Glauber em Campo

 

ARMAZENAGEM, A NOVA REVOLUÇÃO AGRÍCOLA BRASILEIRA

GLAUBER SILVEIRA

Segundo a FAO, um país precisa ter 1,2 vez sua produção de capacidade de estática de armazenagem. Os Estados Unidos têm capacidade para 130% - ou seja, mais do que recomendado -, a Argentina, para 80% e o Brasil, de 74%. E embora haja alguma proximidade da nossa capacidade com a argentina, as semelhanças param por aí. Tanto o país vizinho quanto os Estados Unidos têm uma logística invejável. Enquanto os produtores de grãos na Argentina e nos Estados Unidos precisam transportar a produção nacional de soja e milho por, no máximo, 400 quilômetros de caminhão, seguindo o resto do caminho por trem ou pelo modal aquaviário, em média no Brasil é preciso transportar por 1.100 quilômetros até os portos, sendo que no Centro-Oeste chega-se a superar os 2 mil quilômetros.

Mas, quando olhamos onde e como está distribuída nossa capacidade de armazenagem, a situação é ainda pior. Enquanto nos Estado Unidos 42% da capacidade se encontra nas fazendas, no Brasil são apenas 14% e na Argentina, 25%. Ou seja, o Brasil é o que mais precisa, mas é o que menos tem. Isso gera uma distorção muito grande na comercialização. Os produtores precisam honrar seus contratos, entregam a soja que, ao invés de ser armazenada em silos, fica armazenada sobre rodas.

E é por isso que a nova linha de crédito para armazenagem anunciada no lançamento do Plano Agrícola e Pecuário 2013/2014 foi extremamente importante. Primeiro, por ter disponibilizado valores muito próximos da necessidade real de investimento para construir armazéns suficientes para armazenar 100% da safra. São R$ 5 bilhões de imediato, mais R$ 5 bilhões para cada um dos próximos quatro anos, totalizando R$ 25 bilhões.

Em segundo lugar, as condições foram muito favoráveis para contratação: juros de 3,5% ao ano, com 15 anos de prazo, mais três de carência. É algo nunca visto. Sem dúvida foi um estímulo muito grande à contratação pelos produtores que já estão motivados pelo alto custo logístico que da soja, que subiu 35% nos últimos cinco anos. No caso do milho, o crescimento do custo foi ainda maior, de 45%. E, em ambos os casos, os custo de porto aumentaram em 30%.

Portanto, tudo indica que, além de boas condições, existe uma atmosfera muito favorável à contratação da nova linha de crédito. Contudo, é preciso considerar que nossos bancos não têm demonstrado tanto interesse de financiar armazenagem para os produtores quanto para a renovação de parque de máquinas. Se um produtor aprova o financiamento de colheitadeiras em um mês, o de um armazém pode levar seis meses e não sair. Por isso, quando estive com o ministro da Agricultura para parabenizá-lo pelas conquistas do Plano Agrícola, também alertei para acompanhar como a linha irá rodar.

Além disso, alertamos também o Ministério da Agricultura da importância de se fazer um acompanhamento do custo dos equipamentos de armazenagem, uma vez que já vimos essa novela. O Governo lança um plano e a indústria coloca ágio tirando proveito sobre o produtor. O ministro Antônio Andrade nos afirmou que chamará todos para conversar e estarão de olho, acompanhando os custos dos novos armazéns.

Outro fator a se observar é que existem perspectivas de safra mundial de milho e soja recordes e os preços dos grãos internos disponíveis já estão em queda. Ou seja, podemos ter anos de vacas magras, o que significa maior viabilidade ainda na armazenagem própria, uma vez que estamos vendo a grande diferença entre o preço disponível e o de balcão. Em alguns casos estão superiores a R$ 10 a saca. Não podemos esquecer que a armazenagem é uma peça fundamental em um grande sistema de logística. O armazém traz independência ao produtor, lhe dando maior segurança na comercialização na busca de melhores preços. Há muito não víamos um Plano Safra que realmente levasse em conta os principais gargalos do produtor. Vamos agora ficar atentos e cobrar para que este seja executado.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil