Eduardo Almeida Reis

 

ASSUNTO CHATO

Eduardo Almeida Reis

Em Itaipava, na hoje sofrida região serrana do estado do Rio de Janeiro, existe um castelo mandado construir no princípio do século passado pelo barão Smith de Vasconcellos, avô da ministra da Cultura, a notória Marta Smith de Vasconcellos Suplicy.

Castelo dotado de todas as frescuras do gênero: pedras encaixadas, pontes-levadiças, alçapões, passagens secretas. Visitei-o há 40 anos ciceroneado pelo zelador e sei que, além dele e de outras poucas originalidades espalhadas pelo mundo, todos os demais castelos não foram construídos por boniteza, mas por precisão, pela necessidade de proteger os castelães e os moradores no entorno das investidas de assaltantes.

A espécie humana nunca foi de brincadeira. Roubos, sequestros, mortes, raptos – tudo quanto se possa imaginar existiu, desde sempre, em todas as sociedades.

Aqui e ali, eventualmente acolá, pode ter existido gente pacífica, mas a regra sempre foi a violência. O que se conta dos nossos índios brigando uns com os outros, e dos colonizadores que os escravizavam, dos churrascos de carnes humanas, das etnias africanas escravizando vizinhos para vendê-los aos traficantes de escravos negros, dos brancos que escravizavam brancos – e a palavra slave, escravo em inglês, que significa "eslavo", não me deixa exagerar.

Eslavo é o povo indo-europeu que habita a Europa central e oriental, provavelmente há 5 mil anos, e cujos descendentes atuais são russos, bielo-russos, ucranianos (ramo oriental), búlgaros, sérvios, croatas, macedônios, eslovenos (grupo meridional), tchecos, eslovacos, poloneses e lusácios (grupo ocidental). Em português, a palavra deve ter vindo do latim medieval slavus, sclavus.

O assunto chato, notícia triste para o brasileiro, é a volta da violência aos nossos campos. Tive sorte: nos anos todos de que vivi na roça – diversas roças em vários estados – violência parecia coisa do passado. As portas das minhas casas não tinham chaves, quer nas roças mineiras, quer nas fluminenses.

Eram raríssimos os abigeatários, isto é, os ladrões de gado. Sempre os houve, é certo, mas um caso aqui, outro acolá, de raro em raro. Tratores e máquinas agrícolas chegavam às nossas fazendas para ficar – e não foi há mil anos, mas ainda outro dia.

Nas cidades médias e grandes havia e há polícia; nas roças, policiamento efetivo era coisa impensável. Ainda me lembro de que na roça fluminense, maior entroncamento rodoferroviário do Brasil, os fazendeiros adotavam um negócio hoje comum na maioria dos bairros urbanos: a vizinhança vigilante.

Nas cidades brasileiras os vizinhos apitam e/ou telefonam para a polícia, sempre que veem movimento suspeito. Na roça, carro estranho era motivo para anotarmos as placas e avisarmos à polícia distante 30 quilômetros. Foi assim com uma Brasília "suspeita" que apareceu em nossa estrada. A polícia apurou que se tratava de um veículo enguiçado. Pertencia a um vendedor modesto que andava pelas fazendas vendendo bobagens aos nossos empregados.

Não me agradam as notícias ruins. Prefiro escrever sobre coisas divertidas, mas jornalismo é serviço e o que tem sido visto em nossos campos não é brincadeira. Violência recente, que se agrava dia a dia. No Triângulo Mineiro não há fazenda que não tenha sido assaltada nos últimos anos. A maioria já está fazendo como na Tanzânia de 20 anos atrás, que produzia cafés finíssimos. Todo o equipamento de irrigação e as máquinas agrícolas eram recolhidos, diariamente, a um depósito vigiado por homens armados, para evitar roubos noturnos. Dá para imaginar o trabalho de montar e desmontar a tubulação todos os dias, sem falar do sufoco de viver num lugar onde a polícia é você.

Nem se pode dizer que o policiamento efetivo de nossas zonas rurais solucionasse o problema, quando se sabe que na cidade grande, a dois quarteirões do palácio do governo de São Paulo, sucedemse os assaltos, os sequestros, os arrastões, os latrocínios.

Que fazer? Não sei. É chato assustar todo mundo com esses fatos, de resto notórios, e não recomendar providências que talvez pudessem controlar ou reverter o quadro de violência rural, mas realmente não sei como sair da entalada. Nas cidades há milhares de pessoas gritando, pedindo socorro e soluções. Na roça é um aqui, outro mais adiante – todos às voltas com o problema, que se junta às chuvas e às secas, aos preços nem sempre compensadores, à falta de estradas para escoamento da produção –, tudo que a gente conhece há muito tempo.

Há 30 anos tive um amigo no Paraná, que transformou sua fazenda numa praça de guerra. Entrada difícil para eventuais assaltantes, era improvável que saíssem vivos, tantos os empregados treinados e fortemente armados. Não é o tipo de vida que sonhamos para nossos netos.