Bahia Farm Show

 

Oeste baiano expõe sua GRANDEZA

A nona edição da Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães/BA, movimentou – apenas nos bancos – R$ 671 milhões e exibiu a pujança do agronegócio do Oeste baiano. Mas problemas graves como a lagarta Helicoverpa armigera também estiveram em pauta

Leandro Mariani Mittmann
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Ovigor do agronegócio do Oeste baiano esteve muito bem evidenciado – visualmente e em números – na nona edição da feira Bahia Farm Show, realizada em Luís Eduardo Magalhães, no final de maio. Apesar de perdas de 20% nas duas últimas safras em razão do clima, somado ao ataque impiedoso e generalizado da lagarta Helicoverpa armigera, o produtor da região não deixou de investir em tecnoloassociação de produtores de algodão (Abapa) e de revendedores de máquinas e implementos (Assomiba), Fundação BA e prefeitura.

A agricultura da região que compreende, além de Luís Eduardo Magalhães, municípios como São Desidério, Barreiras e Correntina é praticada em 2,25 milhões de hectares, principalmente cultivados com soja, algodão e milho. Mas o potencial a ser cultivado é de gia. O evento deste ano movimentou, apenas nas instituições financeiras, R$ 671 milhões, número que, segundo a organização, deverá ser ampliado em 30% a 40% pelas vendas dos expositores. No ano passado foi negociado um montante de R$ 595 milhões. A feira, que reuniu 63 mil visitantes e 190 expositores numa área de 84 mil metros quadrados, é realizada por Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), outros 5,5 milhões de hectares, sempre com respeito às reservas legais (20% em cada propriedade) e às áreas de proteção permanente. O PIB da agropecuária é estimado em R$ 10 bilhões, e somente a venda da safra 2012/13 deverá movimentar algo próximo a R$ 6 bilhões. Na época de feira, a soja e o milho já tinham sido colhidos, enquanto o algodão começaria duas semanas depois. A região faz do estado baiano, o segundo maior produtor da pluma do País, atrás apenas do Mato Grosso.

Apesar das perdas para a helicoverpa e para as estiagens nas duas últimas safras, o produtor baiano não se furtou de fazer aquisições na feira. Pelas seguintes razões: ele costuma estabelecer planejamentos a longo prazo, vinha das dez safras anteriores com produtividades na média, realidades estas que se somam ao momento econômico de crédito farto e de bons preços das commodities. Estes esclarecimentos são do engenheiro agrônomo, gaúcho de Casca/ RS, Júlio Busato, presidente da feira e da Aiba, que há 26 anos chegou na região. "O produtor do Oeste baiano tem uma programação de compras de cinco a dez anos. Não somente de um ano", explica. "Hoje, tem abundância de crédito. Em quantidade e qualidade, com juros de 2,5%, 3% ao ano".

Busato é o perfil do produtor que migrou para a região de estados sulistas como Rio Grande do Sul e Paraná, principalmente, duas, três décadas atrás. "Aqui tinha um posto de gasolina e um restaurantezinho", descreve o que encontrou. "Tinha 200 mil hectares de soja. Quando alguém conseguia produtividade de 30, 35 sacas por hectare, fazia festa". Hoje, a região é referência no uso de tecnologia de ponta e em produtividades. A média por hectare é de 55 sacas de soja, 160 de milho e 280 arrobas de algodão. A Aiba, fundada em 1990, congrega 1.300 produtores que "investem pesado em máquinas e equipamentos, fazem manejo de solo e adubação equilibrados", define o dirigente. E o produtor que cultiva 1.500 hectares é considerado "médio" para a realidade local. O dirigente se orgulha de a região cultivar o algodão de sequeiro de melhor produtividade e qualidade do mundo. Nos dois parâmetros, só perde para o irrigado da Austrália.

O pavor da helicoverpa — Atualmente, o maior drama dos produtores da região é a helicoverpa. Seu prejuízo estimado nas duas recentes safras, só no Oeste baiano, foi de R$ 1 bilhão. Durante a feira, houve debates, palestras e reuniões sobre o assunto, que tem mobilizado diversas instituições e diferentes esferas de governos. Entre as medidas já tomadas para o enfrentamento, foram enviados produtores e especialistas à Austrália, que enfrentou o problema nos anos 90. Também foram criados cinco grupos de estudos, nas seguintes áreas: vazio sanitário, inseticidas, controle de pupas, inimigos naturais e áreas de refúgio. Conforme Busato, no mundo, no ranking das 100 pragas mais devastadoras da agricultura, a Helicoverpa armigera sempre ocupa a primeira ou a segunda colocação. No Brasil já chegou a 11 estados, sendo a Bahia o primeiro a se manifestar.

Busato, presidente da feira: produtor do Oeste baiano tem planejamento de cinco a dez anos e foi às compras na edição deste ano, apesar das perdas de safras recentes

Busato também lamenta pela não liberação do inseticida Benzoato de Emamectina, princípio ativo que não tem resistência da praga. Segundo ele, o produto é utilizado em 90 países, mas por aqui, apesar do aval do Governo Federal, inclusive da presidente Dilma Rousseff, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério Público têm sido intransigentes. O defensivo até chegou à Bahia, mas foi Fotos: Leandro M. Mittmann apreendido. "O inseticida é importantíssimo para o controle. Terá que ser liberado. Se formos derrotados pela lagarta, haverá diminuição de safra", alerta. E ainda suspeita-se que a lagarta, até então inexistente na América do Sul, tenha chegado ao continente por uma ação de bioterrorismo. "De alguma forma, atravessou o oceano e se instalou no Brasil...", surpreende-se, ao mencionar que ela é comum na África, Indonésia e Austrália.

A helicoverpa mira diversos cultivos, até o feijão de corda produzido por agricultores familiares, mas preocupa de sobremaneira os cotonicultores. A lagarta ataca a maçã da planta, onde consegue rapidamente se esconder e, portanto, dificultar o contra-ataque com inseticida. Por tudo isso, os produtores e as lideranças do algodão estão muito preocupados. "O grande desafio é conviver com a helicoverpa", responde a pergunta sobre qual o maior problema do setor Isabel da Cunha, presidente da Associação dos Produtores de Algodão da Bahia. "A gente espera apoio para a liberação do produto (Benzoato de Emamectina)", complementa. Isabel, gaúcha de Tapera radicada na região há 30 anos, teme pelas safras futuras e aponta a agricultura familiar como o setor mais ameaçado, visto suas condições mais precárias para combatê-la.

Algodão em momento "razoável" — O cenário o algodão para o Oeste baiano não é tão positivo como esteve dois anos atrás, quando produtores chegaram a dessecar lavouras de soja recém germinada para plantar algodão, visto às cotações recordes da época. No início do ano faltou chuva, o que comprometeu a produtividade. "Foi um ano extremamente atípico", conta. "O mais prejudicial em 30 anos que estou aqui." A dirigente revela que, visto a cotação menor e o atual preço histórico da soja, a área de algodão na região encolheu mais de 130 mil hectares na safra que está sendo colhida agora – de 386 mil hectares da safra 2011/12 para 253 mil. Machado, do sindicato rural: questões trabalhistas e ambientais são alguns dos problemas enfrentados pelos produtores da região Isabel, da Abapa: a cadeia do algodão é a que mais emprega e poderá dispensar trabalhadores em razão das perdas causadas pela helicoverpa A cotação está em 85 a 95 cents de dólar à libra-peso, considerado por ela como "razoável". A média boa para o produtor é de 90 cents a 1 dólar. Visto incertezas como a helicoverpa e a diminuição de área, Isabel se preocupa com a perda de postos de trabalho no segmento. "É a cadeia que mais emprega", lembra.

Machado, do sindicato rural: questões trabalhistas e ambientais são alguns dos problemas enfrentados pelos produtores da região

Outras causas dos produtores são pauta do sindicato rural, que engloba 600 associados de oito municípios. Sobretudo questões logísticas, trabalhistas e ambientais. É o que explica o diretor Arlei José Machado. Ele lembra que a região é uma fronteira agrícola, com abertura de novas áreas, o que por vezes cria impasses ambientais, principalmente no âmbito burocrático. "Tem muita área para ser incorporada. O serviço público é lento para se manifestar", reclama, referindo- se às licenças. Há também restrições para o uso da madeira por parte de madeireiras, e o produtor nem ao menos pode queimá-la após abrir uma nova área. Na questão trabalhista a legislação é rigorosa ao extremo, com exigências como "alojamentos melhores que a própria casa deles", define Machado. Impõe banheiros elétricos, sendo que em muitos locais a rede ainda nem existe. Na fazenda dele, por exemplo, a energia chegou apenas neste ano, e assim foi possível dispensar o gerador após décadas.

Isabel, da Abapa: a cadeia do algodão é a que mais emprega e poderá dispensar trabalhadores em razão das perdas causadas pela helicoverpa

O agronegócio da região tem apoio político e econômico do governo estadual. O governador Jaques Wagner esteve na abertura da feira, acompanhado de secretários. E o oeste baiano absorve 90% dos recursos desembolsados pela Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia), principalmente para a aquisição de equipamentos de irrigação e máquinas. "É o que chamamos de 'crédito produtivo', para o cliente desenvolver algo", define Gustavo Grillo, gerente de Agronegócios da agência, quais são os objetivos da instituição. "A produção agrícola empresarial do estado é na região. São todos (produtores) pés no chão", acrescenta. "A instituição estabelece as metas olhando para a região", exemplifica a importância do local Helder Falk, gerente de Negócios do Oeste. Para 2013, a meta da Desenbahia é atingir uma carteira de crédito de R$ 90 milhões apenas no Oeste.