por vezes, é ajustado previamente com o futuro comprador. Principalmente para quem quiser iniciar na atividade, é preferível combinar antecipadamente a venda, para evitar surpresas na colheita.

Com preço menor, o uso de cultivares para produzir grãos destinados à alimentação animal, com ênfase na produção leiteira, também tem seu mercado. Neste caso também se pode trabalhar com a silagem de grão úmido, facilitando o armazenamento na propriedade. Visando atender a este mercado, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) desenvolveu a cultivar IPR Afrodite, específica para a produção de grãos, material que se encontra em fase de multiplicação e estará disponível aos produtores de sementes em 2015. Este cultivo necessita de cuidados como uma cultura de grãos, devendo ser monitoradas pragas e, principalmente, doenças para se obter um bom resultado final.

Visando garantir o bom desempenho de novas cultivares, o Iapar somente lança cultivares de aveia aprovadas pelos rigorosos critérios da Comissão Brasileira de Pesquisa de Aveia (CBPA). Uma das características da metodologia de seleção das linhagens é realizar seleções utilizando testemunhas sem o uso de fungicidas. Isso garante linhagens com boa tolerância às principais doenças de aveia. Além disso, como é realizado um ensaio em rede, diversas instituições realizam a semeadura e avaliação destas linhagens, permitindo que todas sejam testadas e aprovadas simultaneamente em diversas regiões do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo, garantindo uma ampla região de recomendação destas cultivares.

Forrageira de inverno — Para possibilitar bom desempenho na alimentação do gado durante o inverno, a cultivar de aveia forrageira deve combinar elevada produção de biomassa com qualidade nutricional e ciclo longo. Há tanto opções de cultivares do grupo branco quanto do preto. A aveia branca forrageira IPR 126, do Iapar, tem ciclo longo, próximo a 120 dias na região de Londrina/PR, e pela relação folha:colmo de 4,4:1, podendo ser também utilizada para silagem. No momento está suscetível à ferrugem, o que prejudica seu uso como cobertura. Porém, no uso forrageiro, os cortes realizados no pastejo promovem uma renovação da área exposta da planta, mantendo sua recomendação como forrageira. O Iapar está finalizando o desenvolvimento de uma cultivar que substituirá a IPR 126 com várias vantagens, incluindo o ciclo ainda mais longo e maior produção de forragem ou cobertura.

Também é uma boa opção a aveia branca IPR Esmeralda, de ciclo mais curto que a IPR 126. Esse ciclo curto serve também para preencher o vazio outonal, período inicial em que normalmente já houve a diminuição da forragem de espécies de verão e as forrageiras de inverno ainda não estão disponíveis. Essa espécie foi lançada recentemente e está sendo multiplicada, e não há ainda disponibilidade de sementes para os agricultores.

Para o manejo forrageiro é importante observar a altura da planta, tanto para o corte ou consumo animal quanto para permitir sua rebrota. Corte ou pastejo muito espaçados, com muito grande desenvolvimento da planta são prejudiciais para a rebrota, devendo ser evitados. Também o pastejo excessivo ou corte muito baixo limita a capacidade de rebrota da planta, pois ela precisa manter uma reserva para esse processo e manter suas gemas intactas. É indicado o fornecimento de nitrogênio em cobertura a cada corte ou pastejo para que a aveia possa expressar sua máxima capacidade produtiva.