Aviação I

 

Cuidados fundamentais na aplicação AÉREA

Uma série de precauções e procedimentos fará da aplicação de defensivos por meio do avião agrícola uma prática segura e eficiente. Vale à pena até fazer um objetivo checklist

Wellington Pereira Alencar de Carvalho, Prof. Dr. Máquinas e Mecanização – Tecnologia de aplicação, coordenador em aviação agrícola, Universidade Federal de Lavras/MG, Departamento de Engenharia Agrícola, [email protected]

Com a necessidade crescente de aumento na produção agrícola ao mesmo tempo em que se procura comprometer cada vez menos recursos naturais, torna-se imprescindível o desenvolvimento e o emprego de conhecimento tecnológico voltado para a sustentabilidade ambiental. O que faz da aviação agrícola uma ferramenta importante nesse contexto para um efetivo controle fitossanitário por meio de uma aplicação segura, eficiente, econômica. Mas, para isso, é fundamental que sejam observados preceitos legais, de segurança e de qualidade. A aviação agrícola é um serviço especializado que busca proteger ou fomentar o desenvolvimento da agricultura por meio da aplicação em voo de fertilizantes, sementes e defensivos, povoamento de lagos e rios com peixes, reflorestamento e combate a incêndios em campos e florestas e que estabelece responsabilidades e ações a esta atividade.

Em qualquer tipo de aplicação e na contratação de serviços, os custos/benefícios e a qualidade da aplicação são parâmetros fundamentais a serem observados. Caberá às empresas prestadoras um bom atendimento, respeitando as condições previstas no planejamento técnico. Por força de lei, as empresas de aviação agrícola devem contar com profissionais habilitados em sua equipe, entre eles o piloto agrícola e o técnico agropecuário, além de um engenheiro agrônomo como coordenador técnico. Mas, para auxiliar as operações e melhor atender o cliente, muitas empresas buscam consultores técnicos e outros profissionais que monitoram e auxiliam os trabalhos dessas empresas. O que lhes garante um diferencial entre as demais. Durante as operações, alguns pontos devem ser considerados:

• Que produto deve ser aplicado e quais são os resultados esperado com o uso deste produto?

• Como aplicar o produto escolhido?

• Quais são os limites operacionais para a aplicação?

• Como saber se o produto foi adequadamente aplicado?

Evitar a deriva — Por meio de normativas, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento fixa distâncias mínimas que devem existir entre uma aplicação aérea de defensivo e áreas sensíveis. Onde se destaca o seguinte: manter 250 metros de moradias isoladas, 250 metros de mananciais de água de uso geral, 500 metros de cidades e povoações e 500 metros de mananciais de água para abastecimento humano. O principal objetivo dessas normas é prevenir danos decorrentes de uma possível deriva, quando o produto aplicado "escapa" pra fora da faixa aplicada. Apesar destas medidas legais serem específicas para o uso de aeronaves, cabe ressaltar que a deriva é um fenômeno que incide também em operações com equipamentos terrestres (tratores).

Além das distâncias operacionais estabelecidas na legislação, o controle de segurança é feito também de olho na intensidade do vento e sua direção, tamanho das gotas geradas durante a pulverização, associada às condições meteorológicas locais no momento da aplicação, além da natureza da calda pulverizada. Em razão disso, caberá ao operador aeroagrícola avaliar, no momento em que forem realizadas as aplicações, a associação dos fatores que poderão interferir positiva ou negativamente na qualidade da disposição. Ventos contrários às áreas de risco anulam a possibilidade de deriva para esses locais, pois a trajetória de deslocamento será forçosamente direcionada para posição contrária. Por isso, a indicação em croqui da direção do vento é fundamental para prevenir de possíveis contaminações.

Mesmo que o vento esteja indo em direção às áreas sensíveis, necessariamente isto não implica que haverá contaminação a esses locais. No entanto, as situações de deriva são facilmente evidenciadas – por exemplo, na aplicação de herbicidas – se forem observadas injúrias em uma das faces das plantas da área vizinha afetada. A face mais afetada é a que recebe a maior incidência de vento. Mas, se for observada injúria em todas as faces da planta, avaliando-se desde a parte mais alta até sua base, isso pode ser indicativo de deslocamento do defensivo decorrente de inversão térmica. Trata-se de outro fenômeno que requer máxima atenção, já que tem potencial de levar a contaminação para pontos mais distantes da área de aplicação. A presença de inversões térmicas normalmente tem ocorrido em condições de estabilidade atmosférica e com baixíssima intensidade de vento, mais comum em final de tarde. Nesse caso, atenção especial deve ser dada a estas condições de maior risco quando for necessária a realização de pulverizações.

Premissas — Segundo o engenheiro agrônomo José Maria Fernandes dos Santos, no artigo Tecnologia de Aplicação de Defensivos Agrícolas (Instituto Biológico, São Paulo, 2002), para uma boa aplicação, três premissas deverão ser observadas e controladas sob todos os aspectos: o diâmetro da gota, a deriva da gota e a deposição da gota. O autor verifica que o diâmetro da gota será sempre o aspecto que definirá ou determinará de que maneira ou como o alvo final será atingido, favorecendo ou não a deposição em quantidade (densidade) suficiente para o controle e o sucesso do produto aplicado. Deve-se evitar a aplicação do produto quando as plantas apresentarem as folhas muito molhadas, após uma chuva ou devido ao excesso de orvalho, neste caso excetuam-se as aplicações a baixo volume com aeronaves agrícolas. Pulverizações efetuadas com temperatura ambiente entre 15°C e 30°C e umidade relativa do ar acima de 55% apresentam melhores resultados do que as efetuadas com temperaturas muito baixas e baixo índice de umidade relativa do ar.

A importância da aplicação de defensivos em cultivos agrícolas e a preocupação crescente com a segurança e a responsabilidade ambiental têm incentivado o desenvolvimento de novas tecnologias visando à redução do risco de deriva. O que abrange desde o tipo de adjuvante até as pontas de pulverização utilizados em cada operação. Produtos que não apresentam ou têm baixíssima volatilidade em condições normais de condução de lavouras e aplicações não apresentam riscos de ocorrência de deriva. A exemplo do glifosato, que apresenta uma extremamente baixa volatilidade e não sofre evaporação proveniente da deposição no solo ou nas plantas, o que evita a deriva por inversão térmica.

Enfim, para uma operação aeroagrícola segura, valem as dicas do checklist abaixo, adaptado a partir do manual "50 Maneiras de Aplicar Pesticida, Herbicida, Fungicida ou Inseticida – Verifique se Você Sabe o Básico", editado pela Associação dos Agentes Regionais de Agricultura dos Estados Unidos:

Cuidado importante: verifique as pontas, diafragmas e a angulação dos bicos e lembre-se que o controle do tamanho de gota, da vazão, são parâmetros importantes para que o produto possa atingir o alvo

1 – Verifique as pontas, diafragmas e a angulação dos bicos (lembre-se que o controle do tamanho de gota, da vazão, são parâmetros importantes para que o produto possa atingir o alvo);

2 – Verifique as borrachas de vedação do tanque (evitar vazamentos);

3 – Verifique, nas embalagens de preparação de calda, a quantidade, indicação para a cultura e, preferencialmente, sobre estrados na área de preparo para evitar contaminações no solo;

4 – Observe a qualidade da calda (pH) e quantidade exata tanto de produto quanto adjuvantes para as cargas da aeronave;

5 – Mantenha uma planilha de carga (carregamento da aeronave) e de preparo do produto;

6 – Anote em uma planilha as condições meteorológicas das aplicações (temperatura, umidade relativa do ar e velocidade e direção do vento). Esteja especialmente atento e cauteloso de manhã cedo e no fim da tarde, quando podem ocorrer inversões térmicas;

7 – Elabore um mapa (croqui) das áreas de risco e da direção do vento;

8 – Mantenha a comunicação de rádio terra-ar;

9 – Requisite o mapa de voo das aplicações emitido pela empresa aplicadora;

10 – Obrigatório por lei a presença de um técnico agrícola para cada aeronave utilizada;

11 – Fique atento a misturas de produtos, evitando a incompatibilidade de calda. Aplicações em doses mais baixas do que as recomendadas para uma espécie de praga pode favorecer a sobrevivência de indivíduos mais vigorosos. E o aumento de dose pode aumentar a pressão de seleção para resistência;

12 – Observar a descontaminação da aeronave quando houver mudança de culturas e produtos utilizados;

13 – Observe as indicações de bula do produto e recomendações de condições meteorológicas. Use o bom senso quando a operação estiver sob risco de deriva!;

14 – Ajuste o tamanho de gota conforme a indicação para uma boa cobertura/ deposição;

15 – Verifique as condições dos equipamentos de preparo e abastecimento de caldas (motobomba, combustível, lubrificantes e cordas de acionamento);

16 – Alerte o piloto sobre áreas com obstáculos e riscos como redes elétricas;

17 – Adeque a faixa de aplicação ao modelo da aeronave e equipamento instalado;

18 – Observe os cuidados operacionais na retirada da mangueira e fechamento da válvula de abastecimento;

19 – Mantenha junto à área de operações veículos de apoio telefones de urgência (corpo de bombeiros e hospitais da região, por exemplo);

20 – Verifique se no rótulo dos produtos há o telefone de centros toxicológicos de urgência;

21 – Mantenha no registro da empresa aplicadora os croquis e relatórios de aplicação conforme modelo do Ministério da Agricultura;

22 – Verifique se há restrições associadas à aplicação;

23 – Não misture tipos de pontas diferentes em uma mesma barra da aeronave. Todas as pontas devem ser do mesmo modelo (erro aceitável de vazão 5%);

24 – A equipe deve utilizar os EPIs recomendados para a natureza do produto e atividade;

25 – Mantenha as pistas em boas condições de segurança, dimensões compatíveis ao modelo de aeronave e à capacidade de carga compatível.