Seminário Cooplantio

 

O futuro do campo também é DELAS

Realizado em Gramado/RS, o 28º Seminário Cooplantio abordou temas ligados à produção e destacou a participação das mulheres no meio rural

Denise Saueressig
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Um debate comandado por produtoras rurais foi um dos principais destaques da 28ª edição do Seminário Cooplantio, realizado entre os dias 3 e 5 de junho, no Hotel Serrano, em Gramado/RS. No tradicional evento promovido todos os anos pela Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto, onde a maioria do público participante é formada por homens, a mesa-redonda "A Mulher na Agricultura Atual e o Futuro" chamou a atenção por experiências apresentadas pelas palestrantes. Ao avaliar o desempenho do seminário deste ano, o presidente da Cooplantio, Daltro Benvenuti, destacou a relevância do debate em que elas foram as protagonistas. "Foi um seminário mais leve, mais objetivo, no qual as mulheres tiveram a melhor avaliação e deram uma aula para muito produtor que já planta há anos", declara.

Nas palestras, as três convidadas relataram sentimentos e percepções bem parecidas. A jovem produtora e engenheira agrônoma Renata Zaffari Arioli recorda que, em 2005, quando terminou a faculdade, tinha receio do preconceito que poderia ser alvo, especialmente porque era preciso dar continuidade ao trabalho desempenhado por profissionais homens na propriedade da família, o Haras e Fazenda Ereporã, em Erechim/RS. "O desafio era ainda maior, porque tinha a questão das gerações. Era preciso dividir as funções com funcionários que estavam conosco desde os tempos do meu avô", conta.

Na área de 1,3 mil hectares, a família cria cavalos e gado de leite e produz sementes de soja, milho, trigo e aveia branca. Além de ter uma função técnica, acompanhando de perto as lavouras, Renata ainda cuida da parte pessoal, que envolve os funcionários e as famílias residentes na fazenda. "Não descuidamos dos incentivos, porque, hoje, o maior desafio é manter a mão de obra qualificada no campo, e sabemos que as pessoas formam um fator determinante para os bons resultados de um negócio", relata.

Diferenciais — O conhecimento aliado à paixão e a firmeza acompanhada de sensibilidade são características que diferenciam o trabalho feminino no campo, acredita a produtora Fernanda Falcão. Na Sementes Falcão, empresa da família que tem sede em Passo Fundo/RS, ela diz que, antes de ser filha, é engenheira agrônoma. "Tinha medo de como seria encarada pelos funcionários que me viram crescer, mas aos poucos consegui deixar de lado esse sentimento e assumir naturalmente as minhas responsabilidades", observa.

Na faculdade de Agronomia, de uma turma de mais de 50 alunos, apenas cinco eram mulheres, lembra a produtora. "Enfrentei muitos olhares de estranhamento no início do curso e em atividades como dias de campo. Mas a minha mãe, que também trabalha na fazenda, teve mais dificuldades do que eu, o que nos leva a crer que as coisas estão mudando", menciona. Fernanda trabalha na parte técnica que envolve a produção nas lavouras mantidas pela empresa em Sarandi/ RS e em Primavera do Leste/MT. Ela ainda tem a função de controlar orçamentos e custos, lidera uma iniciativa de conservação e fertilidade do solo e atua com a gestão dos colaboradores.

Em Santa Vitória do Palmar/RS, a produtora Helena Schmidt administra os 2,2 mil hectares da Agropecuária Pontal, com 45 funcionários. Ela lembra com bom-humor o período em que começou a ajudar o marido nos negócios. "Entrei como voluntária e, um ano depois, fui efetivada", brinca. Helena auxiliou no processo de reestruturação da fazenda na época do Plano Collor, quando as medidas econômicas do Governo exigiram um controle mais rígido das contas. "Plantamos só o que conseguíamos pagar com recursos próprios", revela. Hoje, com os dois filhos adultos, ela diz que a família vivencia uma troca interessante de ideias. "Quando os filhos entram no negócio, você precisa estar aberto às novidades que eles podem trazer. Os pais crescem com essa relação e, ao mesmo tempo, oferecem experiência a eles", avalia.

Atenção ao mercado e às mudanças — Com o tema "Inovação no agronegócio para produzir mais e melhor", o 28º Seminário Cooplantio reuniu em torno de 1,2 mil participantes. Na programação também estiveram em discussão assuntos como nutrição de plantas, manejo de solos, controle de pragas e doenças, cenário econômico e gestão de empresas rurais familiares. A Cooplantio ainda anunciou, durante o evento, a criação do Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA). O título de investimento será formado por recursos de investidores privados e será mais uma alternativa para financiar a produção.

O economista Marcelo Portugal falou sobre a realidade financeira em diferentes mercados do mundo e alertou que um crescimento sustentado da economia brasileira só será possível com mudanças estruturais significativas. "O Governo acreditou que a demanda e o maior consumo poderiam acelerar a oferta. Na minha opinião, entretanto, esse diagnóstico precisa ser revisto, porque, além de ampliar a oferta, o País precisa resolver problemas de falta de mão de obra, infraestrutura deficitária e carência nas áreas de tecnologia e inovação", constata.

Para o consultor Alexandre Mendonça de Barros, a conjuntura exige um acompanhamento estratégico por parte dos produtores. "Pelo cenário atual, acredito numa acomodação dos preços das commodities no segundo semestre, mas é bom considerar as variáveis, porque o momento é nervoso no mercado internacional", menciona. Ele cita as possíveis instabilidades climáticas, especialmente nos Estados Unidos, como razão para mudanças no comportamento dos preços. "O produtor deve ficar atento, porque pode aparecer um prêmio para a soja brasileira no final do ano, já que 20 milhões de toneladas das 38 milhões de toneladas previstas para 2013 já foram exportadas", enumera.

A necessidade de repensar modelos no sistema produtivo foi defendida pelo engenheiro agrônomo e professor Paulo Rigatto. "A escassez e o alto custo da mão de obra exige uma readaptação no Brasil. Em alguns países desenvolvidos, a agricultura significa trabalho em família. Aqui, a produção em crescimento levou à contratação de funcionários. Mas é preciso melhorar as condições para os trabalhadores para mantê-los no campo e, ao mesmo tempo, investir na própria qualificação e no treinamento das pessoas da família", sustenta.